Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo IX

Os Demônios (continuação)

6 — A doutrina dos demônios tem portanto a sua origem na antiga crença no princípio do bem e do mal. Vamos examiná-la aqui somente do ponto de vista cristão, procurando ver se ela está em relação com o conhecimento mais exato que hoje possuímos dos atributos da Divindade.

Esses atributos são o ponto de partida, a base de todas as doutrinas religiosas. Os dogmas, o culto, as cerimônias, as práticas, a moral, tudo nelas se relaciona com a idéia mais ou menos justa, mais ou menos elevada que fazem de Deus, desde o fetichismo até o Cristianismo. Se a natureza de Deus é ainda um mistério para a nossa inteligência, entretanto já a compreendemos melhor do que nunca, graças aos ensinamentos do Cristo. O Cristianismo, concordando nisso com os princípios racionais, nos ensina que:

Deus é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, e todas as suas perfeições são infinitas.

Como dissemos atrás (Cap. VI. Penas Eternas): "Se tirarmos a menor parcela de um só dos atributos de Deus, não teremos mais Deus, pois poderia existir um ser mais perfeito." Esses atributos, compreendidos na sua mais absoluta plenitude, constituem o critérium de todas as religiões, a medida de verdade de cada um dos princípios que elas ensinam. Para que um desses princípios seja verdadeiro é preciso que não atente contra nenhuma das perfeições de Deus. Vejamos se isso acontece no tocante à doutrina vulgar dos demônios.

Os demônios segundo a Igreja

7 — Segundo a Igreja, Satã, o chefe ou rei dos demônios, não é uma personificação alegórica do mal, mas um ser real que pratica exclusivamente o mal, enquanto Deus faz exclusivamente o bem. Tomemo-lo, pois, exatamente como no-lo apresentam.

Satã existe desde toda a eternidade, como Deus, ou é posterior a Deus? Se sempre existiu, é incriado e portanto igual a Deus. Nesse caso, Deus não é único, pois há o Deus do bem e o Deus do mal.

Satã é posterior? Então é uma criatura de Deus. E desde que só faz o mal, sendo incapaz de praticar o bem e de se arrepender, Deus criou um ser destinado perpetuamente ao mal. Se o mal não é obra de Deus, mas de uma de suas criaturas predestinada a fazê-lo, Deus será sempre o seu primeiro autor e nesse caso não é infinitamente bom. Acontece o mesmo com todos os seres maus chamados demônios.

8 — Foi essa durante muito tempo a crença a respeito dos demônios. Atualmente se diz:

Deus, que é a bondade e a santidade em essência, não os havia criado maus e malfazejos. Sua mão paternal, que se apraz em expandir sobre todas as suas obras um reflexo das suas infinitas perfeições, lhes havia dado os seus dons mais esplendentes. Às qualidades super-excelentes de sua natureza, acrescentou as abundâncias da sua graça: fê-los em tudo semelhantes aos Espíritos sublimes que estão na sua glória e felicidade. Distribuídos por todas as ordens e misturados a todos os graus, tinham eles o mesmo objetivo e os mesmos destinos. Seu chefe foi o mais belo dos arcanjos. Eles mesmos teriam podido merecer a sua confirmação de justos para sempre e a sua admissão no eterno gozo da felicidade dos céus. Esta última graça teria completado todos os favores que até então lhes tinham sido feitos, mas deveria ser o preço de sua docilidade e eles se tornaram indignos dela. Perderam-se por uma revolta audaciosa e insensata.

O que os impediu de serem perseverantes? Qual a verdade que não haviam conhecido? Que ato de fé e de adoração recusaram a Deus? A Igreja e os anais da história santa nada dizem a respeito de maneira positiva, mas parece certo que não aceitaram a mediação do Filho de Deus para eles mesmos nem a exaltação da natureza humana em Jesus Cristo.

O Verbo Divino, que fez todas as coisas, é também o único mediador e salvador no Céu e na Terra. O destino sobrenatural só foi dado aos anjos e aos homens na previsão de sua encarnação e de seus méritos. Porque não há nenhuma proporção entre as obras dos Espíritos mais eminentes e essa recompensa que é o próprio Deus em si mesmo. Nenhuma criatura teria podido chegar até esse ponto sem essa intervenção maravilhosa e sublime de caridade. Ora, para cobrir a distância infinita que separa a essência divina das obras de suas próprias mãos, era necessário que ele reunisse na sua pessoa os dois extremos e associasse a sua divindade à natureza do anjo ou à do homem: ele preferiu a natureza humana.

Esse plano, concebido desde toda a eternidade, foi revelado aos anjos muito tempo antes da sua realização. O Homem-Deus lhes foi mostrado no futuro como Aquele que devia confirmá-los na graça e introduzi-los na glória, com a condição de que o adorassem na Terra durante a sua missão, e no Céu pelos séculos dos séculos. Revelação inesperada, visão arrebatadora para os corações generosos e reconhecidos, mas mistério profundo e humilhante para os Espíritos soberbos!

Este destino sobrenatural, o peso imenso dessa glória que lhes era proposta não seria unicamente a recompensa de seus méritos pessoais! Jamais se poderiam atribuir, por si mesmos, os títulos da sua posse! Um mediador entre eles e Deus, que ofensa feita à sua dignidade! A preferência gratuita pela natureza humana, que injustiça! Que atentado aos seus direitos! Essa humanidade que lhes era tão inferior, teriam de vê-Ia um dia endeusada pela sua união com o Verbo e assentada à direita de Deus, sobre um trono resplandecente? Concordarão eles a prestar-lhe eternamente as suas homenagens e a sua adoração?

Lúcifer e a terceira parte dos anjos sucumbiram a esses pensamentos de inveja e de orgulho. São Miguel, e com ele a maioria, exclamaram: quem é semelhante a Deus? Ele é o senhor de seus dons e o soberano Senhor de todas as coisas. Glória a Deus e ao Cordeiro que será imolado para a salvação do mundo! Mas o chefe dos rebeldes, esquecendo que devia ao seu criador a sua própria nobreza e as suas prerrogativas, preferiu escutar a sua própria temeridade e respondeu: eu mesmo subirei ao céu, estabelecerei a minha morada acima dos astros, me assentarei sobre a montanha da Aliança, nos flancos do Arquilão, dominarei as nuvens mais elevadas e serei semelhante ao Altíssimo. — Os que partilhavam os seus sentimentos acolheram essas palavras com um murmurar de aprovação, e eles estavam em todas as ordens da hierarquia, mas a sua multidão não os livrou do castigo.

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