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II. Dos Cismas

Uma questão, que se apresenta, à primeira vista, ao pensamento, é a dos cismas, que poderão nascer no seio da Doutrina. O Espiritismo será deles preservado? Não, sem dúvida, pois que ele terá principalmente, no começo, de lutar contra as idéias pessoais, sempre intransigentes, tenazes, difíceis de se harmonizar com as idéias de outrem e contra a ambição dos que querem ligar, a todo o custo, o seu nome a uma inovação qualquer, que inventam novidades só para poderem dizer que não pensam e não fazem como os outros, ou porque o seu amor próprio se revolta por terem de ocupar um lugar secundário. Se o Espiritismo não escapar às fraquezas humanas, com que é preciso contar, pode neutralizar-lhe as conseqüências; e isto é o essencial.

É de notar que os numerosos sistemas divergentes, que surgiram nos primeiros tempos do Espiritismo, sobre maneira de explicar os fatos, foram desaparecendo à medida que a doutrina se completava pela observação e pelo racionalismo. É hoje raro encontrar algum partidário desses primeiros sistemas. Deste fato notório infere-se que as últimas divergências se dissiparão com a completa elucidação de todas as partes da Doutrina; haverá porém sempre os dissidentes por sistema, interessados por esta ou por aquela causa, formando um grupo à parte. É contra as suas pretensões que devemos estar prevenidos.

Para garantir a unidade no futuro, é indispensável que todas as partes do corpo da Doutrina sejam determinadas com precisão e clareza, sem que nenhuma fique mal definida. Neste sentido temos feito todo o esforço para que os nossos escritos não se prestem a interpretações contraditórias e esforçar-nos-emos por manter essa regra.

Quando for dito positivamente e sem ambigüidades, que dois e dois são quatro, ninguém ousará dizer que dois e dois são cinco. Poder-se-ão formar, fora da Doutrina, seitas que não adotem alguns ou todos os princípios; não assim no seio dela, por interpretação do texto, como se tem formado, tão numerosas, sobre o sentido das palavras do Evangelho. É este um primeiro ponto de importância capital. O segundo é não sair do círculo das idéias práticas. Se é certo que a utopia de hoje se torna muitas vezes a verdade de amanhã, deixemos que o futuro realize a utopia de hoje, mas não enredemos a Doutrina com princípios, que possam ser considerados quimeras e a tornem rejeitada pelos homens positivos.

O terceiro ponto enfim é inerente ao caráter essencialmente progressivo da Doutrina. Por ela se não dever embalar por sonhos irrealizáveis, não se segue que se imobilize. Apoiada, exclusivamente, em leis naturais, não pode ser mais variável que estas leis, mas se uma nova lei for descoberta, deve modificar-se para harmonizar-se com esta; não deve cerrar a porta a nenhum progresso sob pena de suicidar-se. Assimilando todas as idéias reconhecidamente justas, de qualquer ordem que sejam, físicas e metafísicas, nunca será posta à margem e é esta uma das principais garantias da sua perpetuidade.(128)

(128) O estudioso da Doutrina deve examinar atentamente esse trecho, pois a afirmação necessária de Kardec sobre a natureza evolutiva do Espiritismo tem sido aproveitada para confusões. O Espiritismo só pode evoluir de maneira positiva, acompanhando a evolução dos conhecimentos e nunca aceitando idéias utópicas. Na verdade, ele está balizando o progresso atual. (N. do Rev.)

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