Livro selecionado: "Obras Póstumas "

ÍNDICE

Página Anterior

A Morte Espiritual

Numa ordem social adiantada, tudo se regula pela lógica das leis naturais e aquele que só tem aptidão para sapateiro não pode, por direito de nascimento, ser elevado à governança dos povos.(*)

(*) O grifo é nosso. A ordem social adiantada é o resultado do progresso geral que se realiza a partir da evolução individual. Nos mundos inferiores o deslocamento de classe a que alude Kardec é prova para o Espírito em evolução, que ao mesmo tempo sofre com o seu desajuste e corrige os seus defeitos. (N. do Rev.)

Voltemos à criança.

Até o nascimento, achando-se todas as faculdades em estado latente, o Espírito nenhuma consciência pode ter de si. Na ocasião do nascimento, as que se devem exercitar não adquirem subitamente o desenvolvimento; segue este o dos órgãos, que devem servir à sua manifestação, promovendo elas, pela atividade íntima, o do órgão correspondente, como o grelo nascendo distende a casca da árvore.

Resulta daí que, na primeira infância, o Espírito não tem o gozo pleno de nenhuma das suas faculdades, quer como encarnado, quer como Espírito, sendo tão criança como o corpo, a que está ligado. Não se acha comprimido penosamente no corpo imperfeito, porque, do contrário, teria Deus feito da encarnação um suplício para os Espíritos bons e maus. Dá-se o inverso com o louco e com o idiota, cujos órgãos, não se desenvolvendo correspondentemente às faculdades, dão ao Espírito a situação de um homem amarrado de modo a não poder fazer movimento. Essa é a razão porque o Espírito de um idiota, quando invocado, dá respostas sensatas, ao passo que o de uma criança, na primeira infância ou que ainda não viu luz, é incapaz de responder.

Todas as faculdades, todas as aptidões estão em germe no Espírito, desde a sua criação, mas em estado rudimentar, como os órgãos no primeiro filete do feto informe, como todas as partes da árvore na semente. O selvagem, que mais tarde será civilizado, possui os germes que, um dia, o tornarão um sábio, um famoso artista, um grande filósofo.

A medida que tais germes chegam à maturidade, a Providência lhes dá, para a vida terrestre, um corpo apropriado à sua nova situação. E assim que o cérebro de um europeu é mais bem organizado, dotado de maior número de circunvoluções, que o de um selvagem. Para a vida espiritual, ela lhe dá um corpo fluídico, ou perispírito, mais sutil e impressionável, para as novas sensações. À medida que o Espírito progride, dota-o dos instrumentos que lhe são necessários.

No sentido de desorganização, de desagregação das partes, de dispersão dos elementos, não há morte senão para o corpo material e para o fluídico; a alma ou o Espírito não pode morrer para progredir, pois que, se morresse, perderia a sua individualidade, o que equivaleria ao nada. No sentido de transformação, de regeneracão, pode dizer-se que o Espírito morre em cada encarnação, para ressuscitar com atributos novos, sem cessar de ser ele próprio.

Um campônio, por exemplo, que enriqueça e se torne potentado, trocará a choça por um palácio e as vestes rústicas por uma casaca; terá outros hábitos, outros gostos, outra linguagem e até um caráter diferente; numa palavra, morreu o campônio, substituiu os trajes rústicos pelos de um homem de sociedade; no entanto será o mesmo indivíduo, apenas transformado. Cada existência corpórea é pois para o Espírito uma ocasião de progresso maior ou menor; de volta ao mundo espiritual leva ele novas idéias, tem mais largo horizonte moral, e dotado de mais delicadas percepções, vê e compreende o que antes não via nem compreendia; a sua vista, que a princípio não alcançava além da última existência, abrange sucessivamente as passadas, como o homem, que sobe ao alto, ou que depois de se dissiparem as névoas, descortina sucessivamente mais vastos horizontes.

A cada nova estação na erraticidade se lhe desdobram aos olhos novas maravilhas do mundo invisível, porque em cada uma se rasga um véu. Ao mesmo tempo, apura-se o seu invólucro fluídico, que se torna mais livre, mais brilhante, até chegar à resplandecência. Então será quase novo como o campônio polido e transformado; o velho Espírito morreu, e, no entanto, é sempre o mesmo.

Parece-me que só assim se deve compreender a morte espiritual.(67)

(67) A idéia da morte espiritual como destruição do Espírito subsiste ainda em algumas correntes espiritualistas. O Espiritismo não a admite, explicando a sua origem como simples confusão com a perda ou destruição do perispírito. Este, que é o corpo espiritual, organismo energético, de natureza semi-material (composto de energias espirituais e materiais, elo de ligação entre o corpo físico e a alma) pode ser destruído por abusos ou acidentes, como acontece com o corpo orgânico. É também abandonado pelo Espírito que vai encarnar-se em outro planeta, onde terá de revestir-se de perispírito apropriado às condições do novo mundo. Mas em nenhum desses casos o Espírito morre, pois é independente do seu corpo espiritual como o era do corpo material. Ver o tópico a respeito no O Livro dos Espíritos. (N. do Rev.)

Pagina Anterior

Copyright 2004 - LAKE - Livraria Allan Kardec Editora
(Instituição Filantrópica) Todos os Direitos Reservados