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ÍNDICE

III. O Chefe do Espiritismo

Quem será encarregado de manter o Espiritismo com esse programa? Quem terá o tempo e a perseverança para se entregar ao duro trabalho, que exige essa missão? Se o Espiritismo for entregue a si próprio, sem guia, não é para temer que se desvie da rota e que a malevolência, de que será por muito tempo alvo, se esforce por desnaturá-lo? É esta certamente uma questão vital, cuja solução é do maior interesse para o futuro da Doutrina.

A necessidade de uma direção superior, guarda vigilante da unidade progressiva e dos interesses gerais da Doutrina, é por tal modo evidente, que já lavra o incômodo por não se ver despontar no horizonte novo condutor.

Compreende-se que, sem uma autoridade moral, capaz de centralizar os trabalhos, os estudos e as observações, de dar impulso, estimular o zelo, defender o fraco, sustentar as coragens vacilantes, auxiliar com os conselhos da experiência, fixar a opinião sobre os pontos incertos, o Espiritismo correria o risco de andar à matroca. Não somente essa direção é necessária; como é preciso que disponha da força e da estabilidade em grau de assoberbar as tempestades.

Aqueles que repelem toda a autoridade não compreendem os verdadeiros interesses da Doutrina; se alguns pensam poder dispensar a direção, a maior parte — os que não confiam em sua infalibilidade e em suas luzes — sentem a necessidade de um apoio, de um guia, ao menos para ajudá-los a caminhar com mais certeza e segurança. (Vede a Revista de abril de 1866, pág. 111, O Espiritismo independente).

Estabelecida a necessidade de uma direção, de quem receberá o chefe os precisos poderes? Será aclamado pela universalidade dos adeptos? Isto é impraticável.

Se se impõe como autoridade, será aceito por uns e rejeitado por outros, e vinte pretendentes podem surgir, erguendo estandarte contra estandarte. Seria o despotismo e a anarquia ao mesmo tempo. Semelhante procedimento só poderia partir de um ambicioso e nada mais impróprio do que um ambicioso, e portanto orgulhoso, para dirigir uma Doutrina baseada na abnegação, no devotamento, no desinteresse e na humildade. Colocado fora do princípio fundamental da Doutrina, não faria senão falsificá-la. É o que aconteceria fatalmente se não se tomassem providências para prevenir o inconveniente.

Admitamos que um homem reúna todas as qualidades requeridas para aquele alto mandato e chegue à direção superior por qualquer modo: os homens seguem-se e não se parecem; depois de um bom, pode vir um mau; com o indivíduo pode mudar a direção, sem mau desígnio pode ter ele vistas menos justas e se quiser fazer prevalecer as suas idéias pessoais pode desviar a Doutrina, suscitar divisões; e as mesmas dificuldades se renovarão, consecutivamente, a cada mudança.

É preciso não esquecer que o Espiritismo ainda não está na pujança da sua força; considerada a sua organizacão é uma crença que começa a ensaiar os passos. Importa pois, principalmente no princípio, preveni-lo contra as dificuldades do caminho.

Perguntar-se-á: um dos Espíritos anunciados, que devem tomar parte na regeneração, não se colocará à frente do Espiritismo? É provável, mas como não trazem sinal na testa, e é por suas obras que afirmam a autoridade deles, não serão para a maior parte reconhecidos como tais, senão depois da desencarnação, e é preciso prever todas essas eventualidades.

Sabemos que a missão desses Espíritos será múltipla, que existirão em todos os graus da escala e nos vários ramos da economia social onde cada um exercerá a sua influência em proveito das idéias novas, segundo a sua posição especial. Todos trabalharão pois no estabelecimento da Doutrina, numa ou noutra parte, uns como chefes de Estado, outros como legisladores, outros como magistrados, sábios, literatos, oradores, industriais, etc. Cada um fará a prova, na sua especialidade, desde o proletário até o soberano, sem que se distingam do comum dos homens senão pelas obras.

Se um deles deve tomar parte na direção, é provável que seja, providencialmente, colocado em posição de aí chegar pelos meios legais que forem adotados. Circunstâncias aparentemente fortuitas aí o levarão, sem desígnio seu premeditado, sem mesmo consciência da missão. Revista Espírita: Os Messias do Espiritismo, fevereiro-março, 1868, págs. 45 e 65).

Nestes casos, o pior de todos os chefes seria o que se desse por eleito de Deus. Como não é racional admitir que Deus confie essas missões a ambiciosos ou a orgulhosos, as virtudes características de um verdadeiro Messias devem ser, antes de tudo, a simplicidade, a humildade, a modéstia, em uma palavra o mais completo desinteresse material e moral. Ora a simples pretensão de ser um Messias seria a negação daquelas qualidades essenciais e provaria, no que se arrogasse aquele título, uma louca presunção, se de boa fé, ou uma insigne impostura.

Não faltarão intrigantes, pretensos espíritas, que queiram elevar-se por orgulho, ambição ou interesse, outros que, por falsas revelações, procurem pôr-se em evidência e fascinar as imaginações crédulas. É preciso prever também que sob falsas aparências podem alguns tentar apossar-se do leme para fazerem soçobrar o navio, desviando-o da rota certa. Ele não soçobrará, mas poderá ser retardado, o que é preciso evitar. São estes, com efeito, os maiores esolhos, de que o Espiritismo deve fugir; quanto mais aumenta a sua consistência, mais aumentarão as emboscadas dos inimigos.

É portanto dever de todos os espíritas sinceros desfazer os planos da intriga, que podem ser urdidos nos menores centros, como nos maiores. Devem desde logo repudiar absolutamente quem quer que se arvore em Messias, como chefe do Espiritismo, ou como apóstolo da doutrina. Conhece-se a árvore pelo fruto; esperem pois que ela dê fruto para julgarem se é bom (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XXI, n.° 9: caracteres do verdadeiro profeta).(*)

Houve quem propusesse a designação dos candidatos pelos Espíritos, em cada grupo ou sociedade espírita. Além de não obviar este meio a todos os inconvenientes, encerra alguns especiais, que a experiência tem demonstrado e que é supérfluo referir aqui.

É preciso não esquecer que a missão dos Espíritos é instruir-nos e melhorar-nos, mas não substituirem-se ao livre-arbítrio. Sugerem-nos pensamentos, ajudam-nos com seus conselhos, sobretudo no que se refere às questões morais, mas deixam ao nosso critério o cuidado da execução das coisas materiais, de que não têm por missão desembaraçar-nos.

Contentem-se os homens com serem assistidos e protegidos pelos bons Espíritos; mas não descarreguem neles a responsabilidade inerente ao papel de encarnado. Aquele meio suscitaria mais embaraços do que se pensa, pela dificuldade de fazer todos os grupos tomarem parte na eleição. Seria uma complicação no mecanismo e o mecanismo, quanto mais simples fôr, mais difícil será a sua desorganização.

O problema é pois constituir uma direção central em condições de força e de estabilidade, que a ponham ao abrigo das flutuações; que satisfaçam a todas as necessidades da causa e oponham uma barreira absoluta aos manejos da intriga e da ambição. Esse é o fim do plano de que vamos dar um rápido esboço.

(*) O grifo é nosso. (N. do Rev.)

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