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Controvérsia Sobre a Existência de Seres Intermediários entre o Homem e Deus

Observações. — A opinião de tais homens — e não são os únicos — tem certamente um valor que ninguém poderá negar; seria porém uma opinião apenas, se a observação não viesse confirmá-la.

O Espiritismo está inteiramente nos pensamentos, que acabamos de citar; somente ele os completa por observações especiais, e coordena-os, dando-lhes a sanção da experiência. Aqueles que se obstinam em negar a existência do mundo espiritual, sem contudo poder negar os fatos, fatigar-se-ão em procurar-lhes a causa exclusiva no mundo corporal; mas uma teoria só é verdadeira quando pode dar a razão de todos os fatos, caindo por terra desde que um único a contrarie; porque as leis da natureza não admitem exceções.

Foi o que aconteceu à maior parte das leis que, a princípio, se imaginaram para explicar os fenômenos espíritas; quase todas caíram, sucessivamente, diante de fatos, que lhes escapavam. Quando esgotados todos os sistemas, não houve remédio senão recorrer às teorias espíritas, como as mais concludentes, porque, não tendo sido formuladas prematuramente e com observações precipitadas, elas abrangem todas as variedades, todas as modalidades dos fenômenos.

O que as tem feito aceitar tão rapidamente por grande número é o encontrar-se nelas a completa e satisfatória solução do que, em vão, se tinha procurado fora delas. Entretanto, ainda há muitos que as repelem. Têm elas este ponto de contacto com todas as grandes idéias, que surgem em oposição aos costumes e às crenças, e que sempre têm encontrado, por mais ou menos tempo, contraditores intransigentes, até entre os homens mais esclarecidos. Dia porém chegará em que a verdade deve luzir e então os instrumentos de oposição ficarão envergonhados de havê-lo feito, tão natural lhes parecerá o que combateram.

Assim será com o Espiritismo e já é para surpreender que de todas as grandes idéias, que convulsionaram o mundo, nenhuma haja conquistado, em tão pouco tempo, tão grande número de partidários em todos os países, em todas as ordens sociais. Eis porque os espíritas, cuja fé não é cega, como pretendem seus adversários, mas fundada na observação, pouco se incomodam com os contraditores e com aqueles que não lhes compartilham das idéias; eles observam que a doutrina firmando-se nas leis da natureza, em vez de contrariá-las, não pode deixar de prevalecer, quando aquelas leis forem reconhecidas.

A idéia da existência de seres intermediários entre o homem e Deus não é nova, como se sabe; mas geralmente acreditava-se que tais seres formassem uma ordem especial da criação. As religiões os têm designado com os nomes de anjos e demônios; os pagãos chamavam-nos deuses. O Espiritismo, vindo provar que não são senão as almas dos homens, nos diferentes graus da escala espiritual, dá à criação a unidade grandiosa, que é a essência das leis divinas. Em vez de uma multidão de criações estacionárias, que acusariam o capricho ou a parcialidade da Divindade, revela uma única criação, essencialmente progressista, sem privilégio para qualquer criatura, elevando-se cada uma do embrião ao mais completo desenvolvimento, como a semente se transforma em grande árvore. O Espiritismo nos demonstra pois a unidade, a harmonia, a justiça existentes na criação.

Para ele os demônios são almas atrasadas, ainda sobrecarregadas dos vícios da humanidade; os anjos são essas mesmas almas depuradas e desmaterializadas e, entre esses extremos, a multidão das que cobrem os vários degraus da escada do progresso. Por este sistema, firma-se a solidariedade entre o mundo espiritual e o corporal.

Quanto à pergunta: qual é, nos fenômenos espíritas ou sonambúlicos, o limite onde chega a ação própria da alma humana e onde começa a dos Espíritos? Respondemos que esse limite não existe, ou antes que não é absoluto.

Desde que não são espécies distintas, sendo a alma um Espírito encarnado e o Espírito uma alma desprendida do corpo, desde que são o mesmo ser em meios diferentes, é claro que devem possuir as mesmas faculdades e aptidões.

O sonambulismo é um estado transitório entre a encarnação e a desencarnação, um desprendimento parcial, um grau antecipadamente alcançado no mundo espiritual.

A alma encarnada ou, se o quiserem, o Espírito do sonâmbulo ou do médium, pode fazer quase o mesmo que a alma desencarnada, e até mais que esta, se mais adiantado for; com a diferença, contudo, que, por seu desprendimento completo, a alma, sendo mais livre, tem percepções especiais inerentes ao próprio estado. A distinção entre o que é produto direto da alma do médium e o que provém de fonte estranha, é às vezes dificílima de fazer; porque geralmente as duas ações completam-se e confundem-se. É assim que, na cura por imposição das mãos, o Espírito do médium pode agir só ou com o auxílio de um Espírito desencarnado e a inspiração poética ou artística pode ter a dupla origem.

Pelo fato de ser difícil uma distinção, não se deve concluir que seja impossível. A dualidade é muitas vezes evidente e em todos os casos resultará quase sempre de uma observação atenta.

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