Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"
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Capítulo I
A Transição (continuação)
6 — Na passagem da vida corpórea para a vida espiritual ocorre ainda outro fenômeno de capital importância: o da perturbação. Nesse momento a alma experimenta um entorpecimento que paralisa momentaneamente as suas faculdades e neutraliza, pelo menos em parte, as suas sensações. Ela fica, por assim dizer, em estado cataléptico, de maneira que quase nunca tem consciência do seu derradeiro suspiro. Dizemos quase nunca porque há um caso em que ela pode ter consciência desse último instante, como logo veremos.
A perturbação pode, pois, ser considerada como um fato normal no momento da morte. Sua duração é indeterminada, pois ela varia de algumas horas para alguns anos. À medida que ela se dissipa a alma se sente na situação de um homem que acorda de um sono profundo. Suas idéias são confusas, vagas e incertas, a sua visão é como se ela estivesse num nevoeiro; pouco a pouco a visão vai-se esclarecendo, a memória se reaviva, mas isso de acordo com as situações individuais. Para uns, esse despertar é calmo e proporciona uma sensação deliciosa, mas para outros é bem diferente, cheio de terror e angústia, semelhante a horrível pesadelo.
7 — O momento do derradeiro suspiro não é, pois, o mais penoso, porque em geral a alma não chega a percebê-lo. Mas antes ela sofre os efeitos da desagregação da matéria durante as convulsões da agonia, e depois as angústias da perturbação. Apressemo-nos a esclarecer que essa situação não é generalizada. A intensidade e a duração de sofrimento, como dissemos, estão na razão da afinidade existente entre o corpo e o perispírito. Quanto maior for essa afinidade, mais demorados e penosos serão os esforços do Espírito para se libertar. Mas há casos em que a união é tão fraca que a libertação se realiza naturalmente, sem dificuldades. O Espírito se separa do corpo como um fruto maduro que cai do ramo. É o caso das mortes tranqüilas que levam a um despertar pacífico.
8 — O estado moral da alma é a causa principal que determina a maior ou menor facilidade de desprendimento. A afinidade entre o corpo e o perispírito decorre do apego do Espírito à matéria. Chega ao máximo no homem que concentra todas as suas preocupações na vida e nos prazeres materiais que ela oferece. É quase nula naquele cuja alma purificada se identifica por antecipação com a vida espiritual. Como a lentidão e a dificuldade da separação resultam do grau de depuração e desmaterialização da alma, depende de cada um tornar mais fácil ou mais penoso, agradável ou doloroso o momento de sua passagem.
Assim posta a questão, ao mesmo tempo no plano teórico e como resultado da observação, resta-nos examinar a influência do gênero de morte sobre as sensações da alma no derradeiro momento.
9 — Na morte natural, a que resulta da extinção das forças vitais pela idade ou pela doença, o desprendimento se opera gradualmente. No homem cuja alma se desmaterializou e cujos pensamentos se desprenderam da atração das coisas terrenas, o desprendimento quase que se completa antes da morte real. O corpo vive ainda a vida orgânica, mas a alma já penetrou na vida espiritual e somente a ligam ao corpo liames tão frágeis que se rompem sem dificuldade com a última pancada do coração. Nessa situação o Espírito já pode haver recobrado a lucidez e testemunhar conscientemente a extinção da vida no seu próprio corpo, do qual se sente feliz por se livrar. Para ele quase não existe perturbação. Este não é mais do que um momento de sono tranqüilo do qual ele acorda com uma indizível sensação de felicidade e de esperança.
No homem material e sensual, que viveu mais para o corpo do que para as coisas espirituais, para quem a vida espiritual nada era, que nem mesmo a admitia em pensamento, tudo contribui para estreitar os laços que ligam a alma à matéria, pois nada contribuiu para os relaxar durante a vida. À aproximação da morte, o desprendimento se opera também de maneira gradual, mas através de contínuos esforços. As convulsões da agonia revelam a luta que o Espírito sustenta, tentando às vezes romper os laços que o seguram e de outras vezes apegando-se ao corpo do qual uma força irresistível o vai arrancando com violência, mas parte a parte.
10 — O Espírito se apega tanto mais à vida material quando nada vê além dela. Sente que ela lhe escapa e quer retê-la. Ao invés de se entregar às forças que o arrastam, resiste com todas as suas energias. Essa luta pode se prolongar por dias, semanas e meses. Não há dúvida, nesse momento o Espírito não goza de toda a sua lucidez. A perturbação já terá começado bem antes da morte, mas nem por isso é menor o seu sofrimento, e o estado de vacuidade mental em que se encontra, a incerteza quanto ao que lhe acontecerá depois aumentam as suas angústias. A morte chega e nada se acabou, pois a perturbação continua. Ele sente que está vivo, mas não sabe se essa vida é a material ou a espiritual. Luta ainda até que as últimas ligações do perispírito com o corpo sejam rompidas. A morte pôs termo à moléstia que ele sofria, mas não sustou as suas conseqüências, de maneira que enquanto existirem pontos de contato entre o corpo e o perispírito, o Espírito é atingido por essas conseqüências e sofre com elas.
Bem diferente a situação do Espírito que já se desmaterializou, mesmo no caso das doenças mais cruéis. As ligações fluídicas com o corpo tendo-se enfraquecido, rompem-se sem nenhuma dificuldade, e além disso a sua confiança no futuro, que ele já entrevê mentalmente e às vezes mesmo de maneira real, o leva a encarar a morte como uma libertação e os seus males como uma prova. Daí a tranqüilidade moral e a resignação que suavizam os seus sofrimentos. Após a morte, tendo as ligações sido rompidas de maneira instantânea, ele não sente nenhuma reação dolorosa. Pelo contrário, ao despertar sente-se livre, disposto, aliviado de um grande peso e muito feliz por não estar mais sofrendo.
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