Livro selecionado: "A Gênese"

ÍNDICE

Sucessão Eterna dos Mundos

48. Temos visto que só uma lei primordial e geral foi dada ao Universo, para assegurar sua estabilidade eterna, e que esta lei geral é perceptível a nossos sentidos mediante diversas ações particulares, as quais chamamos forças dirigentes da Natureza. Hoje vamos mostrar que a harmonia do mundo inteiro, considerada sob o duplo aspecto da eternidade e do espaço, é assegurada por essa lei suprema.

49. Com efeito, se remontarmos à origem primeira das primitivas aglomerações de substância cósmica, observaremos que, sob o império dessa lei, a matéria já passou por transformações necessárias, que a conduzem do germe para o fruto maduro, e que sob o impulso das forças diversas, nascidas dessa lei, ela percorre a escala de suas revoluções periódicas; a princípio, centro fluídico dos movimentos, a seguir, gerador dos mundos, mais tarde, núcleo central e atrativo das esferas que tiveram nascimento em seu seio.

Uma comparação familiar pode dar uma idéia, embora imperfeita, das nebulosas irresolúveis: são grupos de faíscas projetadas por fogos de artifício, no momento de sua explosão. Cada uma das faíscas representaria para nós uma estrela, e o conjunto seria a nebulosa, ou grupo de estrelas reunidas num ponto do espaço, e submetidas a uma lei comum de atração e de movimento. Vistas de uma certa distância, estas faíscas mal se distinguem, e o seu grupo tem a aparência de uma pequena nuvem de fumaça. Esta comparação não será exata; trata-se de massa de matéria cósmica condensada.

Nossa Via Láctea é uma dessas nebulosas; nela se contam aproximadamente 30 milhões de estrelas ou sóis, os quais não ocupam menos de algumas centenas de trilhões de léguas em extensão, e entretanto, não é a maior. Suponhamos somente uma média de 20 planetas habitados circulando ao redor de cada sol; isso nos daria um total aproximado de 600 milhões de mundos unicamente para nosso grupo.

Se pudéssemos nos transportar de nossa nebulosa para uma outra, ali estaríamos como no meio de nossa Via Láctea, porém com um céu estrelado de modo inteiramente diverso do nosso; e esta Via Láctea, apesar das suas dimensões colossais, em relação a nós, ao longe nos apareceria como um pequeno floco lenticular, perdido no infinito. Porém antes de atingir a nossa nebulosa, seríamos como o viajante que deixa uma cidade e percorre um vasto país desabitado, antes de atingir outra cidade; teríamos percorrido espaços incomensuráveis, desprovidos de estrelas e de mundos, aquilo que Galileu chama de desertos do espaço. À medida que avançassemos, veríamos nossa nebulosa como que a fugir detrás de nós, ao mesmo tempo que, à nossa frente, se apresentaria aquela em cuja direção nos dirigíssemos, cada vez mais distinta, semelhante à massa de faíscas do fogo de artifício. Transportando-nos no pensamento a regiões do espaço, situadas adiante do arquipélago de nossa nebulosa, veríamos por toda a nossa volta milhões de arquipélagos semelhantes e de formas diversas, cada um deles encerrando milhões de sóis e centenas de milhões de mundos habitados.

Sabíamos já que essas leis presidem à história do Cosmos; o que importa saber agora, é que elas presidem igualmente a destruição dos astros, pois a morte não é somente uma metamorfose do ser vivente, mas ainda uma transformação da matéria inanimada; e se é verdadeiro dizer-se, no sentido literal, que a vida só é acessível como contrafação da morte, também é justo acrescentar que a substância deve necessariamente suportar as transformações inerentes à sua constituição.

50. Suponhamos um mundo que, desde seu berço primitivo, percorreu toda a extensão dos anos que sua organização especial permitiu percorrer; o foco interior de sua existência se extinguiu, seus elementos próprios perderam a virtude inicial; os fenômenos da natureza, que para sua produção exigiam a presença e a ação das forças devolvidas a esse mundo, já não podem se apresentar, porque a alavanca de sua atividade já não tem mais o ponto de apoio que lhe dava toda sua força.

