Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo VI

Doutrina das Penas Eternas

Argumentos a Favor das Penas Eternas

10 — Voltemos ao dogma da eternidade das penas. O principal argumento que se invoca em seu favor é o seguinte.

Admite-se entre os homens que a gravidade da ofensa está na razão da qualidade do ofendido. Aquela que se comete contra um soberano é considerada mais grave do que a cometida contra um simples cidadão e punida com maior severidade. Ora, Deus é mais que um soberano, pois é infinito e por isso mesmo a ofensa a ele também se torna infinita, merecendo um castigo da mesma natureza, ou seja: eterno.

Refutação — Toda a refutação é um raciocínio que deve ter o seu ponto de partida, uma base em que se apoiar, premissas, numa palavra. Encontramos essas premissas nos próprios atributos de Deus.

Deus é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições.

Não se pode conceber Deus sem o infinito das suas perfeições, pois sem isso ele não seria Deus, desde que poderíamos conceber um ser que possuísse o que lhe falta. Para que ele seja o único acima de todas os seres é necessário que nenhum o possa superar ou igualar seja no que for. Portanto, é necessário que ele seja infinito em todos os sentidos. Os atributos de Deus, sendo infinitos, não podem aumentar nem diminuir. Sem isso, eles não seriam infinitos e Deus não seria perfeito. Se tirássemos a Deus a mínima parcela de um só de seus atributos, não mais teríamos Deus, pois seria possível a existência de um ser mais perfeito.

O infinito de uma qualidade exclue a possibilidade de existir uma qualidade contrária que a anulasse ou diminuísse. Um ser infinitamente bom não pode ter a menor parcela de maldade, e um ser infinitamente mau não pode ter a menor parcela de bondade. Isso da mesma maneira que um objeto não poderia ser absolutamente negro com a mais leve nuança de branco, nem absolutamente branco com a mínima mancha negra.

Colocado esse ponto, podemos opor ao argumento acima o seguinte raciocínio:

11 — Somente um ser infinito pode criar o infinito. O homem, limitado em suas virtudes, nos seus conhecimentos, nos seus poderes, nas suas aptidões, na sua própria existência terrena, só pode produzir coisas limitadas.

Se o homem pudesse ser infinito no mal que pratica, também o poderia ser no bem que faz, e ele seria igual a Deus. Mas, se o homem fosse infinito no tocante ao bem, não faria nenhum mal, porque o bem absoluto é a exclusão de todo o mal.

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