Livro selecionado: "A Gênese"

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O Papel da Ciência na Gênese

9. Por respeito a textos considerados como sagrados, seria necessário impor silêncio à ciência? Isto é uma atitude tão impossível quanto a de impedir a terra de girar. As religiões, quaisquer que tenham sido, jamais ganharam nada por sustentar erros manifestos. A missão da ciência é a de descobrir as leis da Natureza; ora, como essas leis são obras de Deus, não podem ser contrárias às religiões fundadas sobre a verdade. Lançar anátema ao progresso como inimigo da religião, é lançar anátema à própria obra de Deus; ademais, é isso completamente inútil, pois todos os anátemas do mundo não impedirão que a ciência caminhe, e que a verdade venha à luz do dia. Se a religião se recusar a caminhar com a ciência, a ciência prosseguirá sozinha.

10. Somente as religiões estacionárias podem temer as descobertas da ciência; essas descobertas não são funestas senão aos que se distanciam das idéias progressivas, imobilizando-se no absolutismo de suas crenças; eles fazem em geral uma idéia tão mesquinha da Divindade, que não compreendem que o fato de se assimilarem às leis da Natureza reveladas pela ciência, é glorificar Deus em suas obras; porém, em sua cegueira, preferem com isso prestar uma homenagem ao Espírito do mal. Uma religião que não estivesse em contradição com as leis da Natureza nada teria que temer do progresso, e seria invulnerável.

11. A Gênese compreende duas partes: a história da formação do mundo material, e a história da humanidade considerada em seu duplo princípio, corporal e espiritual. A ciência tem se limitado à pesquisa das leis que regem a matéria; no próprio homem, ela nada mais tem estudado senão o envoltório carnal. Sob esta relação, chegou a perceber, com incontestável precisão, as principais partes do mecanismo do Universo e do organismo humano. Acerca desse ponto capital, ela pode, pois, completar a Gênese de Moisés e retificar suas partes defeituosas.

Porém, a história do homem, considerado como ser espiritual, se prende a uma ordem especial de idéias, que não constitui o domínio da ciência propriamente dita e por este motivo ela não tem feito dele objeto de suas investigações.

A Filosofia, que inclui este gênero de estudos em suas atribuições não tem formulado, sobre este ponto, mais do que sistemas contraditórios, desde a espiritualidade pura até à negação do princípio espiritual e até mesmo a Deus, sem outras bases além das idéias pessoais de seus autores; e pois, ela tem deixado a questão indecisa, à falta de um controle adequado.

12. Entretanto, esta questão é a mais importante para o homem, pois constitui o problema de seu passado e de seu futuro; a do mundo material não o afeta senão indiretamente. O que lhe importa acima de tudo é saber de onde vem, para onde vai; se já viveu e se viverá outra vez, e qual a sorte que lhe é reservada.

Acerca de todas essas questões, a ciência é muda. A Filosofia nada faz senão emitir opiniões em sentidos diametralmente opostos; porém, pelo menos ela permite discutir o assunto, o que faz com que muitas pessoas se coloquem a seu lado, afastando-se assim da religião, que não discute absolutamente.

13. Todas as religiões estão de acordo sobre o princípio da existência da alma sem todavia o demonstrar; porém elas não concordam nem a respeito de sua origem, nem sobre seu passado, nem sobre seu futuro, nem sobretudo, _ o que é essencial _ sobre as condições das quais depende seu destino futuro. Em sua maior parte, elas fazem do futuro, um quadro imposto à crença de seus adeptos, o que só pode ser aceito pela fé cega, mas não pode suportar um exame sério. O destino que elas atribuem à alma está ligado, em seus dogmas, às idéias que eram formuladas a respeito do mundo material e do mecanismo do Universo, nos tempos primitivos, o que é inconciliável com o estado dos conhecimentos atuais. Uma vez que só podem perder com o exame e a discussão do assunto, acham mais simples proibir um e outro.

