Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"
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Capítulo IV
Quadro do inferno cristão (continuação)
Existem lá, com efeito, demônios que para atormentarem os homens nos seus corpos, também se revestem de corpos. Esses corpos têm asas de morcegos, chifres, pele coberta de escamas, patas com garras e dentes aguçados. São mostrados armados de espadas, de tenazes, de pinças, de serras em fogo, de grelhas, de garfos, de foles, de martelos ardentes e trabalhando pela eternidade na carne dos condenados como açougueiros e cozinheiros. Às vezes, transformados em leões ou em enormes serpentes, arrastam suas vítimas para cavernas solitárias. Alguns se transformam em corvos para arrancar os olhos a certos culpados, e outros em dragões voadores para os carregar no seu dorso, aterrorizados e sangrentos, através de tenebrosos espaços e os lançar num lago de enxofre. Ali, há nuvens de gafanhotos, de escorpiões gigantescos cuja vista produz calafrios e cujo odor provoca náuseas, que o simples tocar com os dedos produz convulsões. Lá, monstros de muitas cabeças abrem para todos os lados güelas vorazes, sacudindo as disformes cabeças de crinas de serpentes, esmagam os condenados em suas mandíbulas sangrentas e os vomitam mastigados, mas vivos porque eles são imortais.
Esses demônios em forma humana, que lembram tão claramente os deuses do Amenti e do Tártaro, os ídolos adorados pelos Fenícios e pelos Moabitas e outros povos pagãos ao redor da Judéia, esses demônios não agem ao acaso: todos têm a sua função e o seu objetivo. O mal que fazem no inferno está em relação com o mal que inspiraram e levaram aos homens a praticar na Terra.
Os condenados são punidos em todos os seus sentidos e em todos os seus órgãos, porque ofenderam a Deus através desses sentidos e desses órgãos. São punidos da seguinte maneira: os gulosos pelos demônios da gulodice, os preguiçosos pelos demônios da preguiça, os sensuais pelos demônios da sensualidade e assim por diante, segundo a variedade dos pecados. Sentirão frio ao se queimarem e calor ao se enregelarem. Desejarão ao mesmo tempo o repouso e o movimento. E sempre famintos, sempre sedentos, mais fatigados que os escravos no fim da jornada, mais doentes do que agonizantes, mais maltratados e cobertos de chagas do que os mártires. E tudo isso sem que nunca se acabe.
Nenhum demônio se recusa nem se recusará jamais a executar a sua espantosa tarefa. São todos, nesse sentido, bem disciplinados e fiéis no cumprimento das ordens de vingança que recebem. Sem isso, no que se tornaria o inferno? Os pacientes ficariam em descanso se os carrascos andassem a discutir ou a se enfadarem. Mas nada de repouso para os primeiros, nem de discussões para os segundos. Por piores que sejam e por maior que seja o seu número, os demônios se estendem de um extremo ao outro do abismo e jamais se viu sobre a Terra uma organização de súditos mais dóceis aos seus príncipes, de exércitos mais obedientes aos seus comandantes, de ordens monásticas mais humildemente submissa aos seus superiores.(18)
(18) Esses mesmos demônios, rebeldes a Deus no tocante ao bem, são de exemplar docilidade para a prática do mal. Nenhum deles se recusa ou se mostra de má vontade através de toda a eternidade. Que estranha metamorfose operou-se neles, que haviam sido criados puros e perfeitos como os anjos! É realmente estranho vê-los dar exemplos de perfeito entendimento, de plena harmonia, de inalterável concórdia, quando os homens não sabem viver em paz e se estraçalham na Terra. Vendo o requinte dos castigos reservados aos condenados e comparando a sua situação com a dos demônios, pergunta-se quais são os mais dignos de lástima: Os algozes ou as vítimas?(N. de Kardec)
Quase nada se conhece dos demônios que formam a população do inferno, esses espíritos vis que constituem as legiões de vampiros e sapos, de escorpiões, de corvos, de hidras, de salamandras e outros animais sem nomes da fauna das regiões infernais. Mas se conhecem e sabem-se de muitos dos príncipes que comandam essas regiões, entre outros Belfegor, o demônio dos desejos impuros ou o senhor das moscas que produzem a corrupção; Mamum, o demônio da avareza; Moloque, Belial, Balgad e Astarote e muitos outros. E acima deles o seu chefe universal, o sombrio arcanjo que tinha no céu o nome de Lúcifer e que tem no inferno o nome de Satanás.
Eis em resumo a idéia que nos dão do inferno considerado em sua natureza física e quanto às penas físicas que nele existem. Consultai os Pais da Igreja e os antigos Doutores. Interrogai as legendas piedosas. Olhai as esculturas e as pinturas das nossas igrejas. Ouvi com atenção o que dizem nos nossos púlpitos e aprendereis ainda mais.
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