Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo I

O Futuro e o Nada (continuação)

4 — Em face desta situação o Espiritismo vem opor um dique à invenção da incredulidade, servindo-se não somente da razão e da perspectiva dos perigos a que ela arrasta, mas também dos fatos materiais, ao permitir que se toque com o dedo e se veja com o olho a alma e a vida futura.

Cada qual é livre sem dúvida no tocante à crença, podendo crer em alguma coisa ou não crer em nada. Mas os que procuram fazer prevalecer no espírito das massas, e sobretudo da juventude, a negação do futuro, apoiando-se na autoridade, seu saber e na ascendência da sua posição, semeiam na sociedade os germes da perturbação e da dissolução, incorrendo numa grande responsabilidade.

5 — Há uma outra doutrina que se defende da acusação de materialista porque admite a existência de um princípio inteligente além da matéria. É a doutrina da absorção no todo universal. Segundo esta doutrina cada indivíduo absorve ao nascer uma parcela do princípio que lhe dá a vida, constituindo a sua alma, a sua inteligência e os seus sentimentos. Com a morte, essa alma retorna ao elemento comum e se perde no infinito como uma gota d'água no oceano.

Essa doutrina é sem dúvida um passo adiante em relação ao puro materialismo, pois admite alguma coisa, enquanto o outro não admite nada. Mas as conseqüências de ambas são exatamente as mesmas. Que o homem seja mergulhado no nada ou num reservatório comum, é a mesma coisa. Se no primeiro caso ele é transformado em nada, no segundo perde a sua individualidade, o que equivale a perder a sua existência. As relações sociais são igualmente rompidas. O essencial para o homem é a conservação do seu eu. Sem isso, que lhe importa ser ou não ser? O futuro para ele não existe, num e noutro caso, e a vida presente é a única coisa que lhe interessa e o preocupa. Do ponto de vista das conseqüências morais essas duas doutrinas são perniciosas, igualmente desesperadoras, esta última excitando o egoísmo da mesma maneira que o materialismo.

6 — Além disso, pode-se fazer a essa doutrina a seguinte objeção: todas as gotas d'água de um oceano se assemelham e têm as mesmas propriedades, como partes que são de um mesmo todo. Porque as almas, se foram tiradas de um grande oceano de inteligência universal se assemelham tão pouco entre si? Como explicar a presença do gênio ao lado do idiota? As mais sublimes virtudes junto aos vícios mais ignobéis? A bondade, a doçura, a mansidão ao lado da maldade, da crueldade e da barbárie? Como as partes de um todo homogêneo podem ser diferentes umas das outras? Poderão dizer que é a educação que as modifica? Mas então de onde procedem as qualidades inatas, as inteligências precoces, os bons e os maus instintos que independem de qualquer educação e freqüentemente não estão em harmonia com o meio em que as criaturas se desenvolvem?

A educação, não há dúvida, modifica as qualidades intelectuais e morais da alma, mas neste ponto outra dificuldade se apresenta. Quem deu à alma a educação que a fez progredir? Outras almas que por sua origem comum não devem ser mais adiantadas? Por outro lado, a alma, voltando ao todo universal de que saira, após haver progredido durante a vida, leva a ele um elemento de perfeição, de onde se segue que esse todo deve ser profundamente modificado e melhorado com o tempo. Como se explica que dele saiam incessantemente almas ignorantes e perversas?

7 — Nessa doutrina a fonte universal da inteligência que produz as almas humanas é independente da Divindade. Não se trata, pois, do panteismo. A doutrina panteista propriamente dita difere dela ao considerar o princípio universal da vida e da inteligência como integrando a Divindade. Assim, Deus é ao mesmo tempo espírito e matéria. Todos os seres, todos os corpos da natureza constituem a Divindade, da qual representam as moléculas e demais elementos componentes. Deus é o conjunto de todas as inteligências reunidas. Cada indivíduo, sendo uma parte do todo, é em si mesmo Deus. Nenhum ser superior e independente comanda o conjunto. O universo é uma imensa república sem presidente, onde todos ou cada um é o seu próprio chefe com poder absoluto.

8 — Podemos opor numerosas objeções a esses sistemas. As principais são as seguintes:

Não se podendo conceber a Divindade sem perfeições infinitas, pergunta-se como um todo perfeito pode ser formado de parcelas tão imperfeitas que necessitam de progredir? Cada parcela estando submetida à lei do progresso, disso resulta que o próprio Deus deve progredir, e se ele progride sem cessar, deve ter sido muito imperfeito na origem dos tempos. Como um ser imperfeito, formado de vontades e idéias tão divergentes, pode conceber as leis harmoniosas, tão admiráveis, de unidade, de sabedoria e de previdência que regem o universo? Se todas as almas são parcelas da divindade, todas concorreram para a criação das leis da natureza, como se explica que elas mesmas protestem continuamente contra essas leis, que são a sua própria obra? Uma teoria só pode ser aceita como verdadeira sob a condição de satisfazer à razão e explicar todos os fenômenos que abrange. Se um só fato puder desmenti-la é que ela não possui a verdade absoluta.

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