Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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A Teoria do Belo

"É difícil encontrar na galeria dos antigos tipos de nossa espécie algumas figuras que inspirem simpatia. A de Cipião, o Africano, a de Pompeu, de Cômodo, de Heliogábalo, de Antinous, o favorito de Adriano, são deste pequeno número. Sem serem belas no sentido moderno da palavra, são, no entanto, regulares e de agradável aspecto.

"As mulheres regulam pelos homens e provocam as mesmas considerações. Lívia, filha de Augusto, tem uma cara de fuinha; Agripina mete medo e Messalina parece que, para derrotar Cabinis e Lavater, se assemelha a uma criada machacaz, mais apaixonada por uma boa iguaria que por qualquer coisa.

"Os gregos, convém frisá-lo, são geralmente superiores aos romanos. As figuras de Temístocles e Melcíades, entre outras, podem ser comparadas aos mais belos tipos modernos, mas Alcebíades, este remotíssimo avoengo dos nossos Richelieu e Lauzun, cujas façanhas galantes enchem por si sós a crônica de Atenas, tem, como Messalina, um físico bem pouco afeiçoado ao seu emprego. Os traços principais da fisionomia e a fronte de pensador inculcam mais um jurisconsulto apto para aprofundar algum texto de lei do que o audacioso zombeteiro, que se faz exilar de Esparta unicamente para ludibriar o pobre rei Agis e gabar-se, depois, de haver sido amante de uma rainha.

Afora a pequena vantagem, que se é obrigado a reconhecer nos gregos sobre os romanos, neste ponto, a comparação daqueles velhos tipos com os do nosso tempo demonstra o progresso, que temos feito neste terreno, como em todos os outros. Convém não esquecer que, nesta comparação, trata-se de classes privilegiadas, sempre mais belas que as outras e, portanto, os tipos modernos a opor aos antigos deverão ser escolhidos nos salões e não nas alfurjas. Porque a pobreza, coitada, em todos os tempos e sob todas as relações nunca é bela, e assim acontece para provocar-nos vergonha e obrigar-nos a procurar elevar-nos.

"Não quero, entretanto, dizer que a fealdade tenha completamente desaparecido de nossas frontes, e que o selo divino esteja impresso em todas as máscaras, que nos ocultam a alma. Longe de mim uma afirmação, que facilmente poderia ser contestada por todos. A minha pretensão limita-se, unicamente, a consignar que, num período de dois mil anos, tão curto espaço para uma humanidade, que tanto tem ainda de viver, a fisionomia da nossa espécie tem melhorado de modo apreciável. Creio, por outro lado, que as mais belas figuras antigas são inferiores às que podemos todos os dias admirar em nossas reuniões públicas, nas festas, e até no trânsito pelas ruas.

"Se não receasse ferir algumas modéstias, e levantar zelos, citaria exemplos conhecidos entre os contemporâneos, que confirmariam, evidentemente, a realidade.

"Os admiradores do passado têm constantemente a boca cheia da sua famosa Vênus de Médicis, que lhes parece o ideal da beleza feminina, esquecendo que esta mesma Vênus passeia todos os domingos pelos bulevares de Arles, na figura de mais de cinqüenta espécimens, e que poucas são as nossas cidades, especialmente as do Meio-Dia, que não possuam algumas.

"Em tudo o que havemos dito, não tratamos senão da comparação do nosso tipo atual com o dos povos que nos precederam apenas alguns milhares de anos. Se, porém, remontando às mais longínquas eras, revolvermos as terras onde dormem os restos das primeiras raças, que habitaram o globo, a nossa vantagem será tão grande que nem é possível levantar contestação.

"Sob a influência teológica, que deteve Copérnico e Tycho-Brahe, que perseguiu Galileu e que, nestes últimos tempos, obscureceu por momentos o gênio de Cuvier, a ciência hesitava em sondar os mistérios das épocas antediluvianas. A narração bíblica, tomada ao pé da letra, no mais restrito sentido, parecia ter dito a última palavra sobre a nossa origem e sobre os séculos, que nos separam daqueles tempos. A verdade, porém, implacável em suas irradiações, acabou por despedaçar as cadeias de ferro, com que queriam prendê-la para sempre e patentear formas até então desconhecidas.

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