Livro selecionado: "A Gênese"

ÍNDICE

Religião e Ciência

O interesse de Kardec por uma explicação espírita da gênese planetária decorre também de uma questão de método. Muita gente se impressiona com o fato de todos os relatos da Gênese, que nos chegaram de eras arcaicas, como o relato bíblico, através de obras orais ou escritas, sejam de natureza religiosa. Tem-se a impressão de que, na verdade, o próprio Criador quis dar aos homens as primeiras notícias do seu feito. Mas isso se explica pelo fato da natureza religiosa do homem lhe haver dado as primeiras concepções do mundo. Ainda hoje, as tribos selvagens do Brasil, como de todo o mundo, mesmo depois de contatos demorados com os civilizados, continuam sustentando suas lendas curiosas sobre a formação do mundo e a criação do homem. A relação do ato criador com as forças telúricas é também constante. O homem sempre nasce da terra ou das águas, de uma fonte misteriosa na mata, ou de uma cachoeira, cujas rochas se mostram fundidas ou furadas pelas águas. Daquelas fendas e daqueles furos, sustentam os indígenas, saíram os homens de todas as raças. É do animismo primitivo, da ligação genésica existente entre a alma do homem e a Natureza que o cerca de mistérios e espantos, que nascem essas concepções. Kardec, que se formara no Instituto de Pestalozzi em Yverdun, na Suíça, em relação constante com a Natureza, conhecia bem esse problema e o experimentara nas sugestões que recebera da Educação Natural de Rousseau, através dos métodos pestalozzianos de ensino. Conhecendo os relatos bíblicos da Gênese em sua formação católica na França, e os reencontrando no ambiente protestante suíço, impregnou-se de um naturalismo autêntico, haurido nas fontes naturais, que orientou os seus trabalhos pedagógicos e deu às suas pesquisas e à sua formulação da Doutrina Espírita uma orientação essencialmente naturalista. Experimentara em si mesmo a necessidade da fusão de religião e ciência, que mais tarde encontraria nas revelações dos Espíritos Superiores e desenvolveria na elaboração dos princípios da Doutrina Espírita. Elaborados os livros fundamentais do edifício doutrinário, Kardec partiu para as aplicações da nova mundividência na cultura do tempo, começando pelos problemas da gênese planetária. Todo o seu trabalho segue uma linha de raciocínio metódico, visando a renovação cultural na base de uma concepção unitária do Conhecimento. O saber é um todo, que vai das experiências primitivas da magia às primeiras formulações religiosas, ao desenvolvimento do pensamento filosófico no despertar da razão, até as pesquisas científicas, o aprimoramento das manifestações esté ticas e aos progressos tecnológicos. Nessa visão global da evolução humana, hoje confirmada pela Teoria do Conhecimento, o Espiritismo aparece como a cúpula de gigantesco edifício da Cultura.

Os espíritos superficiais ou sectários, que ainda hoje encaram o Espiritismo como um agregado de antigas superstições, uma falsa doutrina marginalizada no plano cultural, ignoram a verdadeira posição epistemológica do Espiritismo. Colocam-se diante da Doutrina Espírita na mesma atitude negativa e insensata dos gregos e romanos que só viam no Cristianismo uma seita judaica seguida por pescadores ignorantes. Mas com isso revelam a sua incapacidade mental e insuficiência intelectual para compreender a grandeza de uma concepção gestáltica. São aqueles que se apegam à sua vida rotineira, às suas idéias superadas e aos preconceitos de uma era que morreu nas atrocidades e horrores da última conflagração mundial. Quem ler este livro com atenção e espírito livre de preconceitos antiquados, perceberá assustado que Kardec, já em meados do século passado, antecipava uma compreensão do mundo que nos coloca no limiar da Era Cósmica.

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