14. A dúvida e a incredulidade nasceram dessas divergências relativas ao porvir do homem. Todavia, a incredulidade resulta numa vida penosa; o homem considera com ansiedade o desconhecido, onde fatalmente, cedo ou tarde deverá penetrar; a idéia do nada o faz gelar; sua consciência lhe diz que além do presente há alguma coisa para ele; porém, o que é? Sua razão desenvolvida não lhe permite mais aceitar as histórias que acalentaram sua infância e assim tomar a alegoria pela realidade. Qual é o sentido dessa alegoria? A ciência dilacerou um canto do véu, porém não lhe revelou aquilo que mais lhe importa saber. Ele interroga em vão, e nada lhe responde de maneira peremptória, adequada a acalmar suas apreensões; por toda parte ele encontra a afirmação em choque com a negação, sem provas mais positivas de um lado ou de outro; daí a incerteza, e a incerteza relativa às coisas da vida futura faz com que o homem se atire com uma espécie de frenesi sobre as coisas da vida material.

Tal é o efeito inevitável das épocas de transição: o edifício do passado se esboroa e o do futuro ainda não está levantado. O homem é como o adolescente, que não tem mais a crença ingênua de seus primeiros anos e não tem ainda os conhecimentos da idade madura; nada tem além de vagas aspirações que não sabe definir.

15. Se a questão do homem espiritual permaneceu até nossos dias no estado de teoria, é porque tem havido a falta de meios de observação direta, por outro lado existentes para constatar o estado do mundo material; e o campo tem estado aberto às concepções do espírito humano. Enquanto o homem não conheceu as leis que regem a matéria e enquanto não pode aplicar o método experimental, andou a errar de sistema para sistema no que se refere ao mecanismo do Universo e à formação da Terra. Na ordem moral, tem-se dado o mesmo que na ordem física; a fim de fixar as idéias, tem faltado o elemento essencial: o conhecimento das leis do princípio espiritual. Este conhecimento estava reservado à nossa época, assim como o conhecimento das leis da matéria foi obra dos dois séculos anteriores.

16. Até o presente, o estudo do princípio espiritual, compreendido na Metafísica havia sido puramente especulativo e teórico; no Espiritimo, é todo experimental. Com a ajuda da faculdade mediúnica, mais desenvolvida em nossos dias, e sobretudo generalizada e melhor estudada, encontrou-se o homem de posse de um novo instrumento de observação. Para o mundo espiritual, a mediunidade tem sido aquilo que o telescópio foi para o mundo sideral, e o microscópio para o mundo do infinitamente pequeno; permitiu explorar, estudar, por assim dizer `de visu', suas relações com o mundo corporal; isolar, no homem vivente, o ser inteligente do ser material, e vê-los atuar separadamente. Uma vez estabelecida a relação com os habitantes de tal mundo, foi possível seguir sua alma em sua marcha ascen sional em suas migrações, em suas transformações; enfim, tornou-se possível estudar o elemento espiritual. Eis o que faltava aos anteriores comentadores da Gênese para compreendê-la e retificar seus erros.

17. Estando em contato incessante, o mundo espiritual e o mundo material são solidários um com o outro; todos os dois têm sua parte de ação na Gênese. Sem o conhecimento das leis que regem o primeiro seria também impossível constituir uma Gênese completa, tanto quanto a um escultor é impossível dar vida a uma estátua. Unicamente hoje em dia, e apesar de que nem a ciência material nem a ciência espiritual hajam proferido suas derradeiras palavras, o homem possui os dois elementos adequados a lançar luz sobre este imenso problema. Eram de todo indispensáveis estas duas chaves, para se chegar a uma conclusão, mesmo aproximativa.(*)

(*) A posição criteriosa de Kardec fica bem clara neste capítulo. Ele apresenta as razões históricas da concepção ingênua da Gênese bíblica e sustenta a importância da concepção científica da gênese planetária no século passado, lembrando que, entretanto, as Ciências ainda não haviam chegado a conclusões definitivas. Há quem critique essa posição, achando que Kardec devia ir além das Ciências do seu tempo, apoiando-se em dados de comunicações mediúnicas. Kardec obedeceu ao princípio espírita de que só devemos aceitar o que estiver provado cientificamente. No século atual o avanço científico foi espantoso e assim mesmo não ofereceu os dados necessários a uma formulação definitiva de uma concepção científica da gênese. O critério rigoroso de Kardec o livrou de aceitar revelações mediúnicas que invalidariam a sua obra. Espíritas eminentes ainda não compreenderam que o Espiritismo não se apóia em revelações mediúnicas, mas no estudo das condições dos espíritos e na comprovação pela pesquisa da validade ou não das informações que nos dão (J. Herculano Pires).

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