Livro selecionado: "A Gênese"
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Capítulo I
Caracteres da Revelação Espírita
9. Haverá revelações diretas de Deus aos homens? Esta é uma questão que não ousaríamos resolver, nem afirmativa nem negativamente, de maneira absoluta. Isto não é radicalmente impossível mas nada o prova com certeza. O que não seria duvidoso é que os Espíritos mais aproximados de Deus pela perfeição se compenetram do seu pensamento e possam transmiti-lo. Quanto aos reveladores encarnados, segundo a ordem hierárquica à qual pertencem e o grau de seu saber pessoal, eles podem haurir instruções em seus próprios conhecimentos ou recebê-las dos Espíritos mais elevados, e também dos mensageiros diretos de Deus. Estes, falando em nome de Deus, muitas vezes têm sido tomados como o próprio Deus.
Estas espécies de comunicações nada têm de estranho para quem conheça os fenômenos espíritas e a maneira pela qual se estabelecem as relações entre os encarnados e os desencarnados. As instruções podem ser transmitidas por diversos meios: pela inspiração pura e simples, pela audição da palavra, pela apresentação visual dos Espíritos instrutores nas visões e aparições, seja durante os sonhos, seja em vigília, como na Bíblia, no Evangelho e nos livros sagrados de todos os povos. Assim, é rigorosamente certo dizer que a maior parte dos reveladores são médiuns inspirados, auditivos ou videntes; entretanto, não se deve concluir daí que todos os médiuns sejam reveladores e, muito menos, intermediários diretos da Divindade ou de seus mensageiros.
10. Somente os Espíritos puros recebem a palavra de Deus com a missão de transmiti-la; mas agora se sabe que nem todos os Espíritos estão próximos à perfeição e que dentre eles muitos se apresentam sob falsas aparências; é o que fez São João dizer: "Não creiais em todos os Espíritos, mas vede antes se os Espíritos são de Deus" (I Ep. S. João, 4.4).
É possível, pois, haver revelações sérias e verdadeiras, como as há apócrifas e mentirosas. O caráter essencial da revelação divina é o da eterna verdade. Toda revelação eivada de erros ou sujeita a modificação não pode emanar de Deus. É assim que a lei do Decálogo possui todos os caracteres de sua origem, ao passo que as outras leis mosaicas, essencialmente transitórias, muitas vezes em contradição com a lei do Sinai, são obra pessoal e política do legislador hebreu. Os costumes do povo abrandando-se, essas leis, por si mesmas caíram em desuso, enquanto que o Decálogo permanece como farol da humanidade. O Cristo fez dele a base de seu edifício, ao passo que aboliu as outras leis. Se elas tivessem sido obra de Deus, ele teria evitado tocá-las. O Cristo e Moisés foram os dois grandes reveladores que mudaram a face do mundo e aí está a prova de sua missão divina. Uma obra puramente humana não teria tal poder.
11. Uma importante revelação se está operando na época atual: é aquela que nos mostra a possibilidade de comunicação com os seres do mundo espiritual. Este conhecimento não é novo, sem dúvida, mas permaneceu até os nossos dias, de certo modo, como letra morta, isto é, sem proveito para a humanidade. A ignorância das leis que regem essas relações achava-se abafada pela superstição; o homem era incapaz de tirar delas qualquer dedução salutar; estava reservado à nossa época desembaraçá-las de seus acessórios ridículos, compreender-lhe o significado e dela fazer surgir a luz destinada a aclarar o caminho do futuro.
12. O Espiritismo, fazendo-nos conhecer o mundo invisível que nos cerca e no meio do qual vivíamos sem saber as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e estado dos seres que o habitam e, por conseguinte, o destino do homem depois da morte, constituem verdadeira revelação, na acepção científica da palavra.
13. Por sua natureza, a revelação espírita possui um duplo caráter: ela participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica. Participa da primeira porque seu aparecimento foi providencial e não o resultado da iniciativa e do desígnio premeditado do homem; porque os pontos fundamentais da doutrina provêm do ensinamento dado pelos Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens sobre as coisas que eles ignoravam, que não podiam aprender por si mesmos e que lhes importa conhecer, hoje que se acham amadurecidos para compreendê-las. Participa da segunda, porque tal ensinamento não constitui privilégio de nenhum indivíduo mas é proporcionado a todo mundo pela mesma forma; pelo fato de que, tanto aqueles que o transmitem como os que o recebem não serem seres passivos, dispensados do trabalho de observação e pesquisa; por não renunciarem ao seu próprio julgamento e livre-arbítrio; porque o exame não lhes é interdito, mas ao contrário recomendado; enfim, a doutrina não foi ditada completa nem imposta à crença cega; porque ela é deduzida do trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos lhes põem sob os olhos pelas instruções que a ele dão, instruções estas que o homem estuda, compara e das quais tira ele mesmo as suas conclusões e aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é que sua origem é divina, que a iniciativa pertence aos Espíritos e que a sua elaboração é o resultado do trabalho do homem.
14. Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma maneira que as ciências positivas, isto é, aplica o método experimental. Fatos de ordem nova se apresentam, que não podem ser explicados pelas leis conhecidas; ele as observa, compara, analisa e, partindo dos efeitos às causas, chega à lei que os rege; depois deduz as conseqüências e busca as aplicações úteis. O Espiritismo não estabeleceu nenhuma teoria preconcebida; assim, não se apresentam como hipótese nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem qualquer dos princípios da doutrina; conclui-se pela existência dos Espíritos porque essa existência resultou como evidência da observação dos fatos; e assim os demais princípios. Não foram os fatos que vieram posteriormente confirmar a teoria, mas foi a teoria que veio subseqüentemente explicar e resumir os fatos. É rigorosamente exato, portanto, dizer que o Espiritismo é uma ciência da observação e não o produto da imaginação. As ciências não fizeram progressos sérios senão depois que os seus estudos se basearam no método experimental; mas, acreditava-se que esse método não poderia ser aplicado senão à matéria ao passo que o é igualmente às coisas metafísicas.
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