Livro selecionado: "Obras Póstumas "
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As Expiações Coletivas
Se compararmos a sociedade atual, nas nações civilizadas, à da Idade Média, grande diferença reconheceremos. Se, pois, temos caminhado até aqui, por que havemos de parar agora? Pelo progresso feito durante o último, podemos avaliar o que será realizado em mais um século.
As revoluções sociais são as revoltas dos Espíritos encarnados contra o mal que os vexa, o indício das suas aspirações ao reino da justiça, de que têm sede, sem que, entretanto, possam bem saber o que querem e os meios de satisfazerem àquelas aspirações. É por isso que eles se movem, se agitam, andam tontos, criam sistemas, recorrem a meios mais ou menos utópicos, cometem mil injustiças em nome da justiça, esperando colher alguma coisa de semelhante movimento. Mais tarde melhor definirão as suas aspirações e o caminho se lhes esclarecerá.(73)
Quem aprofunda os princípios do Espiritismo filosófico e considera os horizontes, que ele descortina, as idéias que faz brotar em si e os sentimentos que lhe provoca, não pode duvidar da preponderância que deve exercer na regeneração da humanidade, porque ele conduz precisamente, e pela força das próprias coisas, ao fim que a humanidade aspira: o reino da justiça pela extinção dos abusos, que lhe retardaram o progresso, e pela moralização das massas.
Aqueles, que desejam conservar as coisas do passado, se assim não fôsse o Espiritismo, não o combateriam com tanto ardor; deixá-lo-iam morrer como tem morrido tantas utopias. Refletindo sobre este fato, certos escarnecedores conheceriam que o Espiritismo resolve problemas muito sérios, que antes estavam sem solução. Há porém homens que de tudo riem e que até de Deus ririam, se o vissem na Terra. Há também alguns que, negando a alma, tremeriam de medo, se a vissem.
Por mais influência que o Espiritismo venha a exercer no futuro das sociedades, não se julgue que ele substitua uma aristocracia por outra, ou que imponha leis; não o fará, porque, proclamando o direito absoluto da liberdade de consciência e do livre-arbítrio em matéria de fé, ele quer que a crença seja livremente aceita por convicção e não por constrangimento; em virtude de sua própria natureza não pode, nem deve exercer pressão alguma em nada, visto como proscreve a fé cega e quer ser apenas compreendido. Para ele não há mistérios, mas uma fé baseada na razão e nos fatos, fé que procura a luz. Não repudia qualquer descobrimento da ciência, porque a ciência é o repertório das leis da natureza e, sendo estas de Deus, repudiar a ciência é repudiar a obra de Deus.
Em segundo lugar, sendo moralizadora a ação do Espiritismo, não pode assumir caráter autocrático sem praticar o que condena. A sua influência será preponderante pelas modificações, que imprimirá nas idéias, no caráter, nos hábitos dos homens e nas relações sociais, e tanto crescerá que não precisará mais tarde impor-se. Poderoso, como filosofia, só teria a perder, neste século pesquisador, se nutrisse a pretensão de transformar-se em poder temporal. Não lhe cabe pois formular às instituições sociais do mundo regenerado, mas aos homens dominados pelas idéias de justiça, fraternidade, e solidariedade, por efeito dele mais bem compreendidas.(74)
74) Não é o Espiritismo como organização, como instituição humana que vai transformar o mundo. Sua ação é indireta: ele age na consciência dos homens, esclarecendo-os e orientando-os. Por isso Kardec acentua que ele "... só teria a perder ao se transformar em poder temporal". Neste trabalho, como se vê, o problema social do Espiritismo é colocado por Kardec de maneira clara e precisa. Toda tentativa de institucionalização social, política ou religiosa do Espiritismo em esquema fechado e rígido atenta contra a doutrina e sua finalidade. (N. do Rev.)
(73) A sede de justiça é inata no Espírito, corresponde às exigências da consciência de que trata René Hubert em Esquisse d'une Philosophie de l'Esprit (Pedagogie Générale, III Parte). Nas fases inferiores da evolução o Espírito encarnado, não sabendo precisamente o que deseja nem como consegui-lo, apela para a revolta e a violência. Com isso comete injustiças e complica o seu futuro ao invés de melhorá-lo. O Espiritismo vem esclarecer esse problema e indicar o caminho certo para a sua solução: o da transformação moral do homem e da sociedade. Esse o grande trabalho do Espiritismo em nosso mundo. Os problemas sociais, na essência, são problemas morais. Querer criar uma ordem moral, e portanto de verdadeira justiça, através de violências e injustiças é um contra-senso. A transformação social da Terra só pode alicerçar-se e realizar-se na transformação moral do homem, pela qual trabalha o Espiritismo. (N. do Rev.)
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