Livro selecionado: "Obras Póstumas "

ÍNDICE

Página Anterior

A Minha Iniciação no Espiritismo

O fato apenas de comunicação com os Espíritos, independente do que eles pudessem dizer, provava a existência do mundo invisível: ponto capital, campo imenso aberto às nossas explorações, chave de uma multidão de fenômenos inexplicados. O segundo ponto, não menos importante, era conhecer o estado desse mundo e os seus costumes, se assim me posso exprimir. Vi logo que cada Espírito, segundo a sua posicão e conhecimentos, me patenteava uma fase daquele mundo, do mesmo modo como se chega a conhecer o estado de um país, interrogando habitantes de todas as classes e condições, podendo cada um ensinar-nos alguma coisa e nenhum, individualmente, ensinar tudo.

Incumbe ao observador formar o conjunto, coordenado, colecionando e conferindo, uns com os outros, documentos que tenha recolhido. Procedi com os Espíritos como teria feito com os homens; considerei-os, desde o menor até o maior, como elementos de instrução e não como reveladores predestinados.

Tais foram as disposições com que empreendi e com que sempre segui os estudos espíritas: observar, comparar e julgar, essa foi a regra invariável que me impus.

As sessões da casa do Sr. Baudin nunca tinham tido fim determinado: procurei, nelas, resolver problemas, que me interessavam, sobre filosofia, psicologia e natureza do mundo invisível. Em cada sessão, apresentava uma série de perguntas preparadas e metodicamente arranjadas, e tinha sempre respostas precisas, profundas e lógicas. As reuniões tomaram então outro caráter. Entre os assistentes achavam-se pessoas sérias, que tomaram vivo interesse pelo meu estudo, e se me acontecia faltar um dia, nenhum trabalho se fazia. As questões fúteis tinham perdido todo o atrativo para a maior parte. A princípio não tive em vista senão a minha própria instrução, mais tarde, porém, quando vi que formava um núcleo em torno do qual os trabalhos tomavam as proporções de uma doutrina, pensei em torná-los públicos para a instrução de todos. Foram aquelas questões, desenvolvidas e completadas, que constituíram a base de O Livro dos Espíritos.

No ano seguinte, em 1856, acompanhei também as reuniões espíritas da Rua Tiquetone, em casa do Sr. Roustan e Srta. Japhet, sonâmbula. Essas reuniões eram sérias e ordeiras. O meu trabalho estava quase acabado e dava para um livro; mas eu quis revê-lo com outros Espíritos, mediante outros médiuns. Tive o pensamento de fazer dele objeto de estudo para as sessões do Sr. Roustan; mas no fim de algumas sessões, os Espíritos disseram que preferiam revê-lo na intimidade e marcaram para este efeito certos dias, em que trabalhariam com a Srta. Japhet, a fim de o fazerem com mais calma e mesmo para evitar indiscrições e comentários prematuros do público. Não me contentei com essa verificação que os próprios Espíritos me recomendaram.

Tendo-me relacionado com outros médiuns, sempre que se me oferecia ocasião, a aproveitava para propor algumas das perguntas, que me pareciam mais espinhosas. Foi assim que mais de dez médiuns prestaram a sua assistência ao trabalho e foi da comparação e da fusão de todas essas respostas, coordenadas, classificadas e muitas vezes remoídas no silêncio da meditação, que formei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, aparecida a 18 de abril de 1857.

No fim daquele ano, as duas Baudin casaram; as reuniões não se realizaram mais e a família dispersou-se. Mas então as minhas relações começavam a estender-se e os Espíritos multiplicaram-me os meios para obter os ulteriores trabalhos.(85)

(85) O casamento das meninas Baudin pôs termo à grande missão mediúnica que elas deviam desempenhar na codificação da Doutrina Espírita. Deve-se a elas todo o trabalho, longo e exaustivo, de manter os diálogos escritos entre Kardec e os Espíritos. (N. do Rev.)

Página Anterior

Copyright 2004 - LAKE - Livraria Allan Kardec Editora
(Instituição Filantrópica) Todos os Direitos Reservados