Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo III

O Céu (continuação)

Há portanto o mundo corpóreo, constituído pelos Espíritos encarnados, e o mundo espiritual, constituído dos Espíritos desencarnados. Os seres do mundo corpóreo, em razão do seu envoltório material, estão ligados à Terra ou a qualquer outro globo. O mundo espiritual estende-se por toda parte, ao redor de nós e através do espaço. Nenhum limite podemos assinalar para ele. Em razão da natureza fluídica do seu envoltório, os seres que o constituem não se arrastam penosamente sobre o solo, mas atravessam as distâncias com a rapidez do pensamento. A morte do corpo é a ruptura dos laços que os retinham cativos.

6 — Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas dispondo de aptidão para todas as aquisições e para progredir, em virtude do seu livre-arbítrio. Pelo progresso adquirem novos conhecimentos, novas faculdades, novas percepções e por conseguinte novas possibilidades de prazer, desconhecidas dos Espíritos inferiores. Eles vêem, ouvem, sentem e compreendem aquilo que os Espíritos atrasados não podem ver, nem ouvir, nem sentir e nem compreender.

A felicidade está na razão do progresso realizado. Dessa maneira, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz como o outro unicamente porque não é tão avançado intelectual e moralmente como ele, sem haver necessidade de cada um se encontrar numa região diferente.

Embora estando lado a lado, um pode se encontrar nas trevas enquanto para o outro tudo é resplandescente ao seu redor, da mesma maneira como um cego e um vidente podem se dar as mãos. Um percebe a luz que entretanto não impressiona o outro. A felicidade dos Espíritos, sendo inerente às suas próprias qualidades, eles a gozam por toda parte, onde quer que se encontrem, na face da Terra, entre os encarnados ou no espaço.

Uma comparação vulgar nos permitirá compreender ainda melhor esta situação. Se, num concerto se encontram dois homens: um bom músico de ouvidos exercitados, o outro sem conhecimentos musicais e de sentido auditivo pouco delicado, o primeiro experimenta uma sensação de felicidade enquanto o segundo permanece insensível. Isso porque um percebe e compreende o que não produz nenhuma impressão sobre o outro. Assim acontece com todas as alegrias dos Espíritos que estão na razão direta das suas aptidões para senti-Ias. O mundo espiritual está repleto de esplendores, harmonias e sensações que os Espíritos inferiores, ainda sujeitos às influências da matéria, não podem sequer entrever, pois são acessíveis apenas aos Espíritos depurados.(12)

7 — O progresso dos Espíritos é o resultado do seu próprio trabalho. Mas como eles são livres e trabalham para o seu adiantamento com maior ou menor atividade ou negligência, segundo à sua vontade, eles apressam assim ou retardam o seu próprio progresso, o que vale dizer a sua felicidade. Enquanto uns avançam rapidamente, outros se arrastam por longos séculos nos lugares inferiores. Eles são, portanto, os próprios artífices da sua situação feliz ou desgraçada, segundo estas palavras do Cristo: A cada um segundo as suas obras. Cada Espírito que fica atrasado só pode lamentar-se de si mesmo, como aquele que avança tem todo o mérito do seu progresso: A felicidade que conquistou tem assim mais valor aos seus próprios olhos.(13)

A felicidade suprema é prêmio exclusivo dos Espíritos perfeitos, o que vale dizer dos Espíritos puros. Eles a atingem só depois de haver progredido em inteligência e moralidade. O progresso intelectual e o progresso moral raramente andam juntos, mas o que o Espírito não consegue num determinado tempo, o consegue em outro, de maneira que essas duas formas de progresso acabam por atingir o mesmo nível. Essa a razão pela qual freqüentemente se vêem homens inteligentes e instruídos que são muito pouco avançados no terreno moral, e vice-versa.

(12) Assim, o Espiritismo confirma o adágio: a felicidade está dentro de nós, mas ao mesmo tempo desmente a suposição (da elite e não do povo) de que os ignorantes são mais felizes que os instruídos. Como pode uma criatura ignorante e grosseira sentir a verdadeira felicidade? Sujeita aos instintos animalescos, presa de interesses mesquinhos, apegada a prazeres passageiros a felicidade dessas criaturas é ilusória e está arriscada a decepções contínuas. Na proporção em que a criatura se eleva os seus sentidos se refinam, os seus prazeres passam do plano das sensações materiais para o das sensações íntimas, espirituais, a sua felicidade se amplia em perspectivas jamais suspeitadas. Ela atinge, então, aquele estágio da evolução em que a felicidade se torna permanente e invariável, não perturbada por nenhum fato exterior, pois para esses fatos ela possui também uma visão e uma compreensão que nos escapa, e recursos que não possuímos para prestar ajuda e socorro eficientes. Não devemos, porém, confundir criaturas ignorantes e grosseiras com criaturas pobres, nascidas em meio social obscuro, desprovidas da cultura do mundo mas providas da cultura e do refinamento da alma. As condições sociais da Terra não correspondem às condições evolutivas do espírito. (N. do T.) .

(13) O mérito do progresso implica também o desenvolvimento da responsabilidade. O Espírito que fracassa numa encarnação não retrocede no plano evolutivo, mas sente enfraquecer-se moralmente. Isso aumenta a sua necessidade de esforço próprio para recuperação do tempo perdido. O Espírito vitorioso dá o que podemos chamar um salto no tempo, o que aumenta a sua fé em Deus e a sua confiança em si mesmo. Ele se fortalece moralmente e eleva o seu senso de responsabilidade. Dali por diante as vitórias morais lhe serão mais fáceis. O progresso espiritual se verifica através dos saltos qualitativos de que trata Kierkegaard em seu ensaio sobre O Conceito de Angústia. Ao saltar no tempo o Espírito realiza também o salto interior da sua transformação moral. (N. do T.)

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