Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"
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Capítulo II
Espíritos Felizes (continuação)
7. Conservastes as vossas idéias até o último instante?
— Sim, meu Espírito conservou as suas faculdades. Perdi a visão, mas pressentia. Toda a minha vida se desenrolou na minha memória e a minha última lembrança, meu derradeiro pedido foi o de poder falar convosco, como o faço. Depois pedi a Deus para vos proteger, a fim de que o sonho da minha vida se realizasse.
8. Tivestes consciência do momento em que o vosso corpo dava o último suspiro? O que se passou convosco nesse momento? Que sensações experimentastes?
— A vida se extingue e a vista, ou antes a vista do Espírito se apaga. Encontra-se o vácuo, o desconhecido, e levado por não sei que sortilégio a gente se encontra num mundo onde tudo é alegria e grandeza. Eu não sentia mais, não dava mais conta de mim mesmo, e não obstante uma inefável felicidade me envolvia, não sentia mais o aguilhão da dor.
9. Tendes ciência... (do que me propus a ler no vosso túmulo?)
Pronunciadas apenas as primeiras palavras, o Espírito respondeu, antes que eu acabasse a leitura. Respondeu também, sem que nada lhe perguntassem, ao que discutiam os assistentes sobre a conveniência de se ler a sua comunicação no cemitério, em virtude da presença de pessoas que poderiam ou não participar das suas opiniões.
— Oh, meu amigo, eu o sei, pois já estive ontem convosco, como já estive hoje. Minha satisfação é muito grande! Obrigado, obrigado! Falai, para que possam me compreender e vos apreciar. Nada temais, pois todos respeitam a morte. Falai, pois, para que os incrédulos adquiram a fé. Adeus. Falai, coragem, confiança, que possam os meus filhos converter-se a uma crença tão honrosa!
J. Sanson
Durante a cerimônia do cemitério ele ditou as seguintes palavras:
Que a morte não mais vos atemorize, meus amigos. Ela é para vós apenas uma etapa, se tiverdes sabido viver bem. É uma felicidade, se a tiverdes merecido dignamente, cumprindo bem as vossas provas. Repito-vos: Coragem e boa vontade! Não deis mais do que um medíocre valor aos bens terrenos e sereis recompensados. Não se pode gozar muito, sem roubar o bem estar dos outros, praticando moralmente um imenso mal. Que a terra me seja leve!
II
(Sociedade Espírita de Paris, 25 de Abril de 1862.)
1. Evocação. — Meus amigos, estou perto de vós.
2. Ficamos felizes com a conversa que mantivemos convosco no dia do vosso enterro. E desde de que o aceiteis, seremos felizes de completar o assunto para nossa instrução.
— Estou ao vosso dispor, contente porque pensais em mim.
3. Tudo o que nos puder esclarecer sobre as condições do mundo invisível, fazendo-nos compreendê-lo, representa elevado ensinamento, pois é a falsa idéia que se tem a seu respeito que leva freqüentemente à incredulidade. Não vos admireis, pois, com as perguntas que vos fizermos.
— Não me admirarei e espero as vossas perguntas.
4. Descrevestes com bastante clareza a passagem da vida para a morte. Dissestes que no momento em que o corpo exala o último suspiro a vida se extingue e a vista do Espírito se apaga. Esse momento é seguido de uma sensação penosa e dolorosa?(49)
— Sem dúvida, porque a vida é uma seqüência incessante de dores e a morte é o complemento de todas essas dores. É por isso que se verifica uma ruptura violenta como se o Espírito tivesse de fazer um esforço sobrehumano para escapar do seu envoltório. É esse esforço que absorve todo o nosso ser, não lhe permitindo compreender a transformação porque passa.
Essa não é a regra geral. A experiência mostra que muitos Espíritos perdem a consciência antes de expirar, mas que entre os que chegaram a um certo grau de espiritualização a separação se realiza sem esforços.
5. Sabeis se há Espíritos que sofrem mais nesse momento? Ele é mais penoso, por exemplo, para o materialista, para aquele que crê que tudo então se acaba para ele?
— Isso é certo, porque o Espírito preparado já superou os sofrimentos anteriores, ou melhor, habituou-se a sofrer e a serenidade com que aguarda a morte o livra de sofrer duplamente, mesmo porque ele sabe o que o aguarda. O sofrimento moral é o mais doloroso e a sua ausência no instante da morte representa grande alívio. Aquele que não crê se parece ao condenado à pena capital, que no seu pensamento vê a lâmina e ao mesmo tempo o desconhecido. Há uma semelhança entre essa morte e a do ateu.
6. Há materialistas bastante endurecidos para acreditarem seriamente, nesse momento supremo, que vão ser reduzidos a nada?
— Sem dúvida, há os que crêem nisso até a última hora. Mas no momento da separação o Espírito sofre um retorno às profundezas de si mesmo, a dúvida então o envolve e o tortura, levando-o a se perguntar no que irá se transformar. Ele quer compreender alguma coisa e não consegue. A separação nunca se faz sem essa impressão.
(49) "A vista do espírito se apaga". Este dado é importante porque se relaciona com o problema da percepção espiritual. O Espírito não percebe por órgãos especiais, mas por todo o seu corpo. A transferência da visão, de um campo específico para o geral, requer algum tempo de adaptação. Veja-se, no O Livro dos Espíritos, o capítulo Ensaio teórico sobre as sensações nos espíritos. (N. do T.)
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