Livro selecionado: "Obras Póstumas "

ÍNDICE

Página Anterior

Próxima Página

A Teoria do Belo

A perfeição da forma é, assim, a conseqüência da perfeição do Espírito; podendo-se concluir que o ideal da forma deve ser a que reveste o Espírito no estado de pureza — a que imaginam os poetas e os verdadeiros artistas, porque penetram pelo pensamento nos mundos superiores.(50)

(50) Kardec toca, neste momento, ao comentar rapidamente o notável artigo de Charles Richard, o ponto central da Estética Espírita: a relação essencial da beleza com a perfectibilidade moral. Os teóricos da Estética contemporânea, orientados pelo superficialismo materialista, chegaram a formular um conceito estético inteiramente livre de qualquer implicação moral. Se esse conceito pode sustentar-se mal ou bem no plano teórico, através dos sofismas da Lógica formal, já o mesmo não acontece quando apelamos à prática da investigação histórica. A beleza humana, servindo de objeto para essa investigação, revela um processo vital de relação estético-moral no desenvolvimento da espécie. O mesmo acontece em todo o plano biológico, tomando-se o conceito de perfectibilidade moral como expressão do processo de desenvolvimento do princípio inteligente. Moral como aperfeiçoamento da essência resulta em beleza como aperfeiçoamento da forma. Mesmo um esteta materialista, dotado de acuidade espiritual, como Georg Lukács, reconhece essa relação. Veja-se Introdução a Uma Estética Marxista, G. Lukács. Civilização Brasileira Editora, Rio de Janeiro, 1968. (N. do Rev.)

Diz-se, há muito, que o rosto é o espelho da alma. Esta verdade, tornada axiomática, explica o fato vulgar de desaparecerem certas fealdades ao reflexo das qualidades morais do Espírito, e a preferência muitas vezes de uma pessoa feia, dotada de eminentes qualidades, à que não tem senão a beleza plástica. É que essa fealdade não consiste senão nas irregularidades da forma e não exclui a delicadeza dos traços, necessária à expressão dos sentimentos delicados.(51)

(51) Esta observação de Kardec explica o engano dos que pretendem a separação absoluta de ética e estética. As irregularidades da forma, decorrentes das imperfeições da matéria, não permitem a manifestação plena da perfeição do espírito. Mas essa perfeição se reflete na delicadeza dos traços. A pureza do conceito, segundo a estética idealista alemã, transparece na impureza do objeto. (N. do Rev.)

Do que precede, pode concluir-se que a beleza real consiste na forma que mais se afasta da animalidade e melhor reflete a superioridade intelectual e moral do Espírito, que é o ser principal. Influindo o moral sobre o físico, que ele apropria às suas necessidades físicas e morais, segue-se que: 1.° o tipo da beleza consiste na forma mais apropriada a exprimir as mais elevadas qualidades intelectuais e morais; 2.° à medida que o homem se eleva moralmente o seu invólucro se aproxima do ideal da beleza, que é a beleza angélica.

O negro pode ser belo para o negro, como um gato para os gatos; mas não o é no sentido absoluto, porque os seus traços grosseiros, os lábios grossos, acusam a materialidade dos instintos; podem perfeitamente exprimir as paixões violentas, mas nunca as delicadas variedades do sentimento e as modulações de um Espírito elevado.(52) Eis porque podemos, sem fatuidade, julgar-nos mais belos que o negro e o hotentote. Talvez as gerações futuras, melhores, nos considerem grosseiros, como, hoje, consideramos os hotentotes. Talvez os nossos fósseis sejam classificados como de alguma espécie animal desaparecida.

(52) O problema do feio e do belo é colocado aqui em termos de relação. Os povos mais apegados aos instintos não podem ter o mesmo senso estético dos mais evoluídos. Relativamente, porém, a beleza se define na proporção do desenvolvimento moral. Mesmo entre as tribos africanas mais atrasadas a beleza humana de um rosto depende das qualidades da alma. Mas esse absolutismo do universal não exclui a marca estética do particular. E é precisamente nesse campo da Estética, o do particular, que se desenvolve a arte sensorial dos nossos dias. (N. do Rev.)

Este artigo, tendo sido lido na Sociedade de Paris, foi objeto de grande número de comunicações, que chegaram às mesmas conclusões.

Página Anterior - Próxima Página

Copyright 2004 - LAKE - Livraria Allan Kardec Editora
(Instituição Filantrópica) Todos os Direitos Reservados