Livro selecionado: "A Gênese"

ÍNDICE

Vista Espiritual, ou Psíquica; Vista dupla; Sonambulismo; Sonhos.

22. O perispírito é o traço de união entre a vida corporal e a vida espiritual; é por ele que o Espírito encarnado está em contínua relação com os Espíritos; é por ele enfim que se realizam no homem fenômenos especiais que não têm sua causa originária na matéria tangível, e que, por esta razão, parecem ser sobrenaturais.

É nas propriedades e na irradiação do fluido perispiritual, que se deve procurar a causa da vista dupla, ou vista espiritual, a que também se pode chamar vista psíquica; muitas pessoas são dela dotadas, freqüentemente sem o saber, assim como da vista sonambúlica.

O perispírito é o órgão sensitivo do Espírito; é por seu intermédio que o Espírito encarnado tem a percepção das coisas espirituais, que escapam aos sentidos carnais. Pelos órgãos do corpo, a vista, o ouvido, e as diversas sensações são localizadas e limitadas à percepção das coisas materiais; pelo sentido espiritual, ou psíquico, elas são generalizadas; o Espírito vê, ouve e sente por todo o seu ser, o que está na esfera da irradiação de seu fluido perispiritual.

Esses fenômenos, no homem, são a manifestação da vida espiritual; é a alma que age fora do organismo. Na dupla vista, ou percepção pelo sentido psíquico, ele não vê pelos olhos do corpo; se bem que freqüentemente, por hábito, ele os dirige para o ponto sobre o qual se dirige sua atenção; ele vê, pelos olhos da alma, e a prova está em que vê tudo igualmente bem com os olhos fechados, e além do alcance do raio visual; ele lê o pensamento figurado no raio fluídico (nº 15). (1)

23. Embora, durante a vida, o Espírito seja fixado ao corpo pelo perispírito, não é tão escravo, que não possa alongar sua corrente e se transportar ao longe, seja sobre a Terra, seja sobre qualquer ponto do espaço. O Espírito está preso ao corpo, contra sua vontade, pois que sua vida normal é a liberdade, ao passo que a vida corporal é a do servidor preso à gleba.

O Espírito sente-se, pois, feliz, de deixar seu corpo, assim como o pássaro deixa sua gaiola; serve-se de todas as ocasiões em que sua presença não seja necessária à sua vida de relação. É o fenômeno designado sob o nome de emancipação da alma; sempre se realiza durante o sono; todas as vezes em que o corpo repousa e que os sentidos estão na inatividade, o Espírito se livra. (O Livro dos Espíritos, capítulo VIII).

Nesses momentos, o Espírito vive a vida espiritual, ao passo que o corpo vive a vida vegetativa: em parte, ele se encontra no estado em que se encontrará após a morte; percorre o espaço, entretém-se com seus amigos e outros Espíritos livres, ou encarnados como ele próprio.

O liame fluídico que o retém ao corpo não é definitivamente rompido senão com a morte; a separação completa não se realiza senão pela extinção absoluta da atividade do princípio vital. Enquanto o corpo vive, o Espírito, embora possa estar a alguma distância, ali é instantaneamente trazido de volta, desde que sua presença seja necessária; então, retoma o curso de sua vida de relação. Algumas vezes, ao acordar, conserva de suas peregrinações uma lembrança, uma imagem mais ou menos exata, o que constitui o sonho; em todo o caso, traz intuições que lhe sugerem idéias e pensamentos novos, e justificam o provérbio: a noite é boa conselheira.

Assim se explicam igualmente certos fenômenos característicos, do sonambulismo natural e magnético, da catalepsia, da letargia, do êxtase, etc., e que nada mais são senão manifestações da vida espiritual. (2)

24. Se a vista espiritual não se efetua pelos olhos do corpo, é porque a percepção das coisas não se realiza pela ação da luz comum: com efeito, a luz material é feita para o mundo material; para o mundo espiritual existe uma luz especial cuja natureza nos é desconhecida, mas que sem dúvida é uma das propriedades do fluido etéreo afetado pelas percepções visuais da alma. Há, pois, luz material e luz espiritual. A primeira tem focos circunscritos aos corpos luminosos; a segunda tem seu foco por toda a parte: esta é a razão pela qual não há obstáculos à vista espiritual; ela não é detida pela distância, nem pela opacidade da matéria; a obscuridade não existe para ela. O mundo espiritual é portanto clareado pela luz espiritual, que tem seus efeitos próprios, como o mundo material é iluminado pela luz solar.

25. A alma, envolvida pelo seu perispírito, traz assim em si mesma seu princípio luminoso; penetrando a matéria por força de sua essência etérea não há corpos opacos à sua vista.

