Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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X. Allan Kardec e a Nova Constituição

As considerações extraídas do relatório sobre a Caixa do Espiritismo, apresentado à Sociedade de Paris, em 5 de maio de 1865, por Allan Kardec, sendo o prelúdio da nova constituição do Espiritismo, que ele estava elaborando, e a exposição de suas idéias a respeito da sua posição pessoal, tem lugar próprio neste preâmbulo.(132)

"Falaram muito dos proventos, que eu colhia de minhas obras; mas pessoa alguma capaz e séria, por certo, crê nos meus milhões sem embargo da afirmativa daqueles que diziam saber, de origem fidedigna, que eu mantinha um estado principesco, carruagens a quatro cavalos e que em minha casa não se andava senão por cima de tapetes d'Aubusson (Revista Espírita de junho de 1862, pág. 179).

"A despeito do que disse o autor de uma brochura, que conheceis, e que prova por cálculos hiperbólicos que meu orçamento de receita excede a lista civil do mais poderoso soberano da Europa, porque só em Franca, vinte milhões de espíritas são meus tributários, (Revista Espírita de junho de 1863, pág. 175) é um fato mais autêntico do que os seus cálculos, que eu nunca pedi coisa alguma a ninguém, que ninguém jamais me deu coisa alguma; em uma palavra, que não vivo à custa de ninguém, pois que das somas, que me tem sido confiadas no interesse do Espiritismo, nem um real foi aplicado em meu proveito.(*)

132) Como se vê, o texto de Kardec aqui apresentado foi incluído pelos organizadores de Obras Póstumas neste local. É um documento histórico de elevada importância e que esclarece problemas suscitados pelos adversários a respeito do codificador. Uma prova eloqüente do caráter e da conduta ilibada do homem que enfrentou o mundo para lhe oferecer a graça do Espiritismo. (N. do Rev.)

(*) Naquela época aquelas somas elevavam-se a 14.100 francos, cujo emprego, em proveito exclusivo da Doutrina, foi justificado pela prestação de contas.

As minhas grandes riquezas proviriam pois das minhas obras espíritas. Posto que elas tenham tido um sucesso inesperado, é preciso ser totalmente ignorante em negócio de livraria para não saber que com livros filosóficos não se podem ajuntar milhões em cinco ou seis anos, quando não se tem senão direitos do autor e alguns cêntimos por exemplar. Seja porém grande ou pequeno o resultado, desde que é fruto do meu trabalho, não cabe a ninguém o direito de fiscalizar-lhe o emprego. Comercialmente falando, estou nas condições de quantos colhem o fruto do seu trabalho, e corre os riscos como qualquer escritor que pode ser bem ou mal acolhido. Conquanto, sob este ponto de vista, não tenha obrigações de dar contas a quem quer que seja, julgo útil por amor da causa, a que me tenho dedicado, dar algumas explicações.

"Quem entrou em minha casa outrora e entrar hoje pode verificar que não se deu mudança em meu modo de viver, desde que me ocupo do Espiritismo; ela é tão simples agora como outrora. E portanto certo que os meus lucros, quaisquer que sejam, não têm sido aplicados a luxo. Em que então os apliquei?

"O Espiritismo, tirando-me da obscuridade, lançou-me em uma via nova, em pouco tempo achei-me envolvido num turbilhão, que nunca imaginei. Quando concebi a idéia de O Livro dos Espíritos, era minha intenção não me pôr em evidência e ficar desconhecido; mas não me foi isto possível; tive de renunciar aos meus gostos pela vida retirada sob pena de abdicar a obra empreendida, que diariamente crescia. Foi-me preciso seguir a impulsão e tomar as rédeas. À medida que ela se desenvolvia, mais vastos horizontes se desenhavam a meus olhos. Compreendi então a imensidade da minha obrigação e a importância do trabalho que ainda me faltava para completá-la. As dificuldades e os obstáculos, longe de me abaterem, redobraram-me a energia. Vi o elevado fim e resolvi alcançá-lo com o auxílio dos bons Espíritos. Sentia que não tinha tempo, nem em cerimônias ociosas. Eis o empenho da minha vida. Dei-lhe todo o meu tempo, sacrifiquei-lhe o repouso, a saúde, porque via o futuro escrito com caracteres inalteráveis.

"Sem sair do meu gênero de vida, esta posição excepcional criou-me necessidades, que não me era dado satisfazer com os recursos pessoais, muito limitados. Seria difícil calcular a multiplicidade de despesas, a que ela me arrastava, despesas que eu em minhas condições ordinárias, bem pudera evitar.

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