Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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IV. Comissão Central

Durante o período da elaboração, fez-se mister que a direção do Espiritismo fosse individual: era necessário que todos os elementos constitutivos da Doutrina, que vinham de diferentes focos, em estado embrionário, chegassem a um centro, para serem aí examinados e colecionados, e que um pensamento único presidisse à coordenação, para estabelecer a unidade do conjunto e a harmonia das partes. Se tivesse sido de outro modo, a Doutrina ter-se-ia assemelhado a um mecanismo, cujas peças não se adaptassem com precisão.

Temo-lo dito, porque é uma verdade incontestável, hoje claramente demonstrada: a Doutrina podia sair tanto de um centro único, como a ciência astronômica de um único observatório; e todo centro que tivesse tentado constituí-la, mediante suas exclusivas observações, teria feito obra incompleta e achar-se-ia, numa infinidade de pontos, em contradição com os outros. Se mil centros quisessem fazer doutrina sua, não haveria duas iguais em todos os pontos. Se estivessem de acordo na essência, seriam inevitavelmente discordes na forma.

Mas como há muita gente que atende mais à forma do que à essência, haveria por isso tantas seitas quantas as formas diferentes. A unidade não podia sair senão do conjunto e da comparação de todos os resultados parciais. É por isso que a concentração dos trabalhos era necessária, (A Gênese, cap. I Caracteres da revelação espírita, n.° 51 e seguintes).

O que era vantagem em certo tempo pode tornar-se inconveniente mais tarde. Hoje, que está terminado o trabalho de elaboração, no que se entende com as questões fundamentais e que os princípios gerais da ciência estão estabelecidos, a direção, de individual que foi preciso ser no princípio, deve tornar-se coletiva, não só porque vem o momento, em que o seu peso excederá as forças de um homem, como porque há mais garantia de estabilidade em uma reunião de indivíduos, onde cada qual dispõe de seu voto e que nada podem sem o concurso uns dos outros, do que em um só que pode abusar da autoridade e querer fazer predominar as suas idéias pessoais.

Em lugar de um chefe único, a direção será cometida a uma comissão central permanente, cuja organização e atribuições serão determinadas, para nada haver de arbitrário. Essa comissão será composta no máximo de doze membros titulares, que reúnam certas condições, e de igual número de conselheiros. Completar-se-ia por si mesma, segundo regras também determinadas, toda vez que se der alguma vaga. Uma disposição especial fixará o modo de nomeação dos doze primeiros. A comissão nomeará anualmente um presidente.

A autoridade do presidente será puramente administrativa; dirigirá as deliberações da comissão, superintenderá a execução dos trabalhos e a expedição dos negócios; mas fora das atribuições que lhe são conferidas pelos estatutos, nenhuma decisão se dará sem o concurso da comissão, com a qual são impossíveis abusos, alimentos à ambição, pretexto para intrigas e ciúmes, supremacia que mortifique.

A comissão central será portanto o verdadeiro chefe do Espiritismo, chefe coletivo, que nada poderá sem a aquiêscência da maioria. Suficientemente numeroso para se esclarecer pela discussão, não o será para produzir confusão.

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