Entretanto, a vista espiritual não tem a mesma extensão nem a mesma penetração em todos os Espíritos; unicamente os Espíritos puros a possuem em todo seu poder; com os Espíritos inferiores, ela é enfraquecida pela relativa materialidade do perispírito, que se interpõe como uma espécie de bruma.

Ela se manifesta em diferentes graus nos Espíritos encarnados, pelo fenômeno de segunda vista, seja no sonambulismo natural ou magnético, seja no estado de vigília. Segundo o grau de potência da faculdade, diz-se que a lucidez é maior ou menor. É com o auxílio dessa faculdade que certas pessoas vêem o interior do organismo e descrevem a causa das moléstias.

26. A vista espiritual dá, pois, percepções especiais que, não tendo por sede os órgãos materiais, funcionam sob condições inteiramente diferentes de todas as demais da vida corporal. Por esta razão, não se podem atingir efeitos idênticos e experimentá-la segundo os mesmos processos. Seu desempenho se dá fora do organismo e ela tem uma mobilidade que frustra toda as previsões. É preciso estudá-la em seus efeitos e em suas causas, e não por assimilação com a vista comum, a qual não é destinada a completar, salvo casos excepcionais, aos quais não se pode tomar como regra.

27. A vista espiritual é necessariamente incompleta e imperfeita nos Espíritos encarnados, e por conseguinte, sujeita a aberrações. Tendo sua sede na própria alma, o estado desta deve influir sobre as percepções que ela proporciona. Segundo o grau de seu desenvolvimento, as circunstâncias e o estado moral do indivíduo, ela pode dar, seja no sono, seja no estado de vigília: 1º) a percepção de certos fatos materiais, reais, como o conhecimento de acontecimentos que se passam ao longe, os detalhes descritivos de uma localidade, as causas de uma moléstia e os remédios convenientes; 2º) a percepção de coisas igualmente reais do mundo espiritual, como a visão de Espíritos; 3º) imagens fantásticas criadas pela imaginação, análogas às criações fluídicas do pensamento (Ver neste Capítulo, nº 14). Tais criações estão sempre em relação com as disposições morais do Espírito que as concebe. É assim que o pensamento de pessoas fortemente imbuídas e preocupadas com certas crenças religiosas lhes apresenta o inferno, suas fornalhas, suas torturas e seus demônios, tais como as próprias pessoas os representam: às vezes é toda uma epopéia; os pagãos viam o Olimpo e o Tártaro, assim como os cristãos vêem o inferno e o paraíso. Se, ao acordar, ou ao sair do êxtase, tais pessoas conservam uma recordação exata de suas visões, elas as tomam como realidades e confirmações de suas crenças, embora isso não passe de um produto de seus próprios pensamentos. (3) Há, pois, a necessidade de se fazer uma escolha muito rigorosa nas visões extáticas, antes de aceitá-las. O remédio da demasiada credulidade, sob este ponto de vista, é o estudo das leis que regem o mundo espiritual.

28. Os sonhos propriamente ditos apresentam as três naturezas das visões acima descritas. É às duas primeiras que pertencem os sonhos proféticos, pressentimentos e advertências (1); é no terceiro, isto é, nas criações fluídicas do pensamento, que se podem encontrar a causa de certas imagens fantásticas que nada têm de real em relação à vida material, mas que têm, para o Espírito, uma realidade às vezes tão nítida, que o corpo sofre o contra-golpe, e se tem visto os cabelos embranquecerem sob a impressão de um sonho. Essas criações podem ser provocadas: pelas crenças exaltadas; por recordações retrospectivas; pelos gestos, os desejos, as paixões, o temor, os remorsos; pelas preocupações habituais; pelas necessidades do corpo, ou por um embaraço nas funções do organismo; enfim, por outros Espíritos, com um objetivo benfazejo ou malfazejo, segundo sua natureza. (2)

(1) Fatos de dupla vista e de lucidez sonambúlica relatados na "Revue Spirite": janeiro de 1858, pág. 25; novembro de 1858, pág. 213; julho de 1861, pág. 197; novembro de 1865, pág. 352.

(2) Exemplos de letargia e de catalepsia: "Revue Spirite", Madame Schwabenhaus, setembro de 1858, pág. 255; A jovem cataléptica da Suabia, janeiro de 1866, pág. 18.

(3) É assim que se podem explicar as visões da Irmã Elmerich, a qual, reportando-se ao tempo da paixão do Cristo, diz ter visto coisas materiais que jamais existiram, senão nos livros que ela leu; as de Madame Cantanille ("Revue Spirite", agosto de 1866, pág. 240), e uma parte das de Swedenborg.

(4) Ver mais adiante, cap. XVI, Teoria da presciência, ns. 1, 2 e 3.

(5) Revue Spirite, junho de 1866, pág. 172; setembro de 1866, pág. 294 O Livro dos Espíritos, cap. VIII, nº 400.

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