Livro selecionado: "Obras Póstumas "

ÍNDICE

Próxima Página

Biografia de Allan Kardec

Ainda sob a dolorosa impressão do prematuro desencarne do venerável fundador da doutrina espírita, vamos empreender uma tarefa que seria fácil e simples para as sábias e experimentadas mãos dele, mas que seria impossível para nós se não contássemos com o eficaz concurso dos benévolos Espíritos e com a indulgência dos leitores.

Quem, entre nós, sem ser taxado de presunçoso, poderia possuir o espírito de método e organização com o qual se iluminam os trabalhos do mestre? Só aquela robusta inteligência poderia empregar tanto material, de natureza tão diversa, triturá-lo, transformá-lo, para esparzi-lo como saudável orvalho pelas almas sequiosas de conhecer e de amar.

Incisivo, conciso, profundo, sabia agradar e fazer-se compreender através de uma linguagem simples e elevada, tão afastada do estilo familiar como das obscuridades da metafísica.

Multiplicando-se incansavelmente, conseguiu ele sozinho bastar a tudo; como porém aumentasse, dia a dia, o trabalho pelo alargamento das relações e pelo incessante desenvolvimento do Espiritismo, preciso lhe foi valer-se de auxiliares inteligentes.

Nesse ponto, quando preparava simultaneamente a reorganização da doutrina e das suas obras, deixou-nos para ir a mundo melhor colher o prêmio da missão cumprida e reunir os elementos de nova empresa de devotamento e labores.

Ele só bastou a tudo! E nós, que nos podemos chamar legião, temos a convicção de que só nos manteremos à altura da situação se, não obstante a nossa fraqueza e inexperiência — nos firmarmos nos princípios estabelecidos por ele, numa evidência incontestável, para a execução dos projetos que desejava realizar para o futuro.

Enquanto seguirmos a senda por ele traçada e enquanto todas as boas vontades se unirem num esforço comum para o progresso e regeneração intelectual e moral da humanidade, o Espírito do grande filósofo estará conosco e nos auxiliará com a sua poderosa influência.

Possa ele suprir-nos a insuficiência tanto quanto possamos nós merecer dele adjutório, consagrando-nos à obra, senão com tanto devotamento e sinceridade, pelo menos com ciência e inteligência.

ALLAN KARDEC havia inscrito em sua bandeira o lema: trabalho, solidariedade, tolerância.

Sejamos como ele, infatigáveis e, como o desejava, tolerantes e solidários; sigamos-lhe o exemplo, lançando de contínuo à arena os princípios ainda pendentes de discussão.

Apelemos para o concurso e para as luzes de todos e procuremos caminhar com segurança, em vez de o fazermos com celeridade, certos de que assim os nossos esforços não serão infrutíferos, sobretudo se, como o esperamos, e seremos os primeiros a dar exemplo, nos esforçarmos cada um de nós por cumprir o dever, pondo de parte as questões pessoais para só cuidarmos do interesse comum.

Não podíamos entrar, com melhores auspícios, em a nova fase aberta ao Espiritismo, do que tornando conhecido dos nossos leitores, em rápido excurso, o que foi, em toda a sua vida, o homem íntegro e honrado, o sábio de escól, fecundo, cujo nome passará à posteridade cercado da auréola própria de benfeitores da humanidade.

Nascido em Lião, a 3 de outubro de 1804, de antiga família que se distinguiu na magistratura e no foro, ALLAN KARDEC (Léon

Hippolyte-Denizart Rivail) não seguiu a carreira dos avoengos, sentindo-se, desde os verdes anos, atraído pelos estudos da ciência e da filosofia.

Matriculado na Escola de Pestalozzi, em Yverdun (Suiça), tornou-se um dos mais aplicados discípulos daquele eminente professor e um dos mais zelosos propagadores do seu sistema de educação, que tão grande influência exerceu na reforma dos estudos da Alemanha e da França.

Dotado de notável inteligência e atraído para o ensino por vocação e especiais aptidões, desde os quatorze anos ensinava aos condiscípulos menos adiantados o que ia aprendendo.

Foi com essas lições que se lhe desenvolveram as idéias, que mais tarde deveriam colocá-lo entre os homens do progresso e do livre pensamento.

Nascido na religião católica, mas educado no protestantismo, serviram-lhe os atos de intolerância porque passou, de incentivo, em boa hora, ao pensamento de uma reforma religiosa, na qual trabalhou, em silêncio, por dilatados anos, procurando alcançar o meio de unificar as crenças, sem que pudesse descobrir, entretanto, o elemento indispensável para a solução do grande problema.

Foi o Espiritismo que, mais tarde, lhe facultou esse meio, imprimindo-lhe aos trabalhos particular orientação.

Concluídos os estudos, tornou à França; possuindo profundo conhecimento da língua alemã, traduziu para ela diferentes obras de educação e moral, entre as quais, o que é característico, as de Fénelon, que muito particularmente o seduziram.

Era membro de muitas sociedades científicas e entre elas a da Academia Real de Arras, que, no concurso de 1831, lhe coroou uma notável memória acerca da questão: Qual o sistema de estudos mais em harmonia com as necessidades da época?

De 1835 a 1840, fundou em sua casa, na Rua de Sèvres, cursos gratuitos de física, química, anatomia comparada, astronomia, etc. — empresa digna de encômios em qualquer tempo, mas principalmente numa época em que bem poucos eram os interessados que se aventuravam por aquela senda.

Sempre empenhado em tornar atraentes e interessantes os sistemas de educação, inventou, ao mesmo tempo, um método engenhoso para aprender a contar e um quadro mnemônico da História de França, cujo objetivo era fixar na memória as datas dos mais notáveis acontecimentos, bem como os descobrimentos que ilustram cada reinado.

Entre as numerosas obras de educação, podemos citar as seguintes: Plano para o melhoramento da instrução pública, 1828. — Curso prático e teórico de aritmética, segundo o método de Pestalozzi, para uso de professores e de mães de família, 1829. — Gramática francesa clássica, 1831. — Manual para exames de capacidade. Soluções racionais de questões e problemas de aritmética e de geometria, 1846. —Catecismo gramatical da língua francesa, 1848. — Programa dos cursos ordinários de física, química, astronomia, fisiologia (que ele dava no Liceu Polimático). — Pontos para os exames da Câmara Municipal e da Sorbonne, acompanhados de Instruções especiais sobre as dificuldades ortográficas, 1849, obra muito estimada na ocasião da qual ainda recentemente se faziam novas edições.

Antes que o Espiritismo lhe viesse popularizar o pseudônimo de ALLAN KARDEC, havia ele, como se vê, sabido ilustrar-se com trabalhos de natureza muito diversa, os quais tinham por finalidade esclarecer a massa popular, prendendo-a ainda mais ao sentimento de família e ao amor de pátria.

Em 1855, quando se começou a tratar das manifestações de Espíritos, ALLAN KARDEC dedicou-se a perseverantes observações do fenômeno e cuidou principalmente de lhe deduzir as conseqüências filosóficas; entreviu de longe o princípio de novas leis naturais; aquelas que regem as relações entre o mundo visível e invisível. Reconheceu, nas manifestações deste, uma das forças da natureza, cujo conhecimento devia projetar luz a uma infinidade de problemas considerados insolúveis. Finalmente percebeu a relação de tudo aquilo com pontos de vista religiosos.

Próxima Página

Copyright 2004 - LAKE - Livraria Allan Kardec Editora
(Instituição Filantrópica) Todos os Direitos Reservados