Livro selecionado: "Obras Póstumas "

ÍNDICE

IX. Vias e Meios

Somos obrigados, a contragosto, a entrar em considerações sobre coisas de ordem material para chegar a um fim todo espiritual. Convém entretanto notar que a mesma espiritualidade da obra se prende à questão da humanidade terrestre e do seu bem-estar; que não se trata somente da emissão de algumas idéias filosóficas, mas de fundar alguma coisa positiva e durável, para a extensão e consolidação da Doutrina, convindo empregar os meios apropriados para que ela produza os frutos esperados. Supor que estamos no tempo em que alguns apóstolos podiam por-se a caminho com o seu bordão de viagem, sem cogitar do pouso e do pão cotidiano, seria uma ilusão cedo transformada em amargo desengano.

Para fazer coisa séria, é preciso que nos submetamos às necessidades impostas pelos costumes da época em que vivemos as quais são bem diversas das necessidades dos tempos patriarcais. O próprio interesse do Espiritismo exige, portanto, que se calculem os meios de ação, para não pararmos no caminho. Calculemos pois, uma vez que vivemos num século de algarismos.

São bem numerosas as atribuições da comissão central para atender às necessidades de uma boa administração. Tendo cada membro funções ativas e assíduas, ainda que todos fossem dotados de boa vontade, poderia sofrer o serviço, porque nenhum teria o direito de increpar os negligentes.

Para a regularidade dos trabalhos e boa expedição dos negócios, é preciso contar com a assiduidade dos incumbidos deles e que as funções não sejam simples atos de complacência. Quanto mais independentes, por seus recursos pessoais, menos se ateriam a ocupação assídua, e quando não tenham recursos, não lhes podem dar seu tempo.

É preciso portanto que sejam retribuídos, assim como todo o pessoal administrativo. Assim a Doutrina ganhará força, estabilidade e pontualidade e, ao mesmo tempo, dará serviços a pessoas, que precisavam encontrá-los para acudir às necessidades da existência.

Um ponto essencial na economia de toda a administração previdente é que a sua existência não fique dependente de eventualidades, que podem falhar; mas de recursos certos, regulares, de maneira que a sua marcha não sofra embaraços, haja o que houver. É preciso pois que as pessoas, de cujo concuso há mister, não tenham que se preocupar com o futuro. Ora, a experiência demonstra que devem ser reputados aleatórios os recursos, que não procedem senão de cotizações facultativas, quaisquer que sejam os compromissos, além de serem de difícil cobrança. Contar com recursos eventuais para despesas permanentes e indeclináveis é falta de previdência, que um dia trará dissabores.

São menos graves as conseqüências, quando se trata de fundações temporárias para durarem quanto for possível: em nosso caso porém é questão de futuro. A sorte de uma administração, como esta, não pode ser entregue aos azares de uma empresa comercial. Ela deve ser, desde o princípio, senão tão florescente, pelo menos tão estável, quanto o será daqui a um século. Quanto mais sólida for a sua base, menos exposta ficará aos botes da intriga. Neste caso, a mais vulgar prudência exige que se capitalizem inalienavelmente os recursos, que se obtiverem, a fim de ter-se uma renda perpétua, ao abrigo de eventualidades.

Regulando-se a despesa pela renda, a administração não pode, em caso algum, comprometer a sua existência, pois que terá sempre os meios de funcionar. Pode começar em pequena escala; os membros da comissão podem ser reduzidos a cinco ou seis, e ao mínimo o pessoal e as despesas da administração. Com o aumento da renda, terá tudo progressivamente o conveniente desenvolvimento.

Para ir preparando essa organização, temos consagrado, até hoje, o produto de nossos trabalhos como acima dissemos. Se os nossos meios pessoais não nos permitirem mais, fica-nos ao menos, a satisfação de ter lançado a primeira pedra.

Suponhamos pois que, por um meio qualquer, a comissão central consiga dentro dum prazo determinado os recursos para funcionar, o que pressupõe um rendimento fixo de 25 a 30 mil francos; desde que no começo se imponham as devidas restrições, os recursos de várias natureza, que há de vir a dispor em capitais e produtos eventuais, constituirão a Caixa Geral do Espiritismo, que ficará sujeita a uma contabilidade rigorosa. Estando reguladas as despesas obrigatórias, o excedente do rendimento aumentará o fundo comum; proporcionalmente aos recursos desse fundo é que a comissão subsidiará as diversas despesas úteis ao desenvolvimento da Doutrina, sem que jamais seja transformado, em lucro pessoal seu, ou em objeto de especulação para qualquer dos seus membros. O emprego dos fundos e a sua contabilidade serão submetidos à veri ficação de comissários especiais delegados para esse efeito pelos congressos ou assembléias gerais.

Um dos primeiros cuidados da Comissão será o das publicações, logo que haja possibilidade de as fazer, sem esperar pelas rendas; os fundos destinados a semelhante uso não passarão na realidade de um adiantamento, visto como virão a reentrar em caixa pela venda das obras, cujo produto volverá assim ao fundo comum. É negócio de administração.

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