Ora, poder-se-á pensar que esse planeta extinto e sem vida vai continuar a gravitar nos espaços celestes, sem fim, e permanecer como cinza inútil no turbilhão dos céus? Poder-se-á pensar que ele continue inscrito no livro da vida universal, quando nada mais é senão uma letra morta e desvestida de sentido? Não; as mesmas leis que o elevaram acima do caos tenebroso, e que lhe gratificaram os esplendores da vida, as mesmas forças que o governaram durante os séculos de sua adolescência, que firmaram seus primeiros passos na existência e que o conduziram à idade madura e à velhice, vão presidir à desagregação de seus elementos constitutivos para entregá-los ao laboratório de onde a potência geratriz extrai sem cessar as condições da estabilidade geral. Estes elementos vão voltar a essa massa comum de éter, para se assimilar a outros corpos ou para regenerar outros sóis; e essa morte não será um acontecimento inútil a esta Terra, nem a suas irmãs: ela renovará, em outras regiões, outras criações de natureza diferente, e ali onde sistemas de mundos se tenham desvanecido, renascerá logo um novo canteiro de flores mais brilhantes e mais perfumadas.

Tudo aquilo que pode nos identificar com a imensidade da extensão e da estrutura do Universo, é útil ao engrandecimento das idéias, tão restringidas pelas crenças vulgares. Deus cresce a nossos olhos, à medida que melhor compreendemos a grandeza dessas obras e nosso ínfimo lugar. Como se vê, estamos longe dessa crença implantada pela Gênese mosaica, que faz de nossa pequena Terra imperceptível, a criação principal de Deus, e de seus habitantes, os únicos objetos de sua solicitude. Compreendemos a vaidade dos que crêem que tudo foi feito para eles no Universo, e dos que ousam discutir a existência do Ser supremo. Daqui a alguns séculos, será motivo de admiração que uma religião feita para glorificar a Deus, o haja rebaixado a proporções tão mesquinhas, e que ela haja repelido, como sendo concebidas pelo Espírito do mal, as descobertas que não podiam ter outro resultado, senão aumentar nossa admiração pela onipotência divina, ao nos iniciar nos mistérios grandiosos da criação; ainda será motivo de maior admiração, quando se souber que tais ensinamentos foram repelidos, porque deviam emancipar o espírito dos homens, e obstar à proponderância dos que se diziam os representantes de Deus sobre a Terra.

51. Assim a eternidade real e efetiva do Universo é assegurada pelas mesmas leis que dirigem a operação dos tempos; assim os mundos se sucedem aos mundos, os sóis aos sóis, sem que o imenso mecanismo dos vastos céus jamais seja afetado em suas gigantescas molas.

Lá onde vossos olhares admiram esplêndidas estrelas, sob a abóbada das noites, lá onde vosso espírito contempla radiações magníficas que resplendem sob longínquos espaços, já de há muito tempo o dedo da morte extinguiu tais esplendores, já de há muito o vazio sucedeu a tais lampejos, e recebem mesmo novas criações ainda desconhecidas. O imenso afastamento de tais astros, pelo qual a luz que nos enviam leva milhares de anos para nos alcançar, faz com que somente hoje recebamos os raios que nos foram enviados há muito tempo, antes da criação da Terra, e que ainda os admiremos durante milhares de anos após a sua desaparição real. (1)

Que são os seis mil anos da humanidade histórica, ante os períodos seculares? Segundos em vossos séculos? Que são vossas observações astronômicas ante o estado absoluto do mundo? Uma sombra eclipsada pelo Sol.

52. Logo, aqui como em nossos outros estudos, reconheçamos que a Terra e o homem são como nada, em confronto com aquilo que existe, e que as mais colossais operações de nosso pensamento não se estendem ainda senão por um campo imperceptível ao lado da imensidade e da eternidade de um Universo que não se extinguirá nunca.

E quando esses períodos de nossa imortalidade houverem passado sobre nossas cabeças, quando a história atual da Terra nos aparecer como uma sombra vaporosa, no fundo de nossa lembrança; depois que tivermos habitado durante séculos sem conta nestes diversos graus de nossa hierarquia cosmológica; depois que os mais distantes domínios das futuras idades tiverem sido percorridas por inumeráveis peregrinações, teremos diante de nós a sucessão ilimitada dos mundos e por perspectiva, a imobilidade eterna.

(1) Isto é efeito do tempo que a luz tarda para atravessar o espaço. Sendo de 70.000 léguas por segundo a sua velocidade, ela gasta do Sol à Terra 8 minutos e 13 segundos. Resulta disso que, passando-se um fenômeno na superfície do Sol, só o percebemos 8 minutos mais tarde e, pela mesma razão, o veremos ainda 8 minutos depois do seu desaparecimento. Se, em virtude de sua distância, a luz de uma estrela leva mil anos para chegar até nós, não podemos ver essa estrela senão mil anos depois de sua formação. (Vede, para explicação e descrição completa desse fenômeno, a Revue Spirite de março e maio de 1867, págs. 93 e 151; exposição de Lumen, por Camille Flammarion).

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