Livro selecionado: "Obras Póstumas "

ÍNDICE

Próxima Página

VIII. Do Programa das Crenças

A condição absoluta de vitalidade para toda associação, qualquer que seja o seu objetivo, é a homogeneidade, isto é a unidade de vistas, de princípios e de sentimentos, a tendência para o mesmo fim, em suma, a comunhão de pensamentos.

Todas as vezes que se reúnem homens em nome de uma idéia vaga, não se entenderão, porque cada um compreende a idéia a seu modo. Toda reunião de elementos heterogêneos traz em si os germes de dissolução, porque se compõe de interesses divergentes, materiais, ou de amor-próprio, tendendo a fins diferentes, pelo que entram em conflito e bem raras vezes se fazem concessões no interesse comum, ou à própria razão e ainda que se submetam à opinião da maioria, por não poderem proceder de outro modo, nunca poderá haver união franca.

Assim tem sido até hoje com o Espiritismo. Formado gradualmente, por sucessivas observações, como todas as ciências, a sua significacão foi, pouco a pouco, tomando maior extensão. A qualidade de espírita, aplicada sucessivamente a todos os graus da crença, compreende um número infinito de variedades desde a simples crença no fato das manifestações, até às mais altas deduções morais e filosóficas; desde aquele que não passando da superfície, não vê nele senão um passatempo de curiosidade, até quem procura a concordância dos princípios com as leis universais e a sua aplicação aos interesses gerais da humanidade, enfim, desde o que não vê senão um meio de exploração em proveito próprio até o que vai beber nele os elementos do seu melhoramento moral.

Dizer-se espírita, ainda que convencido, não indica pois, de modo algum, a medida da crença. Esta palavra diz muito para uns e nada para outros.

Uma assembléia, para a qual se convidassem todos os que se dizem espíritas, apresentaria uma amálgama de opiniões divergentes, que não se podiam fundir e nada produziria de sério, abrindo as suas portas a gente empenhada em levantar discussões nocivas. Esta falta de precisão, inevitável no princípio e durante o período de elaboração, tem muitas vezes causado lastimáveis enganos, fazendo atribuir à Doutrina o que é o abuso ou desvio dela.

É pela falsa aplicação que diariamente fazem da qualidade de espírita, que a crítica, pouco se importando de descer ao fundo das coisas, e menos ainda de estudar o lado sério do Espiritismo, acha matéria para zombarias. A seus olhos é representante da doutrina quem se diz espírita, quem pretenda fazer do Espiritismo, o que da física fazem os prestidigitadores seja embora um saltimbanco.

É certo que se faz uma distinção entre os bons e maus, os verdadeiros e os falsos espíritas, os mais ou menos esclarecidos, ou convencidos, e os espíritas de coração, mas essas designações, sempre vagas, não são autênticas, nada as caracteriza, não se conhecem os indivíduos e não se tem ocasião de julgá-los pelas obras.

Pode-se pois ser iludido por aparências, donde resulta que a qualidade de espírita, não tendo aplicação segura, não pode, em absoluto, recomendar ninguém; e esta incerteza lança nos espíritos tal desconfiança, que impede firmarem-se, entre os laços de verdadeira fraternidade.

Hoje, que estão fixados todos os pontos da doutrina e os deveres dos verdadeiros adeptos, a qualidade de espírita já pode ter um caráter definido. Um formulário de profissão de fé pode ser estabelecido, e a adesão, por escrito, a estes programas será testemunho autêntico da maneira de encarar o Espiritismo. Esta adesão, provando a uniformidade dos princípios, será também o laço, que unirá os adeptos em uma grande família, sem distinção de nacionalidade, da comunidade de pensamento, de vistas e de aspirações. A crença no Espiritismo não mais será uma simples aquiescência, às vezes parcial, a uma idéia vaga; mas uma adesão motivada, com conhecimento de causa, e provada por um título oficial dado ao aderente.

Próxima Página

Copyright 2004 - LAKE - Livraria Allan Kardec Editora
(Instituição Filantrópica) Todos os Direitos Reservados