Livro selecionado: "A Gênese"

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Capítulo V

Antigos e Modernos Sistemas do Mundo

1. A primeira idéia que os homens fizeram da terra, do movimento dos astros e da constituição do universo, deve ter sido baseada unicamente nos dados obtidos através do uso dos sentidos. Ignorando as leis mais elementares da Física e as forças da Natureza, tendo apenas sua vista limitada como meio de observação, somente poderiam julgar pelas aparências.

Vendo o sol aparecer de manhã de um lado do horizonte, e desaparecer de tarde do lado oposto, concluíram naturalmente que ele girava em redor da terra e que esta permanecia imóvel. Se disséssemos então aos homens que o contrário é que se dava, teriam respondido que isto não era possível, pois vemos o sol mudar de lugar e não sentimos a terra mover-se.

2. A pouca extensão das viagens, as quais raramente se prolongavam além dos limites do território da tribo, ou do vale onde moravam, não podia permitir a constatação da esfericidade da terra. Por que modo, então, poderiam supor que a terra pudesse ter o formato aproximado de uma bola? Se assim fosse, os homens não poderiam manter-se senão nos lugares mais altos e supondo-a habitada em toda a sua superfície, como poderiam eles viver no hemisfério oposto, com a cabeça para baixo e os pés para cima? Diminuiria mais a probabilidade da proposição, considerando o movimento de rotação. Ainda hoje, que já se conhece a lei de gravitação, encontram-se pessoas relativamente bem esclarecidas que não concebem este fenômeno; assim, não será de admirar que os homens das primeiras eras nem sequer hajam suspeitado da sua existência.

A terra era para eles uma superfície plana, circular como uma mó de moinho que se estendia a perder de vista na direção horizontal; é daí que provém a expressão ainda usual: ir ao fim do mundo. Seus limites, sua espessura, seu interior, o que havia por baixo dela era desconhecido. (1)

O céu, aparecendo sob forma côncava, era, conforme a crença vulgar, uma abóbada real, cujas bordas inferiores se apoiavam sobre a terra e marcavam seus limites; vasta cúpula que o ar enchia em toda a sua capacidade. Sem nenhuma idéia do espaço infinito, incapazes mesmo de o conceber, os homens figuravam que tal cúpula seria formada de matéria sólida; daí o nome de firmamento, que sobreviveu à crença, e que significa firme, resistente (do latim firmamentum, derivado de firmus, e do grego herma, hermatos, firme, sustento, apoio, ponto de apoio).

4. As estrelas, de cuja natureza não podiam suspeitar, eram simples pontos luminosos, mais ou menos grandes, presos à abóbada como lâmpadas suspensas, dispostas sobre uma superfície e, por conseguinte, todas situadas à mesma distância da Terra, da mesma maneira que as representam no interior de certas cúpulas pintadas de azul para representar o azul dos céus.

Embora hoje sejam diferentes as idéias, conservou-se o uso das antigas expressões; ainda se diz, por comparação, a abóbada estrelada sob a calota do céu.

5. A formação das nuvens pela evaporação das águas da Terra, era então igualmente desconhecida; era inconcebível que a chuva que cai do céu tivesse sua origem sobre a Terra, de onde ninguém via a água subir. Daí derivava a crença na existência das águas superiores e das águas inferiores, de fontes celestes e de fontes terrestres, de reservatórios colocados em altas regiões, suposição essa que concordava plenamente com a idéia de uma abóbada capaz de mantê-las. As águas superiores, escapando pelas fendas da abóbada, caíam na forma de chuva e conforme fossem essas aberturas, menores ou maiores, a chuva era suave ou torrencial e até mesmo diluviana.

6. A ignorância completa do conjunto do universo e das leis que o regem, da natureza, da constituição e da destinação dos astros, que aliás pareciam ser tão pequenos, em comparação com a Terra, necessariamente fazia com que considerassem a esta como a coisa principal, o alvo único da criação, e os astros como acessórios criados unicamente para apreciação de seus habitantes. Este preconceito se perpetuou até nossos dias, apesar das descobertas da ciência, as quais para o homem, alteraram o aspecto do mundo. Quantas pessoas ainda acreditam que as estrelas são ornamentos do céu para recreio da vista dos habitantes da terra!

7. Não tardou, contudo, a percepção do movimento aparente das estrelas que se movem num conjunto, do oriente para ocidente, elevando-se de tarde e deitando pela manhã, e conservando suas respectivas posições. Entretanto durante muito tempo, esta observação não teve outro efeito senão confirmar a idéia de uma abóbada sólida que arrastava as estrelas em seu movimento de rotação.

Estas primeiras idéias, ingênuas, constituíram durante longos períodos seculares, o fundo das crenças religiosas e serviram de base a todas as cosmogonias antigas.

8. Mais tarde foi compreendido, pela direção do movimento das estrelas e seu retorno periódico na mesma ordem, que a abóbada celeste não podia ser simplesmente uma meia-esfera colocada sobre a terra, mas sim uma esfera inteira, oca, no centro da qual se encontrava a terra, sempre plana, ou no máximo convexa e habitada somente em sua face superior. Já era um progresso.

Porém, sobre o que se apoiava a terra? Seria inútil relacionar todas as suposições ridículas, concebidas pela imaginação, exemplificando com a dos indianos, que diziam ser ela carregada por quatro elefantes brancos e estes eram levados sobre as asas de um imenso abutre. Os mais sábios adiantavam que nada sabiam.

9. Entretanto, uma opinião geralmente aceita nas teologias pagãs, colocava nos lugares baixos, que era um modo de se considerar as profundezas da terra, ou ali embaixo, do que nada se sabia com certeza, a região dos réprobos, denominada inferno, o que significa lugares inferiores; e nos lugares altos, além da região das estrelas, o recanto dos ditosos. A palavra inferno conservou-se até nossos dias, embora haja perdido sua significação etmológica, depois que a Geologia desalojou o lugar dos suplícios eternos das entranhas da terra, e que a Astronomia demonstrou que no espaço infinito não há alto nem baixo.

(1) A mitologia indu ensinava que o astro do dia despojava-se à noite de sua luz, e atravessava o céu durante a noite com sua face obscura. A mitologia grega representava o carro de Apolo puxado por quatro cavalos. Anaximandro, de Mileto, com o apoio de Plutarco, sustentava que o sol era uma carruagem cheia de um fogo muito vivo, o qual saía por um orifício circular. Na opinião de Epicuro, segundo um de seus seguidores, o sol se acendia de manhã e à noite se apagava nas águas do Oceano; outros diziam que o Oceano fazia do sol uma pedra-pomes aquecida até o grau da incandescência. Anaxágoras o conceituava como um ferro quente do tamanho do Peloponeso. Curiosa afirmativa! Os Antigos eram tão invencivelmente levados a considerar o tamanho aparente, deste astro, como se fosse o verdadeiro, que perseguiram este filósofo temerário, por haver atribuído um tal volume à tocha do dia; foi necessária toda a autoridade de Péricles para salvar o filósofo da condenação à morte, comutada para exílio." (Flammarion, "Etudes et lectures sur l'astronomie", pág. 6).

Quando se encontram tais idéias adotadas no quinto século antes da era cristã, no tempo mais florescente da Grécia, não se pode admirar das conceituações que faziam os homens das primeiras eras acerca do sistema do mundo.

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