Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo III

O Céu (continuação)

Nesses mundos, reinando a verdadeira fraternidade, não existe o egoísmo. A igualdade é legítima, porque não existe o orgulho. A liberdade é verdadeira porque não existem desordens que exijam repressão, nem ambições tentando oprimir os fracos. Comparados à Terra, esses mundos são verdadeiros paraísos e representam as diversas etapas da rota do progresso que conduz o Espírito ao seu estado definitivo. A Terra, sendo um mundo inferior destinado à depuração dos Espíritos imperfeitos, é essa a razão porque o mal nela domina até que praza a Deus transformá-Ia em morada de Espíritos adiantados.

É assim que o Espírito, progredindo gradualmente, à medida que se desenvolve vai chegando ao apogeu da felicidade. Mas antes de atingir o ponto culminante da perfeição ele já goza de uma felicidade relativa ao seu progresso. É como a criança que gosta dos brinquedos nos seus primeiros anos, mais tarde prefere os prazeres da juventude e finalmente aqueles mais verdadeiros da idade madura.

12 — A felicidade dos Espíritos bem-aventurados não está na ociosidade contemplativa, que seria, como freqüentemente se diz, uma eterna e fastidiosa inutilidade. A vida espiritual, em todos os seus graus, é pelo contrário uma atividade constante, mas livre de fadiga. A suprema felicidade consiste em desfrutar todos os esplendores da criação, que nenhuma linguagem humana poderia exprimir, que a mais fecunda imaginação não poderia conceber. Consiste ainda no conhecimento e na compreensão de todas as coisas, na ausência de qualquer sofrimento físico e moral, na satisfação íntima, na serenidade do espírito que nada altera, no amor que une a todos os seres e portanto na ausência de todo o aborrecimento proveniente da relação com os maus, e acima de tudo na visão de Deus e na compreensão de seus mistérios revelados aos mais dignos.

Mas ela está também no exercício das funções que felicitam o Espírito encarnado. Os Espíritos puros são os Messias ou mensageiros de Deus para transmissão e a execução de seus desígnios. Eles cumprem as grandes missões, presidem à formação dos mundos e à harmonia geral do Universo, incumbência gloriosa a que só chegam pela perfeição. Os de ordem mais elevada são os únicos que estão no se gredo de Deus e se inspiram no seu pensamento, do qual são os representantes diretos.

13 — As atribuições dos Espíritos são proporcionais ao seu progresso, ao seu esclarecimento, às suas capacidades, à sua experiência e ao grau de confiança que merecem do Soberano Senhor. Não existem privilégios nem favores que não decorram do próprio mérito. Tudo é medido pela mais estrita justiça. As missões mais importantes só são confiadas aos que Deus sabe que estão em condições de cumpri-las e são incapazes de falir ou de comprometê-las na sua realização.

Enquanto sob o próprio olhar de Deus os mais dignos constituem o conselho supremo, aos principais Espíritos é entregue a direção dos turbilhões planetários e aos outros a dos mundos especiais. Vêm em seguida, na ordem do adiantamento e da disposição hierárquica, as atribuições mais restritas dos que são incumbidos da orientação dos povos, da proteção às familias e aos indivíduos, de impulsionar cada ramo do progresso, das diversas operações da Natureza, até aos mais íntimos detalhes da criação. Nesse vasto e harmonioso conjunto há ocupações para todas as boas disposições. São ocupações aceitas com alegria e solicitadas com ardor porque representam um meio de adiantamento para os Espíritos que desejam elevar-se.

14 — Ao lado das grandes missões confiadas aos Espíritos superiores, há também as de todos os graus de importância entregues aos Espíritos de todas as ordens, o que nos permite dizer que cada encarnado tem a sua, ou seja: deveres a cumprir para o bem de seus semelhantes, desde o pai de família a quem incumbe o cuidado de fazer progredir os filhos, até o homem de gênio que lança na sociedade novos elementos de progresso. É nessas missões secundárias que freqüentemente se verificam as falências, as prevaricações, as omissões, que entretanto só prejudicam ao próprio indivíduo e não ao conjunto.

15 — Todas as inteligências concorrem para a obra geral, qualquer que seja o seu grau de desenvolvimento, cada uma na medida das suas possibilidades. Umas como encarnadas, outras como Espíritos. Por toda parte deparamos com a atividade, desde o mais baixo ao mais alto da escala, todos se instruindo, se ajudando mutuamente, se apoiando e se dando as mãos para atingirem o alvo.

Assim se estabelece a solidariedade entre o mundo espiritual e o mundo corpóreo, ou seja entre os Espíritos e os homens, entre os Espíritos livres e os Espíritos cativos. Assim se perpetuam e se consolidam, pela depuração e pela continuidade das relações, as verdadeiras simpatias e as mais sagradas afeições.

Por toda parte, pois, há vida e movimento. Não há um recanto do infinito que não esteja povoado, nenhuma região que não seja incessantemente percorrida por inumeráveis legiões de seres radiosos, invisíveis para os sentidos grosseiros dos encarnados, mas cuja visão enche de admiração e de alegria as almas libertas da matéria. Por toda parte enfim, a felicidade é relativa a todos os graus de progresso, por todos os deveres cumpridos. Cada um carrega consigo os elementos de sua própria felicidade, na razão da categoria em que o coloca o seu grau de adiantamento.

A felicidade decorre das próprias qualidades dos indivíduos e não da condição material do meio em que se encontram. Ela está, portanto, em toda parte onde existam Espíritos capazes de ser felizes. Nenhum lugar determinado existe para ela no Universo. Em qualquer lugar que se encontre, os Espíritos puros podem contemplar a grandeza divina porque Deus está em tudo.

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