Livro selecionado: "A Gênese"

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Primeira Formação dos Seres Vivos

11. Na formação dos corpos sólidos, um dos fenômenos mais notáveis é o da cristalização que consiste na forma regular que certas substâncias apresentam, quando passam do estado líquido ou gasoso para o estado sólido. Esta forma, que varia segundo a natureza da substância, é geralmente a de sólidos geométricos, tais como o prisma, o rombóide, o cubo, a pirâmide. Todos conhecem cristais de açúcar cândi; os cristais de rocha, a sílica cristalizada, são prismas de seis lados, terminados por uma pirâmide igualmente hexagonal. O diamante é carbono puro, cristalizado. Os desenhos que se produzem sobre as vidraças, no inverno, são devidos à cristalização do vapor d'água, durante a congelação, sob a forma de agulhas prismáticas.

A disposição regular dos cristais se refere à forma particular das moléculas de cada corpo; essas partículas, infinitamente pequenas para nós, mas que nem por isso deixam de ocupar um certo espaço, solicitadas umas pelas outras pela atração molecular, se dispõem e se justapõem, segundo a exigência de sua forma, de maneira a que cada uma tome seu lugar em redor do núcleo ou primeiro centro de atração, e de modo a formar um conjunto simétrico.

A cristalização não se opera senão sob o império de certas circunstâncias favoráveis, fora das quais elas não podem se realizar; o grau de temperatura e o repouso são condições essenciais. Compreende-se que um calor muito forte, mantendo as moléculas afastadas, não lhes permite se condensarem, e pela agitação, opondo-se a seu arranjo simétrico, elas não formariam senão massa confusa e irregular, e portanto sem cristalização propriamente dita.

12. A lei que preside à formação dos minerais conduz naturalmente à formação dos corpos orgânicos.

A análise química nos mostra todas as substâncias vegetais e animais, compostas dos mesmos elementos que os corpos inorgânicos. Os elementos que desempenham o papel principal são o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono; os outros não se encontram senão de modo acessório. Como no reino mineral, a diferença das proporções na combinação desses elementos produz toda a variedade das substâncias orgânicas e suas diversas propriedades, tais como: os músculos, os ossos, o sangue, a bílis, os nervos, a matéria cerebral, a gordura nos animais; a seiva, a madeira, as folhas, os frutos, as essências, os óleos, as resinas, etc., nos vegetais. Assim, na formação dos animais e das plantas não entra nenhum corpo especial que não seja igualmente encontrado no reino mineral. (1)

13. Alguns exemplos usuais farão compreender as transformações que se operam no reino orgânico, unicamente pela modificação dos elementos constitutivos.

No suco da uva, não há ainda nem vinho nem álcool, mas simplesmente água e açúcar. Quando este suco chega à maturidade, e é colocado em circunstâncias propícias, ali se produz um trabalho íntimo, ao qual se dá o nome de fermentação. Nesse trabalho, uma parte do açúcar se decompõe; o oxigênio, o hidrogênio e o carbono se separam e se combinam nas proporções convenientes para formar álcool; de modo que ao beber o suco da uva, na realidade não se bebe álcool, pois ele ainda não existe; forma-se com as partes constitutivas da água e do açúcar, sem que haja, em suma, nem uma molécula a mais nem a menos.

No pão e nos legumes que comemos, não há certamente nem carne, nem sangue, nem ossos, nem matéria cerebral, e no entanto estes mesmos alimentos vão produzir essas diversas substâncias pela transformação de seus elementos constitutivos, mediante a sua decomposição e recomposição do trabalho da digestão e elaborações orgânicas.

Na semente de uma árvore não há certamente nem madeira, nem folhas, nem flores, nem frutos, e é um erro supor que a árvore inteira, sob forma microscópica, se encontra na semente; quase não há sequer a quantidade de oxigênio, de hidrogênio e de carbono, necessária para formar uma só folha de árvore. A semente encerra um germe que brota quando encontra as condições favoráveis; esse germe cresce à custa dos sucos que extrai da terra e dos gases que aspira do ar; tais sucos, que não são madeira, nem folhas, nem flores, nem frutos, infiltrando-se na planta, formam sua seiva, tal como os alimentos, nos animais, formam o sangue. Essa seiva, conduzida pela circulação a todas as partes do vegetal, seguindo os órgãos onde vai ter e onde recebe uma elaboração especial, se transforma em madeira, folhas, frutos, tal como o sangue se transforma em carne, ossos, bílis, etc., e no entanto, são sempre os mesmos elementos: o oxigênio, hidrogênio, azoto e carbono, diversamente combinados.

14. As diferentes combinações dos elementos para a formação das substâncias minerais, vegetais, não podem pois se operar senão nos ambientes e nas circunstâncias propícias; fora de tais circunstâncias, os princípios elementares estão numa espécie de inércia. Porém, desde que as circunstâncias sejam favoráveis, começa um trabalho de elaboração; as moléculas entram em movimento, se agitam, se atraem, se aproximam, se separam em virtude da lei das afinidades, e por suas múltiplas combinações, compõem a infinita variedade de substâncias. Se tais condições cessarem, o trabalho paralisa-se subitamente, para recomeçar quando novamente elas se apresentarem. É assim que a vegetação se ativa, se retarda, cessa e recomeça a trabalhar, sob a ação do calor, da luz, da umidade, do frio e da seca; que tal planta prospera num clima ou num dado terreno, e estiola ou perece noutro.

15. O que se passa diariamente sob nossos olhos pode nos indicar o que tem se passado desde a origem dos tempos, pois as leis da Natureza são invariáveis.

Verificado que os elementos constitutivos dos seres orgânicos e dos seres inorgânicos são os mesmos; que nós os vemos sem cessar sob o império de certas circunstâncias formar as pedras, as plantas e os frutos, pode-se concluir que os corpos dos primeiros seres vivos foram formados, como as primeiras pedras, pela reunião das moléculas elementares em virtude da lei da afinidade, à medida que as condições da vitalidade do globo foram propícias a tal ou qual espécie.

A semelhança de forma e de cores, na reprodução de indivíduos de cada espécie, pode ser comparada à semelhança de forma de cada espécie de cristal. As moléculas, justapondo-se sob o império da mesma lei, produzem um conjunto análogo.

(1) O quadro abaixo, com a análise de algumas substâncias, mostra a diferença das propriedades que resulta unicamente da diferença na proporção dos elementos constitutivos. Considerem-se em 100 partes:

Carbono Hidrogênio Oxigênio Azoto

Açúcar de cana 42.470 6.900 50.630 "

Açúcar de uva 36.710 6.780 56.510 "

Álcool 51.980 13.700 34.329 "

Óleo de oliva 77.210 13.366 9.430 "

Óleo de nozes 79.774 10.570 9.123 0,534

Gordura animal 78.996 11.790 9.305 "

Fibrina 53.330 7.021 19.685 19.934

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