Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo V

O Purgatório (continuação)

6 — O Espírito culpado sofre primeiramente na vida espiritual em razão dos graus da sua imperfeição; sofre depois na vida corporal que lhe é dada como meio de reparação. É por isso que ele se reencontra com as pessoas que tenha ofendido, seja em situações semelhantes àquelas em que praticou o mal, seja em situações que representam o seu reverso, como neste exemplo: estar na miséria se foi um mau rico ou numa condição humilhante se foi um orgulhoso.

O fato de haver expiação no mundo espiritual e na Terra não representa um duplo castigo para o Espírito. É o mesmo castigo que se prolonga na vida terrena, com o fim de facilitar o seu adiantamento através de um trabalho efetivo. Dele depende tirar o proveito. Não é melhor para ele voltar à Terra com a possibilidade de ganhar o Céu, do que ser condenado sem remissão ao deixá-la?

Esta liberdade que lhe é concedida é uma prova da sabedoria, da bondade e da justiça de Deus, que quer que o homem deva tudo aos seus esforços e seja o artífice do seu futuro. Se ele for infeliz por maior ou menor tempo, não poderá queixar-se senão de si mesmo, pois o caminho do progresso está sempre aberto para ele.

7 — Se considerarmos como é grande o sofrimento de certos Espíritos culpados no mundo invisível, como é terrível a situação de alguns, de que angústias se tornaram presas, quanto essa situação se faz mais penosa pela impossibilidade de lhe verem o fim, poderíamos dizer que isso é para eles o inferno, se essa palavra não implicasse a idéia de um castigo eterno e material. Graças à revelação dos Espíritos e aos exemplos que eles nos ofereceram, sabemos que a duração da expiação está subordinada ao melhoramento do culpado.

8 — O Espiritismo não vem, pois, negar a existência das penas futuras, mas pelo contrário constatá-las. O que ele destrói é a idéia do inferno localizado, com suas fornalhas e suas penas irremissíveis. Não nega o purgatório, desde que prova que estamos nele. Define e precisa o purgatório ao explicar a causa das misérias terrenas, e com isso reconduz à crença aqueles que o negavam.

O Espiritismo condena as preces pelos mortos? Bem ao contrário, pois os espíritos sofredores as solicitam. Faz delas um dever de caridade e demonstra a sua eficácia para os conduzir ao bem, abreviando dessa maneira os seus tormentos.(21)

Falando à inteligência, o Espiritismo reconduz os incrédulos à fé, induzindo à prece os que dela se afastavam. Mas ensina que a eficácia das preces depende do pensamento e não das palavras, que as melhores preces são as que partem do coração e não apenas dos lábios, aquelas que são ditas por nós mesmos e não as que mandamos dizer por dinheiro. Quem ousaria reprová-lo por isso?

9 — Quer o castigo se verifique na vida espiritual ou na Terra, e qualquer que seja a sua duração, há sempre um termo para ele, mais ou menos longo ou curto. Não há, na verdade, para o Espírito mais do que estas alternativas: punição temporária e graduada segundo a culpabilidade, ou recompensa graduada segundo o mérito. O Espiritismo não aceita a terceira, ou seja a da condenação eterna. O inferno permanece apenas como figura simbólica dos grandes sofrimentos que parecem não ter fim. O Purgatório é a realidade em que nos encontramos.

A palavra Purgatório exprime a idéia de um lugar circunscrito. Eis porque se aplica mais naturalmente à Terra, considerada como lugar de expiação, do que ao do espaço infinito em que erram os Espíritos sofredores, e também porque a natureza da expiação terrestre é uma verdadeira purgação.

Quando os homens forem melhores só passarão ao mundo invisível como Espíritos bons, e estes, ao se reencarnarem trarão para a humanidade corpórea somente criaturas aperfeiçoadas. Então a Terra, deixando de ser um mundo de expiação, os homens não mais sofrerão nela as misérias que são hoje as conseqüências de suas imperfeições. É essa a transformação que está em marcha neste momento e que elevará a Terra na hierarquia dos mundos. (Ver O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 3.)(22)

10 — Mas por que o Cristo não falou do Purgatório? É que, não existindo a idéia, não havia palavra especial para representá-la. Ele se serviu da palavra inferno, que estava em uso, como um termo genérico para designar todas as modalidades das penas futuras. Se ao lado da palavra inferno tivesse criado um termo equivalente a Purgatório, não teria podido precisar-lhe o sentido sem tocar numa questão reservada ao futuro. Por outro lado, isso seria consagrar a existência de dois lugares especiais de castigo. O inferno na sua acepção geral, revelando a idéia de punição, implicava também a de Purgatório, que apresenta apenas uma das formas de penalidade. O futuro, devendo esclarecer os homens sobre a natureza das penas, teria, por isso mesmo, de reduzir o inferno ao seu justo valor.

Desde que a Igreja achou de seu dever, após seis séculos, suprir o silêncio de Jesus a esse respeito, decretando a existência do purgatório, foi por haver julgado que ele não havia dito tudo. Porque não será assim para outros pontos, como para esse?(23)

(21) Ver O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 27, Ação da Prece.

(22) O grifo é nosso e sua finalidade é chamar a atenção do leitor para o fato de que as grandes transformações atuais que abalam o nosso mundo já estavam previstas nas obras da codificacão espírita. A Terra está sofrendo uma crise de crescimento para se tornar um mundo maduro e portanto melhor. As desordens atuais, que tanto nos assustam, são os prenúncios de uma nova ordem que fará a Terra elevar-se na escala dos mundos. (N. do T.)

(23) Kardec propõe a questão relativa ao esclarecimento que o Espírito da Verdade devia trazer para os homens, segundo a promessa evangélica de Jesus, na hora histórica em que estivessem maduros para recebê-lo. As igrejas cristãs condenaram, como herética a afirmação de Kardec de que o Espiritismo vinha completar o ensino do Cristo. Kardec lembra, no trecho acima, um dos pontos em que a Igreja o antecipou de vários séculos, fazendo ela mesma um acréscimo no ensino de Jesus. Mas não repele esse acréscimo, pois reconhece que ele está de acordo com as exigências lógicas da explicação das penas futuras e com a realidade demonstrada pelas comunicações espíritas. Localizando o Purgatório na Terra, em virtude da natureza expiatória do planeta, Kardec ao mesmo tempo extingue a fonte de rendas das indulgências que provocou a rebelião da Reforma e justifica o protesto de Lutero. (N. do T.)

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