Livro selecionado: "A Gênese"

ÍNDICE

A Mordida no Real

Tratando de Filosofia, Camus referiu-se à necessidade do filósofo morder o real, para não pairar somente no plano das elaborações mentais. Essa exigência de morder o real, muito antes de Camus nascer, já havia sido aplicada no Espiritismo por Kardec. Logo no início deste livro ele expõe o problema da Revelação Espírita, assinalando que não se trata de uma entidade misteriosa, mas de um processo de investigação. Ninguém pode revelar o que não sabe ou o que não descobriu. Uma revelação deve desvendar os segredos de um mistério para que este se torne um fato. Se a revelação não coincidir com o real, não passa de uma elaboração humana. Se for atribuída a Deus, fica provado que essa atribuição foi gratuita. Kardec propõe a tese de revelação contínua, permanente, lembrando que todas as ciências são processos de revelação dos segredos na Natureza. O Espiritismo se insere nesse processo com uma contribuição tanto mais valiosa, quanto o seu objeto não havia sido tratado por nenhuma outra ciência. Todas as ciências conhecidas até então se aplicam às pesquisas materiais. O problema espiritual ficara a cargo das religiões, que falharam totalmente nesse sentido, nada acrescentando ao conhecimento real. A Ciência Espírita veio suprir essa grave deficiência cultural, mostrando a possibilidade da investigação científica do plano espiritual.

A posição científica de Kardec era irrefutável, mas isso não impediu que a contestassem e até mesmo que a ridicularizassem. A resposta de Kardec foi simples e clara: se há fenômenos espirituais, o Espírito é acessível à pesquisa científica. A realidade dos fenômenos foi completamente comprovada. Os negativistas apelaram então para os sofismas: os fenômenos são materiais, decorrem das funções sensoriais e da imaginação da criatura humana. Kardec mostrou que o fenômeno espiritual fala, não é mudo como os demais, e pode explicar-se a si mesmo, revelando inclusive a identidade do espírito que o produz. Apelaram então para os limites das ciências, que só se aplicam à matéria. Kardec lembrou que os limites da Ciência estão na revelação da realidade total do Universo. Não há limites para a busca do conhecimento, que por isso mesmo não pode limitar-se convencionalmente a determinado plano ou recorte do real. Até hoje se apela para a divisão kantiana do conhecimento, com a qual o filósofo pretendeu mostrar a impossibilidade do homem saltar além do plano sensorial, pois entrava então no absoluto, onde a falta das oposições não permitiria a aplicação do processo dialético. Kardec lembrou que o Absoluto é uma abstração e ninguém possui a prova de que ele seja o que supomos.

Apesar de tudo isso, o Espiritismo, e particularmente a Ciência Espírita, foram considerados ilusórios. Mas o tempo correu e hoje as Ciências integram em seus quadros as pesquisas do paranormal, comprovando objetivamente a existência real do Espírito e toda a grandiosa fenomenologia espírita.

A leitura e o estudo de A Gênese são de importância fundamental para a compreensão do Espiritismo. Neste livro Kardec deixa o campo exclusivamente doutrinário para a faixa de relações da Ciência com as demais Ciências, revelando de maneira prática as contribuições do Espiritismo para o desdobramento da nossa cultura. A aplicação dos dados na pesquisa espírita na solução de numerosos problemas insolúveis das ciências materiais é uma exigência do nosso século. Kardec não se limitou a prever essa necessidade, antecipou-se à evolução cultural do Século XX, sem tentar romper os limites da cultura da sua época. Esse admirável equilíbrio intelectual revela o gênio de Kardec. Os dados espíritas lhe serviram para colocar o problema da origem planetária em termos científicos, sem os exageros do apego às concepções exclusivistas do materialismo. Na explicação dos milagres do Cristo e das predições ele contribuiu para a desmistificação do Cristo e do Cristianismo e revelou, com antecipação de um século, as leis básicas do fenomenismo paranormal. Kardec não acusa as ciências por sua posição materialista. Explica que a pesquisa das leis naturais só poderia começar no plano físico, como o fizeram os fisiólogos gregos, pois é a realidade material a que primeiro toca os nossos sentidos de percepção exterior. Por isso mesmo, e como exigência metodológica, a investigação da realidade espiritual teria de iniciar-se pela investigação das manifestações dessa realidade no plano fenomênico.

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