Livro selecionado: "Obras Póstumas "
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A Dupla Vista
Conhecimento do Futuro - Previsões
Muito se tem falado das cartomantes, que surpreendem pela verdade do que dizem. Não somos apologistas dos dizedores da buena-dicha, que exploram a credulidade dos espíritos fracos e cuja linguagem ambígua se presta a todas as combinações de uma imaginação excitada; mas não é impossível que possuam o dom da dupla vista, mesmo inconscientemente e, neste caso, as cartas não são em suas mãos senão um meio, um pretexto, um assunto para a conversação. Elas falam do que vêem e não do que dizem as cartas, em que mal olham.
Há outros meios de adivinhação tais como as linhas das mãos, as manchas do café, a clara do ovo e outros símbolos místicos.
Os sinais das mãos têm talvez maior valor do que todos os outros meios, não por si mesmos, mas porque o pretendido adivinho, tomando e apalpando a mão do consultante, se for dotado da dupla vista, se põe em relação mais direta com eles como se dá nas consultas sonambúlicas.
Pode classificar-se o médium vidente entre as pessoas que gozam da vista dupla. Com efeito, os médiuns videntes, como aquelas, julgam ver pelos olhos, quando na realidade é a alma que vê, razão pela qual vêem tão bem com os olhos abertos, como fechados. Resulta daí que um cego pode ser médium vidente tão perfeitamente como quem goza da plenitude da vista. Seria um estudo bem interessante saber se aquela faculdade é ou não mais freqüente nos cegos.
Cremos piamente — o que pode ser provado pela experiência — que a privação de relações com o mundo exterior devido à falta de certos sentidos dá, em geral, maior poder à faculdade de abstração da alma e, por conseguinte, maior desenvolvimento ao senso íntimo, pelo qual ela se comunica com a esfera espiritual.
Os médiuns videntes podem, portanto, ser comparados às pessoas que têm a vista espiritual; mas seria talvez absurdo demais considerar estas como médiuns, porque, consistindo a mediunidade na intervenção dos Espíritos, não deve ser considerada ação mediúnica, o que é obra do próprio Espírito. Quem possui a vista espiritual vê pelo seu próprio espírito e nenhuma necessidade tem do concurso de um Espírito estranho.
Isto posto, examinemos até que ponto a faculdade da dupla vista permite descobrir as coisas ocultas e penetrar o futuro.
Em todos os tempos, têm os homens procurado conhecer o futuro, e seria preciso escrever volumes para descrever os meios inventados pela superstição no intuito de levantar o véu, que cobre o nosso destino. Sábia foi a natureza por no-lo ocultar.
Cada um de nós tem a sua missão providencial na grande colméia humana e concorre para a obra comum com o seu contingente, na medida da sua atividade. Se conhecêssemos pois de antemão o fim confiado ao nosso esforço, a harmonia geral seria indubitavelmente perturbada. Quem contasse com o futuro feliz, ficaria inativo por não precisar trabalhar para conseguir o fim a que se propusera, o seu bem-estar; e então todas as forças físicas e morais seriam paralisadas e retardada a marcha progressiva da humanidade. Aquele que tivesse certeza de vir a ser desgraçado, seria levado às mesmas conseqüências pelo desânimo, tendo por inútil lutar contra os decretos do destino. O conhecimento absoluto do futuro seria pois um presente funesto, que nos levaria ao fanatismo, o mais perigoso dos dogmas, o mais antipático ao desenvolvimento das idéias.
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