Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo XI

Da Proibição de Evocar os Mortos (continuação)

Quando a evocação é feita religiosamente, com o devido recolhimento; quando os Espíritos são chamados com afeto e simpatia, pelo desejo sincero de instrução e de aperfeiçoamento moral, e não por curiosidade; não se percebe o que haveria de falta de respeito, e isso tanto ao chamar as pessoas depois de mortas como durante a vida.

Mas há uma outra resposta decisiva a essa objeção. É que os Espíritos se manifestam livremente e não de maneira forçada. Eles costumam vir espontaneamente até nós, sem serem chamados, e revelam a satisfação de poderem comunicar-se com os homens, lamentando freqüentemente o esquecimento em que às vezes os deixam. Se eles fossem perturbados na sua paz ou não gostassem de ser chamados, declarariam isso ou não nos atenderiam. Desde que são livres, quando nos atendem é porque isso lhes convém.

11 — Alega-se ainda: "As almas moram no lugar que a justiça de Deus lhes determinou, seja no Inferno ou no Paraíso." Assim, as que estão no inferno não podem sair, embora toda liberdade seja dada aos demônios nesse sentido. As que estão no Paraíso acham-se inteiramente entregues à beatitude e estão muito acima dos mortais para se preocuparem conosco, sendo muito felizes para voltar a esta Terra de misérias, interessando-se pelos parentes e amigos que aqui deixaram. Essas almas seriam como os ricos que desviam a vista dos pobres, com receio de que eles lhes perturbem a digestão? Se assim fosse, elas seriam bem pouco dignas da felicidade suprema, que seria, por sua vez, o prêmio do egoísmo.

Restam aquelas que estão no Purgatório. Mas essas são almas sofredoras e têm de pensar antes de tudo na própria salvação. Dessa maneira, nenhuma delas podendo nos atender, é somente o diabo que se apresenta. Mas se elas não podem vir, não há nenhum motivo para temermos perturbar o seu repouso.

12 — Aqui se apresenta outra dificuldade. Se as almas que estão na beatitude não podem abandonar a sua morada feliz para socorrer os mortais, porque a Igreja invoca a assistência dos santos, que devem gozar da maior soma possível de beatitude? Por que aconselha ela aos fiéis que os invoquem nas doenças, aflições e para se preservarem dos flagelos? Por que, segundo ela, os santos, a própria Virgem mostram-se aos homens através de visões e fazem milagres? Eles deixam, então, o céu para vir à Terra. Se esses Espíritos que se encontram no mais alto dos céus podem deixá-lo, por que motivo os que estão mais em baixo não o poderiam?

13 —Que os incrédulos neguem a manifestação das almas, isso se concebe em razão da sua própria descrença. Mas o que estranha é ver aqueles cuja crença repousa precisamente na existência da alma e no seu futuro, se encarniçarem contra os meios de se provar que ela existe, esforçando-se por demonstrar que isso é impossível. Pareceria natural, ao contrário, que os que têm maior interesse na sua existência aceitassem com alegria e como uma graça da Providência o aparecimento dos meios de confundir os negadores por provas irrecusáveis, desde que são eles os negadores da própria religião.

Deploram essas pessoas, incessantemente, a propagação da incredulidade que aniquila o rebanho de fiéis, mas quando se lhes apresenta o mais poderoso meio de combatê-Ia, repelem-no com mais obstinação do que os próprios incrédulos. Depois, quando as provas se multiplicam a ponto de não deixarem nenhuma dúvida, recorrem como argumento supremo à proibição de tratar do assunto, e procuram para justificá-la um artigo da lei de Moisés de que ninguém se lembrava e ao qual pretendem dar, de qualquer maneira, uma aplicação que não pode ter. E ficam muito felizes com essa descoberta, sem perceberem que esse mesmo artigo constitui uma justificação da Doutrina Espírita.

14 —Todos os motivos alegados contra as relações com os Espíritos não podem suportar um exame sério. Do próprio empenho com que se entregam a essa luta pode-se deduzir que a questão envolve grandes interesses, pois do contrário não haveria tamanha insistência. Ao ver esta cruzada de todos os cultos contra as manifestações, poderíamos dizer que eles estão atemorizados. O verdadeiro motivo poderia ser o temor de que os Espíritos, demasiado clarividentes, viessem esclarecer os homens sobre os pontos que eles tentam manter na obscuridade, fazendo os homens conhecerem de maneira precisa o que se refere ao outro mundo e às verdadeiras condições para nele serem felizes ou infelizes.

É por isso que, da mesma maneira que se diz a uma criança: não vá lá porque existe um lobisomem, dizem aos homens: não evoqueis os Espíritos, pois quem atende é o Diabo. Mas não haverá dificuldade: se proibirem aos homens de evocar os Espíritos, não poderão impedir os Espíritos de virem até os homens para tirar a lâmpada debaixo do alqueire.

O culto religioso que estiver de posse da verdade absoluta nada terá a temer da luz, porque a luz fará ressaltar a verdade e o demônio não poderia prevalecer contra a verdade.

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