Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo II

Espíritos Felizes (continuação)

Um Espírito nos deu, em outra ocasião, o quadro seguinte do fim do incrédulo:

O incrédulo endurecido experimenta nos seus últimos momentos as angústias desses terríveis pesadelos em que nos vemos à beira de um precipício, prestes a cair no abismo, fazendo inúteis esforços para escapar, sem conseguir recuar. Nesses momentos queremos agarrar a alguma coisa, encontrar um ponto de apoio, mas nos sentimos deslizar. Queremos gritar e não podemos articular palavras. É assim que vemos o moribundo se contorcer, crispar as mãos e emitir sons angustiados, sinais certos do pesadelo em que se encontra. No pesadelo comum o despertar nos livra do desespero e ficamos felizes ao constatar que tudo foi apenas um sonho. Mas o pesadelo da morte se prolonga, às vezes por longo tempo, até mesmo por anos, e o que torna a sensação ainda mais penosa para o Espírito são as trevas em que ele às vezes se vê mergulhado.

7. Dissestes que no momento de morrer perdestes a vista, mas que podíeis pressentir. Compreende-se que não tínheis a visão corporal, mas antes que essa visão se apagasse já entrevíeis a claridade do mundo espiritual?

— Foi o que eu disse anteriormente: o instante da morte torna o Espírito clarividente. Os olhos deixam de ver, mas o Espírito, que possui visão mais profunda, descobre instantaneamente um mundo desconhecido, e a verdade que assim lhe aparece subitamente lhe confere, embora por momentos, uma grande alegria ou uma tristeza inexplicável segundo o estado da sua consciência e a lembrança da sua vida passada.

Trata-se do instante anterior àquele em que o Espírito perde a consciência. Isso explica o emprego da expressão por momentos, pois as mesmas impressões agradáveis ou penosas prosseguem após o despertar.

8. Quereis dizer o que, no momento em que os vossos olhos se reabriram para a luz, vos emocionou entre tudo o que vistes? Quereis descrever-nos, se possível, o aspecto das coisas que então se apresentaram a vós?

— Quando pude voltar a mim e ver o que havia diante dos meus olhos, estava como ofuscado e não percebi bem as coisas porque a lucidez não se restabelece instantaneamente. Mas Deus, que me deu uma profunda prova da sua bondade, permitiu que eu logo recobrasse as minhas faculdades. Vi-me cercado de numerosos e fiéis amigos. Todos os Espíritos protetores que nos assistem me cercaram sorridentes. Uma felicidade sem par os animava e eu mesmo, forte e bem disposto, senti que podia transportar-me sem dificuldades através do espaço. O que então vi, não há palavras para que eu possa explicá-las nas línguas humanas.

Voltarei para vos falar mais amplamente de todas as minhas venturas, sem entretanto ultrapassar o limite estabelecido por Deus. Sabei que a felicidade, como a entendeis, é apenas uma ficção. Vivei prudentemente, santamente, no espírito de caridade e amor e estareis preparados para as sensações que os vossos maiores poetas não poderiam cantar.

Os contos de fadas estão sem dúvida cheios de coisas absurdas. Mas não seriam eles, em alguns pontos, a pintura do que se passa no mundo dos Espíritos? O relato do Sr. Sanson não se assemelha a de um homem que, tendo dormido numa cabana pobre e obscura, de repente acordasse num esplêndido palácio, em meio de uma corte brilhante?

III

9. Sob que aspecto os Espíritos se vos apresentaram? Sob o da forma humana?

— Sim, meu caro amigo, os Espíritos nos haviam ensinado, aí na Terra, que eles conservam no outro mundo a forma transitória que tinham nesse. E essa é a verdade. Mas que diferença entre a máquina informe que se arrasta penosamente ao peso das provas e a fluidez maravilhosa dos corpos dos Espíritos! A fealdade não existe mais, porque os traços perderam a dureza de expressão que caracteriza a raça humana. Deus abençoou todos esses corpos graciosos que se movem com todos os encantos da forma. A linguagem tem entonações intraduzíveis para vós e o olhar possui o mistério das estrelas. Procurai ver, pelo pensamento, o que Deus poderia fazer em sua onipotência, como o arquiteto dos arquitetos, e tereis feito uma frágil idéia da forma dos Espíritos.

10. Como vêdes a vós mesmo? Reconhecei-vos dotado de uma forma limitada, circunscrita, embora fluídica? Possuis uma cabeça, um tronco, braços e pernas?

— O Espírito, tendo conservado a forma humana, mas divinizada, idealizada, tem sem dúvida todos os membros de que falais. Sinto perfeitamente as pernas e os dedos, pois podemos, por nossa vontade, aparecer-vos e apertar-vos as mãos. Estou próximo a vós todos e apertei as vossas mãos amigas, sem que o percebesseis. Nossa fluidez nos permite estar em qualquer lugar sem ocupar espaço e sem provocar nenhuma sensação nas pessoas, se for esse o nosso desejo. Neste momento tendes as mãos cruzadas e tenho as minhas nas vossas. Digo-vos: eu vos amo, mas o meu corpo não toma espaço, a luz o atravessa sem torná-lo visível. E o que chamaríeis um milagre, se ele fosse visível, é para os Espíritos a continuidade de um fato comum de todos os instantes.

A visão dos Espíritos não pode ser comparada com a visão humana, da mesma maneira que os seus corpos não têm semelhança real, pois tudo se modifica no conjunto e na essência. O Espírito, repito, tem uma perspicácia divina que a tudo atinge, podendo mesmo adivinhar o vosso pensamento. Por outro lado, pode tomar a forma que melhor lhe convenha para despertar as vossas lembranças. Mas, neste ponto, o Espírito superior que terminou as suas provas prefere a forma da existência que pode fazê-lo aproximar-se de Deus.

11. Os Espíritos não têm sexo. Entretanto, como ainda há poucos dias éreis um homem, tendes neste novo estado uma natureza mais masculina do que feminina? Acontece o mesmo com um Espírito que tivesse deixado o seu corpo há muito tempo?

— Não temos de possuir natureza masculina ou feminina: os Espíritos não se reproduzem. Deus os criou pela sua vontade, e se, nos seus maravilhosos desígnios quis que os Espíritos se reencarnem na Terra, teve de acrescentar para isso a reprodução das espécies por meio das condições próprias do macho e da fêmea. Mas vós o sentis, sem necessidade de nenhuma explicação — os Espíritos não podem ter sexo.

Sempre tem sido afirmado que os Espíritos não têm sexo, pois este só é necessário para a reprodução dos corpos. Como os Espíritos não se reproduzem, o sexo para eles seria inútil. Nossa pergunta não tinha por fim obter a confirmação desse fato. Mas, em virtude da morte recente do Sr. Sanson, quisemos saber se ele ainda conservava, nesse sentido, uma impressão da sua condição terrena. Os Espíritos purificados compreendem perfeitamente a sua nova natureza, mas entre os Espíritos inferiores, não espiritualizados, há muitos que ainda se acreditam na mesma condição terrena, conservando as suas antigas paixões e os seus desejos. Alguns ainda consideram como homens ou mulheres e é por isso que dizem que os Espíritos têm sexo. É assim que certas contradições decorrem do estado mais ou menos adiantado dos Espíritos que se comunicam. O erro não provém dos Espíritos, mas daqueles que os interrogam sem se darem ao trabalho de aprofundar as questões.

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