Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"
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Capítulo X
Intervenção dos Demônios nas Manifestações Modernas
Malgrado o cuidado que tomam de se esconderem sob os nomes mais venerados, eles se traem pelo vazio das suas doutrinas, e não menos pela baixeza de seus atos e a incoerência das suas palavras. Esforçam-se para fazer desaparecerem os símbolos religiosos, os dogmas do pecado original, da ressurreição dos corpos, da eternidade das penas e toda a revelação divina, a fim de tirarem às leis a sua verdadeira sanção e romper todas as barreiras aos vícios. Se as suas sugestões pudessem prevalecer, eles formariam uma religião cômoda para o uso do socialismo e de todos aqueles para quem a noção do dever e da consciência é importuna. A incredulidade do nosso século lhes preparou o caminho. Possam as sociedades Cristãs, por um retorno sincero à fé Católica, escapar ao perigo dessa nova e temível invasão!
5 — Toda essa teoria repousa no princípio de que os anjos e os demônios são seres diferentes das almas humanas e que estas constituem uma criação especial, inferior mesmo aos demônios em inteligência, em conhecimentos e em todas as espécies de faculdades. Ela conclui pela intervenção exclusiva dos anjos maus nas manifestações antigas e modernas, atribuídas aos Espíritos dos mortos.
A possibilidade das almas se comunicarem com os vivos é uma questão de fato, que resulta da experiência e da observação e não a discutiremos aqui. Mas admitamos, por hipótese, a doutrina acima e vejamos se ela não se destrói a si mesma por seus próprios argumentos.
6 — Das três categorias de anjos, segundo a Igreja, uma se ocupa exclusivamente do Céu; outra, do governo do Universo; e a terceira é encarregada da Terra, encontrando-se nela os anjos guardiães incumbidos da proteção de cada indivíduo. Somente uma parte dos anjos dessa categoria envolveu-se na revolta, sendo eles transformados em demônios. Se Deus permitiu a estes últimos levarem os homens à perdição pelas sugestões de toda espécie e pelas manifestações ostensivas, porque, se Ele é soberanamente justo e bom, lhes teria dado o imenso poder de que desfrutam, uma liberdade de que fazem uso tão pernicioso, sem permitir aos anjos bons contrabalançarem isso com manifestações semelhantes mas orientadas para o bem?
Admitamos que Deus tenha dado igual poder aos bons e aos maus, o que já seria um favor exorbitante para estes últimos. O homem, pelo menos, devia ser livre para escolher. Mas dar-lhes o monopólio da tentação, com a faculdade de simular o bem para enganar, para seduzir com mais segurança, isto seria uma verdadeira armadilha colocada ante a fraqueza humana, a inexperiência e a boa fé. Dizemos mais: isso seria abusar da confiança do homem em Deus. A razão se recusa a admitir semelhante parcialidade em proveito do mal.
Vejamos os fatos.
7 — Concedem-se aos demônios as faculdades transcendentes, eles nada perderam de sua natureza angélica. Possuem o saber, a perspicácia, a providência, a clarividência dos anjos, e além disso a astúcia, a sagacidade e manha no mais alto grau. Seu objetivo é desviar os homens do bem e sobretudo afastá-los de Deus para levá-los ao inferno, do qual são os provedores e os recrutadores.
Compreende-se que eles se dirijam aos que estão no bom caminho e que se deixam perder por eles diante da sua insistência. Compreende-se a sedução através da simulação do bem para os atrair às suas fileiras. Mas o incompreensível é que eles se dirijam aos que já lhes pertencem de corpo e de alma para os encaminhar a Deus e ao bem. Ora, quem poderia estar mais nas suas garras do que aquele que renega a Deus e blasfema contra ele, mergulhando-se no vício e nas paixões desordenadas? Esse não está já no caminho do inferno?
Pode-se compreender que, estando seguro de sua presa, o demônio a leva a adorar a Deus, a convida a submeter-se à sua divina vontade e a renunciar ao mal? Que exalte aos seus olhos a ventura da vida dos Espíritos bons, pintando com horror a posição dos maus? Já se viu um comerciante elogiar para os seus clientes as mercadorias do seu vizinho, em prejuízo das suas, mandando-os comprar do outro? Viu-se um recrutador depreciar a vida militar e louvar o descanso da vida doméstica? Dizer aos conscritos que eles terão vida de fadigas e de privações, que eles têm dez possibilidades contra uma de serem mortos ou pelo menos de terem os braços e as pernas arrancados?
Não obstante, é esse o papel estúpido que atribuem ao demônio, pois é fato notório que em conseqüência das instruções provenientes do mundo invisível, diariamente se vêem os incrédulos e os ateus retornando a Deus e orando com fervor, o que há muito não faziam, ao mesmo tempo que pessoas viciosas lutam com ardor para se melhorarem. Pretender que seja essa uma obra das artimanhas do demônio, seria transformá-lo num verdadeiro pobre diabo. Como isso não é uma suposição, mas um resultado da experiência, e como contra fatos não há argumentos, temos de concluir que o demônio é um desastrado de primeira, não sendo tão esperto nem tão mau como se pretende, e portanto que não é justo temê-lo, desde que ele trabalha contra os seus próprios interesses, ou então que nem todas as manifestações são produzidas por ele.
8 —"Eles propagam o erro de todas as formas, e é para obter esse resultado que a madeira, a pedra, as florestas, as pontes, o santuário dos ídolos, os pés das mesas, as mãos das crianças se tornam oráculos."
Qual é então, diante disso, o valor destas palavras do Evangelho: "Eu derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e filhas profetizarão; vossos jovens terão visões e vossos velhos terão sonhos. Nesse dia eu derramarei do meu Espírito sobre os meus servos e servas, e eles profetizarão." (Atos dos Apóstolos, cap. II, v. 17, 18.) Não é essa a predição da mediunidade concedida a todos, mesmo às crianças, e que se cumpre nos nossos dias?
Os apóstolos lançaram o anátema sobre esta faculdade? Não. Eles a anunciaram como uma graça de Deus e não como obra do demônio. Os teólogos de hoje saberiam mais sobre essa questão que os apóstolos? Não deveriam ver o dedo de Deus no cumprimento dessas palavras?
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