Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo II

A Preocupação com a Morte (continuação)

9 — A crença vulgar, por outro lado, coloca as almas em regiões que são acessíveis apenas ao pensamento, onde elas se tornam de qualquer maneira estranhas aos que continuam vivos na Terra. A própria igreja coloca entre elas e estes últimos uma barreira intransponível: declara que toda relação está rompida e que toda comunicação é impossível.(9)

Se as almas se encontram no inferno, toda esperança de revê-Ias está perdida para sempre, a menos que a gente também vá para lá. Se elas se encontram entre os eleitos, estão inteiramente absorvidas pela beatitude contemplativa. Tudo isso coloca entre os mortos e os vivos uma distância imensa que nos faz considerar a separação como eterna.

Eis porque preferimos ter junto a nós, sofrendo na Terra, os seres que amamos, a vê-los partir mesmo que seja para o céu. Além disso, a alma que se encontra no céu será realmente feliz ao ver, por exemplo seu filho, seu pai, sua mãe ou seus amigos queimando eternamente?

Porque os espíritas não se preocupam com a morte

10 — A doutrina espírita muda completamente a maneira de ver-se o futuro. A vida futura não é mais uma hipótese, mas uma realidade. A situação das almas após a morte não se explica por meio de um sistema, mas com o resultado da observação. O véu é levantado. O mundo espiritual nos aparece em toda a sua realidade viva. Não foram os homens que o descobriram através de uma concepção engenhosa, mas os próprios habitantes desse mundo que nos vieram descrever a sua situação.

Vemo-los ali em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases da ventura e da desgraça, assistimos a todas as peripécias da vida de além-túmulo. Está nisso a causa da seriedade com que os espíritas encaram a morte, da calma dos seus derradeiros instantes na Terra. O que os sustenta não é somente a esperança, mas a certeza. Sabem que a vida futura não é mais do que a continuação da vida presente em melhores condições, e esperam com a mesma confiança com que aguardam o nascimento do sol depois de uma noite tempestuosa. Os motivos desta confiança estão nos fatos que testemunharam e na concordância desses fatos com a lógica, com a justiça e a bondade de Deus e com as aspirações mais profundas do homem.

Para os espíritas a alma não é mais uma abstração. Ela possui um corpo etéreo que a torna um ser definido, que podemos conceber pelo pensamento. Isso é o suficiente para nos esclarecer quanto à sua individualidade, suas aptidões e suas percepções. A lembrança daqueles que nos são caros repousa, assim, sobre algo real. Não os representamos mais como chamas fugitivas que nada dizem ao nosso pensamento, mas como formas concretas que no-los apresentam melhor como seres vivos.

Além disso, em lugar de estarem perdidos nas profundezas do espaço, estão ao nosso redor: o mundo corpóreo e o mundo espiritual estão em constantes relações e mutuamente se assistem. A dúvida sobre o futuro já não tendo mais lugar, a preocupação com a morte deixa de ter razão. Esperamo-la tranqüilamente, como uma libertação, como a porta da vida e não como a do nada.(10)

(9) "Na crença vulgar", diz Kardec, porque a Teologia católica já no seu tempo colocava o problema em termos de estado de consciência. Não obstante, os clérigos continuavam a pregar dos púlpitos em termos de crença vulgar. A comparação que Kardec faz, mais adiante, entre o Inferno pagão e o Inferno cristão, esclarecerá bem este assunto. Quanto ao rompimento absoluto de relações entre vivos e mortos, devemos acentuar que havia e ainda subsiste uma atitude contraditória: a relação pode ser permitida por Deus, em casos excepcionais, mas somente no seio da Igreja. Assim, as comunicações espíritas são condenadas como demoníacas, mas as comunicações católicas, sejam de santos e anjos ou mesmo de almas sofredoras, são consideradas legítimas e até mesmo divulgadas em livros. (N. do T.)

(10) A idéia de que as almas dos mortos se tornam chamas fugitivas penetrou fundamente na consciência coletiva dos povos. Vemos a sua sobrevivência até mesmo em pessoas esclarecidas que se tornam espíritas. Nas atas das sessões que realizava, por ele mesmo redigidas, o escritor Monteiro Lobato refere-se constantemente aos espíritos como gases, chamas flutuantes, etc., o que levava alguns dos comunicantes a endossarem a concepção. Um deles lhe respondeu: Sou agora uma chamazinha errante. Referindo-se à sua própria morte, Lobato escreveu que iria passar do estado sólido ao gasoso. O Espiritismo nos mostra que a situação do homem após a morte é muito diferente disso. Conservando o corpo espiritual (de que tão precisamente trata o apóstolo Paulo em I Coríntios) o espírito desencarnado conserva até mesmo a forma corporal, as características físicas que o distinguem na vida terrena, e pode assim identificar-se em suas manifestações pela vidência, pelos fenômenos de aparição e pelos de materialização. Isso permite, ainda — o que estranha às pessoas que desconhecem o problema — que o espírito se identifique pela sua própria voz nos fenômenos de audição mediúnica ou de comunicação por voz direta. Para melhor compreensão deste problema leia-se o livro de H. Dennis Bradley: Rumo às Estrelas, tradução de Monteiro Lobato, reeditado pela LAKE. As teorias de Johannes são puramente pessoais e não têm valor doutrinário. O que importa nesse livro é a descrição das sessões de voz direta e a prova da sobrevivência espiritual. (N. do T.)

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