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Auto-de-Fé de Barcelona. — Queima de Livros

9 de outubro de 1861
Auto-de-fé de Barcelona(*)

(*) É grande a curiosidade no meio espirítico para saber quem foi esse famigerado bispo de Barcelona. Vamos satisfazer à natural curiosidade dos estimáveis Confrades: o bispo de Barcelona que, desrespeitando os comezinhos princípios democráticos, apregoados pela própria Igreja e tão bem caracterizados pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, foi DON ANTÔNIO PALAÚ Y TERMENS, desencarnado no dia 8 de julho de 1862. (Nota do tradutor)

O auto-de-fé de Barcelona assinalará uma data nos anais do Espiritismo. Eis o extrato da ata da execução.

"Aos 9 de outubro de 1861, às 10 e meia horas da manhã, sobre a colina da cidade de Barcelona, no lugar onde são executados os condenados à pena última, e por ordem do bispo desta cidade, foram queimados 300 volumes de brochuras sobre o Espiritismo, a saber: "O Livro dos Espíritos", por Allan Kardec..., etc."

Os principais jornais de Espanha deram a circunstanciada notícia do acontecimento, que os órgãos da imprensa liberal severamente profligaram.

É para notar que, em França, os jornais liberais apenas se limitaram a mencioná-lo, sem fazer-lhe o mais ligeiro comentário.

O Siècle mesmo, tão pronto sempre em estigmatizar os abusos do poder e os menores atos de intolerância do clero, não achou uma palavra para aquele, digno da Idade Média. Alguns jornais da pequena imprensa acharam até motivo para rir.

A parte qualquer idéia de crença, havia ali uma questão de princípio, de direito internacional, de interesse para todos, pela qual não teriam passado com tão pouco caso, se fossem outros os livros queimados. Não se poupam censuras quando se trata de uma simples recusa de estampilha para selar um livro materialista e, no entanto, era uma coisa muito mais grave acender fogueiras à inquisição, com a solenidade antiga, às portas de França. Por que semelhante indiferença? É que se tratava de uma doutrina, cujos progressos assombram a incredulidade; reivindicar a favor dela a justiça, seria consagrar o direito à proteção da autoridade e aumentar-lhe o crédito.

Como quer que seja, o auto-de-fé de Barcelona produziu o esperado efeito, pelo ruído que fez em Espanha, onde contribuiu poderosamente para propagação das idéias espíritas. (Vede A Revista Espírita de novembro de 1861, pág. 321). Esse processo provocou numerosas comunicações da parte dos Espíritos; a que se segue foi obtida espontaneamente na Sociedade de Paris, a 19 de outubro na minha volta de Bordéus:

"Era preciso que alguma coisa abalasse violentamente certos Espíritos encarnados para que se decidissem a ocupar desta grande doutrina que há de regenerar o mundo.

"Nada se perde na terra e por isso nós, que inspiramos o auto-de-fé de Barcelona, sabíamos que por aquele meio obrigávamos a dar um grande passo adiante. Esse fato brutal, inaudito nos tempos atuais, foi consumado para atrair a atenção dos jornalistas, indiferentes à profunda agitação que se operava nas cidades e centros espíritas; eles não se ocupavam dessa agitação, antes se obstinavam em cerrar ouvidos e em responder pelo mutismo ao desejo de propaganda dos adeptos do Espiritismo. Por bem ou por mal, é preciso que falem. Provando uns a verdade do fato histórico de Barcelona e desmentindo-o outros, dão ensejo a uma polêmica, que fará a volta do mundo, do que se aproveitará o Espiritismo.

"Eis porque hoje, e por vontade nossa, a retaguarda da inquisição fez o seu último auto-de-fé".

Um Espírito.

NOTA. — De Barcelona foi-me enviado um desenho de aquarela, feito por um artista notável, representando a cena do auto-de-fé. Mandei tirar, em ponto menor, uma cópia fotográfica. Possuo também cinzas colhidas no lugar da fogueira, no meio das quais se encontram fragmentos, ainda legíveis, das folhas queimadas. Guardo-os em uma urna de cristal.(*)

(*) A Livraria Espírita as conserva sempre. (N. de Kardec)

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