Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo III

O Céu (continuação)

8 — A encarnação é necessária ao Espírito para conseguir esse duplo progresso, intelectual e moral. O progresso intelectual é realizado pela atividade que é obrigado a desenvolver nos seus trabalhos. O progresso moral, pela necessidade das relações mútuas entre os homens. A vida social é a pedra de toque das boas e das más qualidades. A bondade, a maldade, a mansidão, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má fé, a hipocrisia, em uma palavra tudo o que constitui o homem de bem ou o homem perverso tem por motivo, por alvo e por estimulante as relações do homem com seus semelhantes. Para o homem que vive só não há vícios nem virtudes; se, pelo isolamento, ele se preserva do mal, também anula as possibilidades do bem.(14)

9 — Uma só existência corpórea é evidentemente insuficiente para o Espírito adquirir tudo o que lhe falta no campo do bem e se desfazer de tudo o que possui de mal. O selvagem, por exemplo, jamais poderia atingir numa só encarnação o nível moral e intelectual de um europeu dos mais avançados. Isso seria materialmente impossível. Deveria ele então permanecer eternamente na ignorância e na barbárie, privado dos gozos que só o desenvolvimento das suas faculdades lhe pode proporcionar? O simples bom senso repele essa suposição, que seria ao mesmo tempo a negação da justiça e da bondade de Deus, bem como da lei de progresso que rege a Natureza. Eis porque Deus, soberanamente justo e bom, concede ao Espírito tantas existências quantas forem necessárias para atingir o seu objetivo, que é a perfeição.

Em cada nova existência o Espírito se apresenta com o que adquiriu nas precedentes em aptidões, em conhecimentos intuitivos, em inteligência e em moralidade. Cada existência é assim um passo dado no caminho do progresso.(15)

A encarnação é inerente à condição de inferioridade dos Espíritos. Ela se torna desnecessária para aqueles que romperam esses limites e progrediram espiritualmente ou nas existências corporais dos mundos superiores, onde nada mais existe da materialidade terrena. Para esses a encarnação é voluntária, com o fim de exercer sobre os encarnados uma ação mais direta no cumprimento das missões de que estiverem encarregados. Eles aceitam as suas vicissitudes e os seus sofrimentos por abnegação.

10 — No intervalo das existências corpóreas o Espírito volta por tempo mais ou menos longo ao mundo espiritual, onde é feliz ou infeliz, segundo o bem ou o mal que tenha praticado. O estado espiritual é a situação normal do Espírito, pois esse deve ser o seu estado definitivo, e porque o corpo espiritual nunca morre. O estado corpóreo é apenas transitório, passageiro. É sobretudo no estado espiritual que ele recolhe os frutos do progresso realizado durante a encarnação. É então que ele também se prepara para novas lutas e toma resoluções que se esforçará para pôr em prática no seu retorno ao seio da humanidade.

O Espírito progride igualmente na erraticidade. Nela adquire conhecimentos especiais que não poderia adquirir na Terra. Suas idéias então se modificam. O estado corpóreo e o estado espiritual são para ele as fontes de duas formas de progresso que se desenvolvem solidárias. É por isso que ele passa alternativamente por esses dois modos de existência.(16)

11 — A reencarnação pode se dar na Terra ou em outros mundos. Entre os mundos há os mais avançados, onde a existência decorre em condições menos penosas do que na Terra, física e moralmente. Mas nesses mundos só são admitidos os Espíritos que chegaram ao grau de perfeição a eles correspondentes.

A vida nos mundos superiores já é em si mesma uma recompensa, porque ali estaremos livres dos males e das vicissitudes que enfrentamos neste mundo. Os corpos menos materiais, quase fluídicos, não estão sujeitos às doenças, às dificuldades e nem mesmo às necessidades dos nossos. Os maus espíritos estando excluídos deles, os homens vivem em paz, cuidando apenas do seu progresso pelo trabalho da inteligência.

(14) Eis a razão por que o Espiritismo é inteiramente contrário ao misoneísmo, ao isolamento da criatura, mesmo a pretexto de consagrar-se a Deus. A dinâmica do desenvolvimento moral está sujeita à dinâmica do processo social. É na vida social que nos desenvolvemos moralmente. Se trabalhando a Natureza e as coisas, trabalhamos a nós mesmos, despertando nossa inteligência, por outro lado é no meio social que conseguimos o desenvolvimento moral, despertando a nossa afetividade. Fugir da vida social é portanto fugir de nós mesmos, fugir da própria finalidade da nossa encarnação. As igrejas começam agora a compreender isso, tomando as primeiras providências para acabar com os processos retrógrados de isolamento religioso a pretexto de viver para Deus. Só vivemos para Deus servindo ao próximo. (N. do T.)

(15) Temos aqui um princípio bem conhecido de Pedagogia. A Educação não tem por finalidade transmitir conhecimentos, mas preparar o educando para a aquisição de conhecimentos. O que se passa na reencarnação é precisamente isso. Podemos aprender muito numa existência, mas não são os conhecimentos formais que interessam ao Espírito, e sim o seu treinamento no aprendizado que desperta as suas faculdades cognitivas, a sua capacidade de aprender. Cada encarnação predispõe o Espírito a assimilar conhecimentos mais avançados na seguinte. Por isso é que não nascemos com a cabeça cheia de dados e informações, mas aparelhada com as intuições que nos determinam a vocação e a habilidade para diversos setores de atividades. A vida social é necessária porque só ela possui os estimulantes capazes de despertar no cérebro novo que vamos possuir as suas faculdades latentes. Isso explica o motivo porque as crianças abandonadas na selva ou isoladas do meio social não revelam desenvolvimento mental. Lembremos a maiêutica de Sócrates, ou seja, o processo por ele usado para arrancar o conhecimento de dentro dos seus próprios discípulos, ao invés de aplicar-lhes o ensino didático. (N. do T.)

(16) Vê-se claramente, neste trecho, como a cultura terrena é ainda apenas uma meia-cultura. Função do Espiritismo é completar essa cultura, dando-lhe as dimensões da realidade espiritual. A alternância de vidas, na Terra e no Espaço, faz do homem, não o existente das Filosofias existenciais, mas um interexistente. Mesmo na encarnação essa condição interexistencial se revela de maneira inegável. Os homens vivem no estado de vigília, no estado de hipnose, ou de sono. Além disso, possuem a mediunidade que a Parapsicologia denomina de funções psi, e através dessas funções ele se coloca num intermúndio, vivendo ao mesmo tempo em dois planos diferentes, mas conjugados. Veja-se este problema em O Ser e a Serenidade, edição "Paidéia". (N. do T.)

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