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III. A Divindade de Jesus é Provada pelas Suas Palavras?

Dirigindo-se aos discípulos, que disputavam por saber qual deles era o maior, disse-lhes Jesus, chamando a si uma criança:

"E todo o que receber a mim, recebe aquele que me enviou; porque quem dentre vós todos é o menor, esse é o maior. (S. LUCAS, IX, 48).

"Todo o que receber um destes meninos em meu nome a mim me recebe, e todo o que me receber não me recebe a mim, mas recebe aquele que me enviou" (S. MARCOS, IX, 46).

Jesus lhes disse ainda:

"Se Deus fosse vosso pai, vós certamente me amaríeis, porque eu saí de Deus, e vim; porque não vim de mim mesmo, mas foi ele quem me enviou". (S. JOÃO, VIII, 42).

Jesus lhes disse mais:

"Ainda por um pouco de tempo estou convosco; e depois vou para aquele que me enviou". (S. JOÃO. V. 33).

"O que a vós ouve, a mim ouve; e o que a vós despreza, a mim despreza; e quem a mim despreza, despreza aquele que me enviou". (S. LUCAS X, 16).

O dogma da divindade de Jesus funda-se na absoluta igualdade da sua pessoa com Deus, sendo ele mesmo Deus; é isto artigo de fé. Ora, estas palavras tantas vezes repetidas por Jesus — Aquele que me enviou, — revelam não somente a dualidade de Jesus e de Deus, mas ainda, como temos dito, excluem a igualdade absoluta entre eles, porque o que é enviado, necessariamente é subordinado ao que envia: obedecendo, pratica um ato de submissão.

Um embaixador, falando do seu soberano, dirá: meu senhor, o que me envia; mas, se é o soberano que vem em pessoa, falará em seu próprio nome e não dirá: aquele que me enviou, porque não se pode enviar a si mesmo.

Jesus o disse em termos categóricos: eu não vim de modo próprio, mas foi Ele que me enviou. Estas palavras: Aquele que me despreza, despreza o que me enviou, não implicam igualdade e muito menos identidade. Desde todos os tempos, o insulto feito a um embaixador foi considerado como feito ao próprio soberano. Os apóstolos tinham a palavra de Jesus, como Jesus tinha a de Deus; quando lhes disse: Aquele que vos escuta, me escuta, não queria certamente dar a entender que os seus apóstolos e ele não eram senão uma só e a mesma pessoa, iguais em tudo.(42)

(42) Esta comparação da posição de Jesus em relação a Deus e da posição dos Apóstolos em relação a Jesus é um verdadeiro achado de Kardec. Com base nas próprias palavras evangélicas o dogma absurdo da unidade pessoal desaparece. É essa forma de divindade que o Espiritismo não reconhece nem pode reconhecer em Jesus. Fazer do enviado o próprio Deus é hoje, mais do que nunca, inaceitável. Nossa concepção atual de uma inteligência suprema, Deus, criadora e mantenedora do Universo, não pode aprovar a confusão que pretende fazer de Jesus uma encarnação de Deus, uma manifestação integral do infinito no finito. A divindade de Jesus está em sua superioridade espiritual em relação aos homens, na condição sobre-humana do seu espírito e não do seu corpo, da sua encarnação. (N. do Rev.)

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