Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"
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Capítulo VI
Doutrina das Penas Eternas
Argumentos a Favor das Penas Eternas (continuação)
Admitindo-se que uma ofensa temporária praticada contra a divindade pudesse ser infinita, Deus, vingando-a por um castigo infinito seria infinitamente vingativo. E se ele o for, não pode ser infinitamente bom e misericordioso, pois um dos seus atributos é a limitação do outro. Se ele não for infinitamente bom não é perfeito, e se não for perfeito não é Deus.
Se Deus for inexorável para o culpado arrependido, não é misericordioso, e se não é misericordioso, não é infinitamente bom.
Porque daria Deus ao homem a lei do perdão, se ele mesmo não devesse perdoar? Disso resultaria que o homem que perdoa os seus inimigos, retribuindo-lhes o mal com o bem, seria melhor que Deus que permanece surdo ao arrependimento do seu ofensor e lhe recusa, pela eternidade, a mais leve atenuação da pena.
Deus, que está em toda a parte e tudo vê, tem de ver as torturas dos condenados. Se ele for insensível aos seus clamores pela eternidade, será eternamente impiedoso, e se for impiedoso não é infinitamente bom.
12 — A isto, respondem que o pecador que se arrepende antes de morrer obtém a misericórdia de Deus e que o maior culpado pode se beneficiar com a sua graça.
Não pode haver dúvida quanto a isto. Concebe-se que Deus somente perdoe aos arrependidos e seja inflexível para os espíritos endurecidos. Mas se ele se mostra cheio de misericórdia para a alma que se arrepende antes de deixar o corpo, porque não faria o mesmo para aquela que se arrepende depois da morte? Qual a razão do arrependimento só ser eficaz durante a vida, representa apenas um instante e não o ser durante a eternidade? Se a bondade e a misericórdia de Deus ficam circunscritas a um determinado tempo, não são infinitas e Deus não é infinitamente bom.
13 — Deus é soberanamente justo. A soberana justiça não é a mais inexorável nem a que deixa impunes todas as faltas, mas a que considera da maneira mais rigorosa o bem e o mal, recompensando um e punindo o outro com perfeita equidade, sem jamais se enganar.
Se por uma falta passageira que resulta quase sempre da natureza imperfeita do homem, e muitas vezes decorre do meio em que ele se encontra, a alma pode ser punida eternamente, sem esperanças de abrandamento e nem de perdão, não existe nenhuma proporção entre a falta e a punição. Portanto, não há justiça.
Se o culpado se volta para Deus, arrependendo-se e pedindo para reparar o mal cometido, isso equivale a um retorno ao bem, aos bons sentimentos. Se o castigo for irrevogável, esse retorno ao bem não produz efeito, desde que Deus não leva em conta o bem e não pratica a justiça. Entre os homens, o condenado que se emenda vê a sua pena comutada e às vezes perdoada. Haveria, pois, na justiça humana mais equidade que na justiça Divina!
Se a condenação é irrevogável, o arrependimento é inútil. Nada podendo esperar do seu retorno ao bem, o culpado persiste no mal, de maneira que Deus não somente o condena a sofrer eternamente mas também a permanecer no mal por toda a eternidade. Não há nisso nem justiça, nem bondade.
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