Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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IV. Emancipação da Alma

24. Durante o sono, só o corpo repousa; o Espírito não dorme e até se vale do repouso do corpo, e dos momentos em que a sua presença é desnecessária, para agir separadamente e ir onde quiser, no gozo da sua liberdade e na plenitude das faculdades. Entretanto, e durante toda a vida, nunca se separa completamente do corpo e, embora ele se distancia, fica sempre preso por um laço fluídico, que o adverte quando a sua presença é necessária, laço que só se rompe com a morte.

O sono liberta, em parte, a alma do corpo. Quando se dorme, entra-se por momentos no estado que é permanente depois da morte. Os Espíritos que, por ocasião da morte, se libertam logo da matéria, tiveram durante a vida sonos inteligentes; quando dormem, vão procurar a companhia de outros seres que lhes são superiores, com os quais viajam, conversam e se instruem; trabalham mesmo em obras, que ao morrer já encontram terminadas. Isto deve ensinar-vos uma vez mais que não deveis temer a morte, pois que vós morreis diariamente, como já o disse um santo varão.

Isto pelo que respeita aos Espíritos elevados pois a grande maioria dos Espíritos encarnados, aqueles que, na ocasião da morte, ficam longas horas na perturbação e na incerteza, de que eles próprios vos falam às vezes, esses vão, durante o sono, aos mundos inferiores à Terra, onde os chamam antigas afeições, ou em busca de prazeres ainda mais baixos do que aqueles que encontram por aqui; vão haurir doutrinas ainda mais vis, mais ignóbeis, mais nocivas do que aquelas que professam entre vós.

A origem da simpatia entre os habitantes da Terra está justamente no fato de, ao despertarem, sentirem-se presos pelo coração àqueles com quem acabam de passar oito ou nove horas de felicidade e prazer. O que explica também essas simpatias invencíveis entre eles é o saberem intimamente que as pessoas, por quem as sentem, possuem consciência diversa da sua, e as conhecem mesmo sem nunca as terem visto com os olhos do corpo. É ainda o que explica a indiferença de outros, que não buscam fazer novos amigos por saberem que existem criaturas de quem possuem o amor e a dedicação. Em resumo, o sono tem sobre a vida uma influência maior do que a que supondes.

O sono faculta aos Espíritos encarnados o meio de estarem sempre em comunicação com o mundo espiritual, e é o que leva os Espíritos superiores a consentir sem grande repulsa em se encarnarem entre vós. Deus quis que, durante o seu contacto com o vício, pudessem ir retemperar-se na fonte do bem, a fim de que aqueles, que vêm instruir os outros, não sucumbam também. O sono é a porta que Deus lhes abriu para se comunicarem com os amigos do céu, é o recreio depois do trabalho enquanto esperam a grande libertação final, que deve restituí-los ao seu verdadeiro ambiente.

O sonho é a recordação do que o vosso Espírito viu durante o sono, mas notai que nem sempre vos lembrais do que vistes, ou de quanto vistes. Essa recordação não está na vossa alma em todo o seu desenvolvimento; muitas vezes é apenas a lembrança da perturbação que experimenta à partida ou à volta, à qual se junta a lembrança do que haveis feito ou do que vos preocupa no estado de vigília; a não ser assim, como explicaria os sonhos absurdos que todos têm, tanto os homens mais sábios, como os mais simples? Os maus Espíritos servem-se também dos sonhos para atormentarem as almas fracas e pusilânimes.

A incoerência de certos sonhos explica-se pela recordação imperfeita e incompleta dos fatos e cenas, que foram presentes em sonho, da mesma forma que seria incoerente uma narração em que se trocassem frases, visto não darem os fragmentos uma significação racional.

Demais a mais, dentro de pouco tempo vereis desenvolver-se outra espécie de sonhos, que é tão antiga como a que conheceis, e vos era desconhecida. O sonho de Joana d'Arc, o de Jacó, os profetas judeus e de alguns adivinhos indianos são lembrança do que a alma vê inteiramente desprendida do corpo, a lembrança dessa segunda vida de que vos temos falado". (O Livro dos Espíritos, Cap. VIII, item 402).

25. O desprendimento e a emancipação da alma manifestam-se sobretudo de maneira evidente, nos fenômenos do sonambulismo natural e magnético, na catalepsia e na letargia.

A lucidez sonambúlica não é senão a faculdade que a alma possui de ver e sentir sem o auxílio dos órgãos materiais. Essa faculdade é um dos seus atributos, existe em todo o seu ser e os órgãos do corpo são estreitos canais, por onde lhe advêm certas impressões. A vista à distância, que possuem esses sonâmbulos, provém do desprendimento da alma, que vê o que se passa nos lugares para onde se transporta.

Em suas peregrinações, ela nunca se despe do perispírito, agente das suas sensações, o qual, como o dissemos, não se desprende inteiramente do corpo. O desprendimento da alma produz a inércia do corpo, que às vezes parece privado da vida.

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