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O Meu Sucessor

22 de dezembro de 1861.
Em minha casa; comunicacão Particular — Médium. Sr. d'A...

Conversando com os Espíritos, veio a propósito falar em quem me substituiria na direção do Espiritismo, assunto a respeito do qual fiz a seguinte pergunta:

P. Muitos dos adeptos incomodam-se com o que será o Espiritismo quando eu faltar e perguntam quem me substituirá, não havendo ninguém que, de maneira notória, possa tomar em mãos os remos. Hei respondido que não tenho a pretensão de ser o único indispensável; que Deus é muito sábio para fazer depender da vida de um homem o futuro de uma doutrina que deve regenerar o mundo; que, por demais, sempre me disseram que tenho de constituir a doutrina e que para isto me darão o tempo necessário. A missão do meu sucessor será, pois, mais fácil, estando o caminho traçado, não lhe cumprindo senão segui-lo.

Entretanto se os Espíritos julgassem conveniente dizer-me qualquer coisa sobre este assunto, ser-lhe-ia agradecido.

R. Tudo isto é rigorosamente verdade, e além do mais eis o que nos é permitido dizer-te:

Tens razão de te não julgares indispensável; aos olhos dos homens o és com efeito, porque era preciso concentrar o trabalho da organização nas mãos de um só para que houvesse unidade; aos olhos de Deus porém, não o és. Foste escolhido e é por isso que és o único; mas não és, como bem sabes, o único capaz de desempenhar a missão se por qualquer causa fosse ela interrompida. Deus suscitaria quem te substituísse. Assim pois, haja o que houver, não há perigo para o Espiritismo.

Até terminar o trabalho de elaboração, convém que sejas o único em evidência, servindo como de bandeira, em torno da qual se agrupem todos; convém que te considerem indispensável, para que a obra, saída de tuas mãos, tenha mais autoridade no presente e no futuro; é mesmo útil que se nutram receios pela tua partida.

Se o teu sucessor estivesse já designado, a obra poderia ser perturbada em meio; formar-se-iam contra ele oposições suscitadas pelo ciúme; discuti-lo-iam antes de qualquer prova; os inimigos da doutrina procurariam tolher-lhe a evolução. Ele surgirá porém quando for chegada a ocasião.

A sua tarefa tornar-se-á mais fácil porque, como disseste, o caminho já estará traçado; se ele se afastasse, perder-se-ia, como se perderam os que têm querido atravessá-lo. O seu trabalho, porém, será pesado noutro sentido, porque ele terá que sustentar as mais terríveis lutas. A ti, a concepção, a ele a execução, e é por isso que deverá ser homem de energia e de ação.

Admira a sabedoria de Deus na escolha dos seus mandatários; tu tens as qualidades requeridas para o encargo que te foi dado; mas não tens as que são precisas ao teu sucessor. A ti é preciso a calma, a tranqüilidade do escritor que fecundou as idéias no remanso da meditação; a ele a força do capitão que comandava um navio, segundo as regras da ciência. Desobrigado do trabalho da criação, a cujo peso o teu corpo sucumbirá, ele será mais livre para aplicar todas as suas faculdades ao desenvolvimento e à consolidação do edifício.

P. Podereis dizer-me se já está feita a escolha do meu sucessor?

R. Está e não está; pois que o homem, tendo seu livre-arbítrio, pode à última hora recuar diante da empresa por ele mesmo escolhida. Além disso, é preciso que ele dê provas de capacidade, devotamento, desinteresse e abnegação. Se ele tivesse por móvel a ambição, o desejo de primar, seria posto certamente à margem.

P. Tem-se dito que muitos Espíritos superiores devem encarnar para auxiliar o movimento.

R. Com certeza muitos Espíritos superiores terão essa missão; cada um, porém, terá a sua especialidade e deverá agir, por sua posição, sobre tal ou tal parte da sociedade. Todos se revelarão por suas obras e nenhum deles nutriria a pretensão a qualquer supremacia.(112)

(112) O sucessor natural de Kardec foi Léon Denis, o grande divulgador, conferencista que percorreu a Europa e consolidou a obra do mestre. Leia-se Vida e Obra de Léon Denis, de Gaston Luce, lançado em português pela Edicel na coleção Vidas Missionárias. Homem de província, vivendo em Tours, ninguém pensava no seu nome para a sucessão de Kardec. E esta se verificou naturalmente, por força do mérito e não por qualquer espécie de escolha em assembléias ou coisa semelhante. (N. do Rev.)

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