Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"
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Capítulo IV
Quadro do Inferno Pagão (continuação)
Telêmaco viu então semblantes, pálidos, consternados e hediondos. É que uma tristeza negra corrói esses criminosos. Eles têm horror de si mesmos e não podem livrar-se desse horror como se ele pertencesse à sua própria natureza. Não necessitam assim, de outro castigo para as suas faltas do que as suas próprias faltas que vêem sem cessar em toda a sua enormidade, apresentando-se a eles como horríveis espectros que os perseguem. Para se livrarem disso buscam uma outra morte mais poderosa que aquela que os separou dos seus corpos.
No desespero em que se encontram, esses reis clamam pelo socorro de uma morte que pudesse extinguir neles todo o sentimento e toda a consciência. Pedem aos abismos que os traguem para escaparem aos raios vingadores da verdade que os perseguem, mas estão condenados à vingança que se distila sobre eles gota a gota e que jamais cessará. A verdade que eles temiam ver é agora o seu suplício. Eles a vêem e só têm olhos para vê-Ia erguendo-se contra eles. Essa visão os trespassa, os destrói, os arranca de si mesmos. É como um raio que sem nada destruir ao redor penetra até o mais fundo das suas entranhas.
Entre essas coisas que lhe faziam eriçar os cabelos, Telêmaco viu muitos antigos reis da Lídia que eram punidos por terem preferido os deleites de uma vida folgazã ao trabalho para melhoria dos povos, que deve ser inseparável da realeza.
Os reis reprovavam uns aos outros a sua própria cegueira. Um dizia a outro que tinha sido seu filho: — Não te recomendei freqüentemente, durante a minha velhice e antes de morrer, que reparasses os males que pratiquei na minha negligência? — Ah, infeliz pai! — dizia o filho, — foste tu que me perdeste. Foi o vosso exemplo que me sugeriu o fausto, o orgulho, a voluptuosidade e a dureza de coração para com os homens! Vendo-te reinar com tanta displicência e cercado de covardes aduladores, habituei-me ao gosto da lisonja e dos prazeres. Acreditei que o resto dos homens eram para os reis o que são os cavalos e outros animais de carga para a humanidade em geral, ou seja, esses animais aos quais não se dá importância, querendo apenas que prestem serviços e proporcionem comodidades. Acreditei nisso, e foste tu que me fizeste acreditar. Hoje estou sofrendo todos estes males por te haver imitado. — A essas recriminações juntavam as mais horríveis maldições e pareciam prestes a se entredevorarem de raiva.
Ao redor dos reis volteavam ainda, como morcegos noturnos, as mais cruéis suspeitas, os falsos receios, as desconfianças que são as vinganças dos povos contra a maldade de seus reis, sua insaciável fome de riquezas, a falsidade de sua glória sempre baseada na tirania e a covarde displicência que aumenta os males do povo sem lhes proporcionar jamais a compensação das necessidades satisfeitas.
Viam-se muitos desses reis severamente punidos, não pelos males que haviam praticado, mas por terem negligenciado o bem que deviam fazer. Todos os crimes dos povos, que decorrem da negligência na observação das leis, eram imputados aos reis que deviam ter como seu ministério fazer que as leis reinassem. Todas as desordens provenientes dos excessos de fausto, do luxo e de todos os demais abusos que lançam os homens na violência e na tentação de desprezar as leis para se enriquecerem, eram também imputadas aos reis. Eram tratados sobretudo com rigor os que em lugar de serem bons e vigilantes pastores dos povos só haviam pensado em devorar o rebanho como lobos insaciáveis.
Mas o que mais consternava Telêmaco era ver, nesse abismo de trevas e maldades, grande número de reis que haviam passado pela Terra como soberanos muito bons e estavam condenados às penas do Tártaro por se terem deixado governar por homens maus e hipócritas. Esses eram punidos pelos males que haviam permitido que fossem feitos sob a sua autoridade. De resto, a maioria desses reis não haviam sido bons nem maus, tamanha era a sua fraqueza. Jamais haviam receado conhecer a verdade, pois não possuíam o gosto da virtude e nunca sentiram o prazer de praticar o bem.
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