Livro selecionado: "Obras Póstumas "

ÍNDICE

Notícia Sobre o Livro

Publicado vinte e dois anos após o lançamento da última obra de Kardec, A Gênese, com que ele encerrou a Codificação, Obras Póstumas apresenta vários trabalhos do mestre que nunca haviam aparecido em livro. Na verdade, a maioria já havia sido publicada na Revista Espírita, logo após o seu passamento, como os leitores poderão verificar consultando o volume da coleção correspondente ao Ano de 1869. O que se conservou inédito até 1890 foi o material constante da segunda parte deste volume, intitulado Transcrições in-extenso do Livro das Previsões Referentes ao Espiritismo, assim mesmo com exceção da Constituição do Espiritismo, também já divulgada, embora sem os comentários que Kardec reservara para mais tarde.

A importância deste volume é inegável e nenhuma objeção se pode fazer à legitimidade dos trabalhos que o constituem. A publicação anterior na Revista, com antecedência de cerca de vinte anos, neutralizou as críticas que geralmente ocorrem nesses casos. Apesar disso, há ainda pessoas que levantam suspeitas infundadas quanto à validade deste livro, o que por sinal em nada o afeta, principalmente para os que se dão ao trabalho de lê-lo e analisá-lo. Só lamentamos que não se tenham publicado mais alguns volumes póstumos de trabalhos do mestre, que forçosamente os deixou em maior número, tal era a sua capacidade de trabalho e o seu desejo de abordar todos os problemas relativos ao Espiritismo. A publicação tardia de Obras Póstumas revela, infelizmente, que houve descuido nesse sentido por parte dos seus sucessores. Não se trata de uma acusação, mas apenas de um registro necessário.

Logo de início, na pequena nota de abertura, deparamos com todo o drama de Kardec. É o aviso Aos assinantes da Revista, declarando que essa publicação e todas as obras doutrinárias do mestre foram essencialmente obra e criação sua. O desmentido vem na segunda parte do volume, quando vemos que todo o trabalho da Codificação (incluindo a Revista, como o disse o próprio Kardec) resultou de uma colaboração estreita e permanente entre ele, os médiuns que o serviam, os Espíritos que o orientavam e os grupos e centros de estudos com os quais se correspondia. Vê-se estampado nessas poucas linhas o drama de um homem que, tendo-se adiantado ao seu tempo, teve de enfrentar a incompreensão e o despeito dos que desejavam fazer doutrina acima dele.

A responsabilidade espiritual de Kardec era enorme e ele não podia partilhá-la a não ser com aqueles que traziam à Terra a missão de ajudá-lo. Muitas vezes quis servir-se de pessoas que julgava aproveitáveis, mas os Espíritos Superiores o advertiam em sentido contrário. Kardec se retraía e os seus companheiros atribuíam essa atitude às suas possíveis ambições de predomínio. O próprio Flammarion, à beira do túmulo, não o acusou de fazer obra um tanto pessoal? Essa acusação se repete de maneira mais violenta e incisiva na nota da Revista em junho de 1869, três meses após a desencarnação do mestre que serve de abertura para o texto geral de Obras Póstumas. Longe disso, porém, Kardec procurava colaboradores e sofria por não encontrá-los. A obra não era pessoal, mas a responsabilidade da sua atualização na Terra tornou-se quase pessoalíssima em virtude da falta de criaturas aptas a compreendê-la. E a prova maior disso está no que fizeram da Revista e da Sociedade após a sua passagem para a vida espiritual.

Este livro representa o testamento doutrinário de Allan Kardec. Reúne os seus derradeiros escritos e as anotações íntimas, destinadas a servir mais tarde para a elaboração da História do Espiritismo que ele não pode realizar. Vemos aqui a sua plena confirmação dos ensinos dados nas obras anteriores e a justificação de muitas de suas atitudes mal compreendidas pelos contemporâneos. Esta obra precisa ser lida com atenção e respeito. Ela nos desvenda os segredos de uma vida missionária. Quanto à grandeza dessa missão basta vermos o que os próprios Espíritos Superiores dizem em suas comunicações aqui reproduzidas. Na mensagem intitulada Minha Missão, de 12 de abril de 1860, vemos que os Espíritos sábios ficarão felizes de poder assisti-lo, e mais: quantos entre eles desejariam cumprir a sombra dessa missão!

No final deste volume encontramos o modelo de que se serviram os espíritas brasileiros para fundar o Movimento de Unificação.

É ele a Constituição do Espiritismo, um dos últimos trabalhos de Kardec, com o qual o mestre pretendia orientar os que ficavam, de maneira a poderem manter ao mesmo tempo o serviço de divulgação e o desenvolvimento da Doutrina, sem prejuízo de seus postulados de liberdade e responsabilidade. Ressalta desse esboço, o espírito liberal de Kardec, a sua profunda convicção de que o homem é um ser livre, de cuja liberdade depende o seu desenvolvimento espiritual como personalidade responsável. A respeito deste problema, que tanto preocupa o nosso século, a posição do Espiritismo é inequívoca e os leitores poderão encontrar, neste volume, trabalhos esclarecedores de Kardec, como As Expiações Coletivas em que a antinomia (destino versus livre-arbítrio) é colocada em termos precisos, Liberdade, Igualdade e Fraternidade (que oferece uma visão clara e objetiva da problemática social à luz da Doutrina) e As Aristocracias (que completa essa visão com um esquema histórico da evolução política da Humanidade). Esse trabalho abre também as perspectivas do futuro humano com a tese da aristocracia intelecto-moral.

J. Herculano Pires

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