Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo VIII

Os Anjos (continuação)

O ser e os movimentos dos anjos não estão localizados e circunscritos num ponto fixo e limitado do espaço. Não estando ligados a nenhum corpo, eles não podem estar parados nem ser limitados, como acontece conosco, por outros corpos. Eles não ocupam nenhum lugar e não preenchem nenhum vazio. Mas, da mesma maneira em que a nossa alma está inteira no nosso corpo e em cada uma de suas partes, eles se encontram inteiros e quase simultaneamente em todos os pontos e em todas as partes do mundo. Mais rápidos do que o pensamento, podem estar por toda a parte no mesmo instante e agir diretamente, sem nenhum obstáculo aos seus desígnios, a não ser a vontade de Deus e a resistência da liberdade humana.

Enquanto estamos reduzidos a ver aos poucos, de maneira limitada, as coisas que estão fora de nós, e que as verdades da ordem sobrenatural nos aparecem de maneira enigmática, como num espelho, segundo a expressão do apóstolo São Paulo, eles vêem sem esforço o que desejam saber e estão em relação direta com o objeto de seu pensamento. Seus conhecimentos não resultam da indução e do raciocínio, mas dessa intuição clara e profunda que abrange os princípios e as conseqüências que destes decorrem.

A diversidade dos tempos, a diferença dos lugares, a multiplicidade dos objetos não podem produzir nenhuma confusão no seu Espírito.

A essência divina, sendo infinita, é para nós incompreensível. Possui mistérios e profundezas que não podem ser penetradas. Os desígnios mais íntimos da Providência ficam ocultos, mas ela lhes desvenda o seu segredo quando os encarrega, em determinadas circunstâncias, e de os anunciar aos homens.

As comunicações de Deus aos anjos e dos anjos entre si não se fazem, como entre nós, por meio de sons articulados e de outros signos sensíveis. As inteligências puras não precisam de olhos para ver nem de ouvidos para ouvir. Elas não possuem também os órgãos vocais para manifestar os seus pensamentos, pois esses intermediários habituais de que nos servimos são para eles inúteis. Comunicam, porém, os seus sentimentos de maneira que lhes é própria e inteiramente espiritual. Para se fazerem compreender, basta-lhes a vontade.

Somente Deus conhece o número dos anjos. Esse número, sem dúvida, não poderia ser infinito e não o é, mas segundo os autores sagrados e os santos doutores, é muito considerável e verdadeiramente prodigioso. Se é natural que considere-os na devida proporção o número de habitantes de uma cidade em relação à sua grandeza, e a Terra sendo apenas um átomo em comparação com o firmamento e as imensas regiões do espaço, temos de concluir que o número dos habitantes do céu e do ar é muito maior que o dos homens.

Desde que a majestade dos reis se reflete no número de seus súditos, de seus oficiais e de seus servidores, que haveria de mais apropriado para darmos uma idéia da majestade do Rei dos Reis que essa multidão inumerável de anjos que povoam o céu e a Terra, o mar e os abismos, e a dignidade dos que permanecem incessantemente prosternados ou em pé diante do seu trono?

Os Pais da Igreja e os teólogos geralmente ensinam que os anjos se distribuem em três grandes hierarquias ou principados, e cada hierarquia em três companhias ou coros.

Os da primeira e mais elevada hierarquia são designados por nomes que decorrem das funções de desempenho no céu. Uns são chamados Serafins porque são como que chamejantes perante Deus pelos ardores da caridade; outros se chamam Querubins porque são um reflexo luminoso da divina sabedoria; e outros ainda se chamam Tronos porque proclamam a grandeza de Deus e a fazem resplandecer.

Os da segunda hierarquia recebem os seus nomes em virtude das operações que lhes são confiadas no governo geral do Universo. São as Dominações que determinam aos anjos das ordens inferiores as suas missões e os seus encargos; as Virtudes que atendem aos prodígios exigidos pelos grandes interesses da Igreja e do gênero humano; as Potências que protegem pelo seu poder e a sua vigilância as leis que regem o mundo físico e moral.

Os da terceira hierarquia exercem em partilha a direção das sociedades e das pessoas. São os Principados, prepostos dos reinos, das províncias e das dioceses; os Arcanjos, que transmitem as mensagens de elevada importância, os Anjos Guardiães que acompanham a cada um de nós velando pela nossa segurança e pela nossa santificação.

Refutação

3 — O princípio geral que ressalta dessa doutrina é o de que os anjos são seres puramente espirituais, anteriores e superiores à humanidade, criaturas privilegiadas, votadas à felicidade suprema e perpétua desde a sua formação, dotadas, por sua própria natureza, de todas as virtudes e de todo o saber, sem nada ter feito para os adquirir. Estão no primeiro plano da obra da criação. No último plano, a vida puramente material, e entre os dois a humanidade formada de almas, seres espirituais inferiores aos anjos e unidos a corpos materiais.

Muitas dificuldades insolúveis resultam desse sistema. Qual é, para começar, essa vida puramente material? Trata-se da matéria bruta? Mas a materia bruta é inanimada, não tendo vida por si mesma. Trata-se das plantas e dos animais? Essa seria então uma quarta ordem da criação, pois não se pode negar a superioridade do animal que é inteligente em relação à planta, e desta em relação à pedra. Quanto à alma humana, que representa a transição, está diretamente unida a um corpo formado de matéria bruta, porque sem alma esse corpo não teria vida e seria como um punhado de terra.

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