Livro selecionado: "Obras Póstumas "

ÍNDICE

A Revista Espírita

15 de novembro de 1857.
Em casa do Sr. Dufaux — Médium, a Sra. E. Dufaux.

P. Tenho a intenção de publicar um órgão espírita. Pensais que poderei fazê-lo? Que me aconselhais? A pessoa, a quem me dirigi, o Sr. Tiedeman, não me parece disposta a dar o seu concurso pecuniário.

R. Sim. Tu o conseguirás com perseverança. A idéia é boa, mas é preciso deixá-la amadurecer mais.

P. Receio que outros se antecipem.

R. Adianta-te.

P. Não desejo outra coisa, mas falta-me tempo. Tenho dois empregos, que me são necessários, como sabeis; bem quereria poder renunciar a eles a fim de consagrar-me à obra, sem preocupação estranha.

R. Não precisas, por enquanto, abandoná-los; para tudo há sempre tempo; põe-te a caminho e chegarás.

P. Devo dispensar o concurso do Sr. Tiedeman?

R. Age com o concurso dele ou sem ele; não te incomodes: podes dispensá-lo.

P. O meu plano é fazer um primeiro número para ensaio, a fim de dar início à publicação e firmar a data, continuando mais tarde com ela, se for possível; que me dizeis?

R. É boa a idéia, mas um número só não é bastante; entretanto é útil e necessário mesmo para abrir caminho aos outros. É preciso ter o maior cuidado, de maneira que assegure o êxito, se for defeituoso, melhor seria nada fazeres, porque a primeira impressão pode decidir do seu futuro. É preciso tomar muito a peito, principalmente no começo, satisfazer à curiosidade; ele deve reunir o sério ao agradável, que deleita o vulgo;(104) esta parte é essencial, porém a outra é a mais importante, porque sem ela o órgão não terá fundamento sólido. Em uma palavra, é preciso evitar a monotonia pela variedade, reunir a instrução sólida ao interesse, o que será de poderoso auxílio para os trabalhos ulteriores.

Observação. — Apressei-me em redigir o primeiro número e o fiz aparecer no primeiro de janeiro de 1858, sem que a ninguém tivesse prevenido.

Não tinha um só assinante, nem nenhum fornecedor de capitais. Fi-lo pois exclusivamente por minha conta e não tive do que me arrepender, porque o êxito excedeu a minha expectativa. A partir do 1.° de janeiro, os números sucederam-se, sem interrupção, e, como previra o Espírito, o órgão foi-me poderoso auxiliar. Reconheci mais tarde que fora uma felicidade não ter comanditário, porque tive sempre toda a liberdade, havendo um interessado estranho, poderia querer impor-me as suas idéias e vontades e tolher-me a caminhada; sozinho, não tinha que dar contas a ninguém, por mais pesado que me fosse o trabalho.(105)

(104) A coleção total da Revista Espírita, em doze volumes, hoje publicada em português pela Edicel e pela IDE, revela-nos o cuidado com que Kardec seguiu essas instruções obtendo o êxito previsto. Essa coleção é indispensável aos que desejam realmente estudar o Espiritismo. (N. do Rev.)

(105) Kardec redigiu sozinho a Revista Espírita (que é o jornal acima referido) desde 1º de janeiro de 1858 até abril de 1869. Ao desencarnar, a 31 de março desse ano, já deixara preparado o número do mês seguinte. Foi um trabalho exaustivo, ao qual se dedicou com verdadeira abnegação. (N. do Rev.)

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