Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo IV

Quadro do Inferno Pagão (continuação)

Vendo os três juízes que estavam sentados e condenavam um homem, Telêmaco ousou perguntar-lhes quais eram os crimes do mesmo. No mesmo instante o condenado, tomando a palavra, exclamou: — Nunca fiz nenhum mal, sempre tive o maior prazer em fazer o bem, fui magnânimo, liberal, justo e compassivo. Do que me podem acusar? — Então Minos lhe disse: Não se te reprova nada em relação aos homens, mas não devias menos aos homens do que aos deuses? Qual, é, pois, essa justiça de que te vanglorias? Não faltaste com nenhum dever no tocante aos homens, que nada são. Foste virtuoso, mas referiste toda a tua virtude a ti mesmo e não aos deuses, que a concederam a ti, porque querias gozar os frutos da tua própria virtude, vangloriando-te em ti mesmo: foste a tua própria divindade. Mas os deuses, que tudo fizeram unicamente por si mesmos não podem renunciar aos seus direitos. Tu os esquecestes, eles te esqueceram. Eles te entregaram a ti mesmo, desde que preferiste ser de ti mesmo e não deles. Procura, pois, agora, se puderes, o teu consolo em teu próprio coração. Estás agora, para sempre, separado dos homens aos quais querias agradar. Estás sós diante de ti, que eras o teu ídolo. Compreende que não existe verdadeira virtude sem o respeito e o amor aos deuses, aos quais tudo deves. Tua falsa virtude, que por muito tempo ofuscou os homens fáceis de enganar, vai ser confundida. Os homens, considerando os vícios e as virtudes somente pelo que os toca ou os agrada, são cegos para o verdadeiro bem e o verdadeiro mal. Mas aqui uma luz divina inverte todos os julgamentos superficiais. Freqüentemente é condenado aquilo que eles admiram e justificavam o que eles condenam.

A essas palavras, o filósofo, como ferido por um raio não podia conter-se. A satisfação que havia tido outrora ao apreciar a sua própria moderação, a sua coragem e as suas tendências generosas transformou-se em desespero. A visão do seu próprio coração, inimigo dos deuses, tornou-se um suplício. Ele se via a si mesmo e não podia deixar de fazê-lo. Via a vaidade das apreciações dos homens, aos quais ele quis sempre agradar em todas as suas ações. Havia uma revolução geral em tudo o que se encontrava no seu íntimo, como se alguém revirasse todas as suas entranhas. Ele não era mais o mesmo. Seu coração negava-lhe todo o apoio. Sua consciência, cujo julgamento lhe havia sido tão favorável, voltou-se contra ele reprovando amargamente o desvirtuamento e o engano de todas as suas virtudes, que não tiveram o culto da divindade por princípio e por fim. Estava perturbado, consternado, cheio de vergonha, de remorsos e de desespero. As fúrias não o atormentavam porque era bastante entregá-lo a si mesmo, pois o seu próprio coração vingava suficientemente os deuses desprezados. Procurou os lugares mais sombrios para se ocultar dos outros mortos, já que não podia ocultar-se a si mesmo. Procurou as trevas e não pode encontrá-las, pois uma luz importuna o seguia por toda parte, os raios penetrantes da verdade vingam sem cessar a verdade que ele negligenciou ao invés de seguir.

Tudo o que ele amava se tornava odioso, como sendo a própria fonte de seus males, que não mais poderiam acabar. Disse a si mesmo: Oh insensato! Então não conheci os deuses, nem os homens e nem a mim mesmo! Não, nada conheci, desde que nunca amei a única verdade e o verdadeiro bem. Todos os meus passos foram extraviados. Minha sabedoria não era mais que loucura. Minha virtude, um orgulho ímpio e cego. Fui o meu próprio ídolo.

Por fim Telêmaco viu os reis condenados por terem abusado do poder. De um lado uma Fúria vingadora lhes mostrava um espelho em que viam a monstruosidade dos seus próprios vícios. Viam e não podiam deixar de ver sua grosseira vaidade e sua avidez dos mais ridículos louvores; sua dureza para com os homens, que tinham o dever de fazer felizes; sua insensibilidade para a virtude; seu temor de ouvir a verdade; sua inclinação para as criaturas pusilânimes e bajuladoras; sua irresponsabilidade; sua indolência; sua desconfiança excessiva; seu fausto e demasiada magnificência baseadas nas ruínas dos povos; sua ambição que os levava a conquistar o mínimo de vanglória com o sangue dos cidadãos; enfim, sua crueldade de procurar cada dia novas emoções por entre as lágrimas e o desespero de tantos infelizes. Eles se viam nesse espelho permanentemente. Viam-se mais horríveis e mais monstruosos do que a Quimera vencida por Belerofonte ou a Hidra de Lerna abatida por Hércules, ou mesmo Cérbero vomitando por suas três güelas escancaradas um sangue negro e venenoso capaz de empestar toda a raça dos mortais que vivem na Terra.

De outro lado e ao mesmo tempo outra Fúria lhes repetia de maneira insultuosa todos os louvores que os aduladores lhes fizeram em vida e mostravam-lhes outro espelho, no qual eles se viam tais como os aduladores os haviam pintado. A contradição desses dois quadros tão opostos constituía um suplício para a sua vaidade. Notava-se que os piores entre esses reis eram os que haviam recebido as homenagens mais magnificentes durante a vida, porque os maus são mais temidos que os bons e exigem sem pudor as mentirosas reverências dos poetas e dos oradores do seu tempo.

Ouviam-se os seus gemidos na profundeza das trevas, onde eles não podiam perceber outra coisa além dos insultos e das ironias que deviam sofrer. Nada tinham ao seu redor que não os repelisse e contradissesse confundindo-os, enquanto na terra se aproveitavam da vida dos homens, supondo que todos existiam somente para os servir. No Tártaro eles são entregues aos caprichos de alguns escravos que os submetem por sua vez a uma servidão cruel. Têm de servir sofrendo e não lhes resta nenhuma esperança de poder abrandar jamais o seu cativeiro. Ficam sujeitos aos golpes desses escravos, transformados em seus tiranos impiedosos, como uma forja sobre os golpes dos martelos dos Cíclopes, quando Vulcano os apresa no trabalho dentro das ardentes fornalhas do monte Etna.

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