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Capítulo VIII

Os Anjos

Os anjos segundo a Igreja

1 — Todas as religiões têm os seus anjos, com diferentes nomes, ou seja, seres superiores à Humanidade, intermediários entre Deus e os homens. O materialismo, negando qualquer existência espiritual além da vida orgânica, naturalmente colocou os anjos entre as ficções e as alegorias. A crença nos anjos faz parte essencial dos dogmas da Igreja. Eis como ela os define:(34)

2 — Cremos firmemente, proclamou um concílio geral e ecumênico(35), que só há um Deus verdadeiro, eterno e infinito, o qual, no começo dos tempos tirou juntamente do nada as duas criaturas: a espiritual e a corporal, a angélica e a mundana, e em seguida formou, como intermediária dessas duas, a natureza humana composta de corpo e Espírito.

É esse, segundo a fé, o plano divino na obra da criação. Plano majestoso e completo, como convém à sabedoria eterna. Assim concebido, ele nos apresenta ao pensamento o ser em todos os graus e em todas as condições. Na esfera mais elevada aparecem a existência e a vida puramente espirituais. No último plano, a existência e a vida puramente materiais. E no meio que separa a ambos, uma maravilhosa união das duas substâncias, uma vida comum ao mesmo tempo ao espírito inteligente e ao corpo organizado.

Nossa alma é de uma natureza simples e indivisível, mas é limitada nas suas faculdades. A idéia que temos da perfeição nos faz compreender que podem existir outros seres simples como ela e superiores pelas suas qualidades e os seus privilégios. Ela é grande e nobre, mas está ligada à matéria, servida de órgãos frágeis, limitada na sua atividade e na sua potência. Porque não haveria outras naturezas ainda mais nobres, distanciadas dessa escravidão e desses entraves, dotadas de uma força maior e de uma atividade incomparável?

Antes que Deus tivesse posto o homem na Terra para o conhecer, amar e servir, já não devia ter chamado outras criaturas para comporem a sua corte celeste e adorá-lo no esplendor da sua glória? Deus, enfim, recebe das mãos do homem os tributos de honra e a homenagem deste universo. Seria de estranhar que recebesse das mãos do anjo o incenso e a prece do homem? Se, pois, os anjos não existissem, a grandiosa obra do criador não teria o seu coroamento na perfeição de que era susceptível. Esse mundo que atesta a sua onipotência não seria mais a obra prima da sua sabedoria. Nossa razão, por mais impotente que seja, poderia facilmente concebê-lo mais completo e melhor acabado.

Em cada página dos livros sagrados do Antigo e Novo Testamento são mencionadas essas inteligências sublimes, nas invocações piedosas ou nos relatos históricos. Sua intervenção aparece manifestamente na vida dos patriarcas e dos profetas. Deus se serve do seu ministério, ora para impor os seus desígnios, ora para anunciar acontecimentos futuros. Ele os faz quase sempre instrumentos da sua justiça ou da sua misericórdia. Sua presença é constante nas diversas circunstâncias do nascimento, da vida e da paixão do Salvador. Sua lembrança é inseparável da lembrança dos grandes homens e dos mais importantes acontecimentos da antigüidade religiosa. Podemos mesmo encontrá-los no meio do politeísmo e entre as fábulas da mitologia, porque a crença a seu respeito é tão antiga e tão universal como o próprio mundo. O culto que os pagãos rendiam aos bons e aos maus gênios era apenas uma falsa aplicação da verdade, um resíduo deteriorado do dogma primitivo.

As palavras do santo Concílio de Latrão contém uma distinção fundamental entre os homens e os anjos; elas nos ensinam que os anjos são Espíritos puros, enquanto os homens se constituem de alma e corpo, o que quer dizer que a natureza angélica subsiste por si mesma, não somente sem mistura, mas ainda sem nenhuma associação real possível com a matéria, por ligeira e sutil que se pudesse supô-la. Enquanto isso a nossa alma, igualmente espiritual, está associada ao corpo de maneira a formarem ambos uma única e mesma pessoa e essa é essencialmente a sua destinação.

Enquanto dura essa união tão íntima de alma e corpo, essas duas substâncias têm uma vida comum e exercem, uma sobre a outra, influência recíproca. A alma não pode se afastar inteiramente da condição imperfeita que resulta para ela dessa situação: suas idéias lhe chegam através dos sentidos, por comparação dos objetos exteriores e sempre sob imagens mais ou menos aparentes. Disso resulta que ela não pode se contemplar a si mesma e não pode fazer a si mesma a representação de Deus e dos anjos sem os considerar de qualquer maneira em forma visível e palpável. Eis porque os anjos, para se fazerem visíveis aos santos e aos profetas, tiveram de recorrer a figuras corpóreas. Mas essas figuras eram apenas os corpos aéreos que eles movimentavam sem se identificarem com eles, ou os atributos simbólicos relacionados com a missão de que estavam encarregados.

(34) Tiramos este resumo da pastoral de Monsenhor Goussett, cardeal-arcebispo de Reims, para a quaresma de 1864. Pode-se pois considerá-la, como aquela referente aos demônios, proveniente da mesma fonte citada no capítulo seguinte, como a última expressão do dogma da Igreja sobre esse assunto. (N. de Kardec.)

(35) Concílio de Latrão.

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