Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

ÍNDICE

Página Anterior

Capítulo VI

Doutrina das Penas Eternas

Origem da Doutrina das Penas Eternas (continuação)

6 — Se Jesus ameaçou os culpados com o fogo eterno, também os ameaçou de serem lançados na Geena. Mas o que era a Geena? Um lugar nas cercanias de Jerusálem, o depósito de lixo da cidade. Seria possível tomar-se isso ao pé da letra? Era apenas uma dessas imagens fortes de que se servia para impressionar as massas. Acontecia o mesmo com o fogo eterno. Se não fosse esse o seu pensamento, Ele estaria em contradição consigo mesmo ao exaltar a clemência e a misericórdia de Deus, porque a clemência e a inexorabilidade se negam reciprocamente. Seria pois nos enganarmos estranhamente sobre o sentido das palavras de Jesus, vermos nela a sanção do dogma das penas eternas, quando todo o seu ensino proclama a bondade do criador.

Na oração dominical nos ensinou a dizer: Senhor, perdoai as nossas ofensas como perdoamos os nossos ofensores. Se o culpado não pudesse esperar nenhum perdão, seria inútil pedi-lo. Mas há condições para esse perdão? É ele uma graça, uma anulação pura e simples da pena em que se incorreu? Não. A medida desse perdão está subordinada à maneira porque perdoamos, ou seja, se não perdoamos não seremos perdoados. Fazendo do esquecimento das ofensas uma condição absoluta, Deus não podia exigir que o homem frágil fizesse o que Ele, todo-poderoso, não faria. A oração dominical é uma negação da vingança eterna de Deus.

7 — Para os homens que só tinham uma noção confusa da espiritualidade da alma a idéia do fogo material não era chocante, tanto mais que ela se encontra na crença popular proveniente do inferno pagão e quase universalmente difundida. A eternidade das penas nada tinha de repugnante para criaturas submetidas desde séculos à legislação do terrível Jeová. No pensamento de Jesus o fogo eterno só podia ser uma figura. Pouco lhe importava que essa figura fosse tomada ao pé da letra, desde que devia servir de freio. Ele sabia muito bem que o tempo e o progresso se encarregariam de esclarecer o sentido alegórico, sobretudo quando, segundo a sua predição, o Espírito da Verdade viesse esclarecer todas as coisas aos homens.

A conseqüência essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia do arrependimento. Mas Jesus nunca disse que o arrependimento fosse inútil perante Deus. Em todas as ocasiões, pelo contrário, apresentou um Deus clemente, misericordioso, pronto a receber o filho pródigo de volta para o lar paterno. Só o mostrou inflexível para o pecador endurecido. Mas assim mesmo, se tinha o castigo numa das mãos, tinha sempre o perdão na outra, pronto a dispensá-lo ao culpado, desde que esse voltasse sinceramente a Ele. Não é verdadeira, pois, a imagem de um Deus impiedoso. Devemos observar também que Jesus não pronunciou contra ninguém, mesmo contra os maiores culpados, a condenação irremissível.

8 — Todas as religiões primitivas, de acordo com a natureza dos povos tiveram deuses guerreiros que combatiam à frente dos exércitos. O Jeová dos Hebreus lhes proporcionava todos os meios necessários para que exterminassem os seus inimigos, e os recompensava pela vitória ou os punia pela derrota. Segundo a idéia que faziam de Deus, acreditavam honrá-lo ou apaziguá-lo com o sangue dos animais ou dos homens. Vêm daí os sacrifícios sangrentos que tiveram papel tão considerável em todas as religiões antigas.

Os Judeus haviam abolido os sacrifícios humanos. Os cristãos, apesar dos ensinos do Cristo, acreditavam por muito tempo honrar ao criador entregando ao fogo e às torturas milhares daqueles que chamavam de hereges. Eram, sob outra forma, verdadeiros sacrifícios humanos, desde que o faziam para a maior glória de Deus e com a realização de cerimônias religiosas. Ainda hoje continuam invocando o Deus dos Exércitos antes dos combates e o glorificam após a vitória, e isso frequentemente pelas causas mais injustas e mais anticristãs.

9 — Como o homem custa a se livrar de seus prejuízos, dos seus hábitos, das suas idéias primitivas!

Quarenta séculos nos separam de Moisés e nossa geração cristã ainda conserva os traços de antigas usanças bárbaras consagradas ou pelo menos aprovadas pela religião atual!

Foi necessária a pressão da opinião dos não-ortodoxos, dos que são olhados como heréticos, para se pôr fim às fogueiras e fazer compreender a verdadeira grandeza de Deus. Mas, na falta das fogueiras as perseguições materiais e morais continuaram em vigor, de tal maneira a idéia de um Deus cruel está enraizada no homem. Alimentado pelos sentimentos que lhes são inculcados na infância, poderia o homem estranhar que um Deus que lhe apresentaram honrado, por atos bárbaros condene às torturas eternas, vendo sem piedade o sofrimento dos condenados?

Foram os filósofos, os ímpios, segundo alguns, que se escandalizaram de ver o nome de Deus profanado por atos indignos dele. Foram estes que o mostraram aos homens em toda a sua grandeza, despojando-o das paixões e da mesquinhez humana que lhe havia atribuído uma crença cega. A religião ganhou com isso em dignidade aquilo que havia perdido em prestígio exterior, porque se há menos homens apegados a ela pela forma, é maior o número dos que são mais sinceramente religiosos, pelo coração e pelos sentimentos.

Mas ao lado desses, quantos foram levados, por ficarem apenas nas aparências, à negação da Providência! Por não haverem feito que as crenças religiosas acompanhassem o progresso da razão humana, os responsáveis por isso levaram uns ao deísmo, outros à incredulidade absoluta, outros ao panteísmo, o que vale dizer que o homem se fez Deus a si mesmo na falta de outro mais perfeito.

Página Anterior

Copyright 2004 - LAKE - Livraria Allan Kardec Editora
(Instituição Filantrópica) Todos os Direitos Reservados